CRÔNICAS DA CHINA

Coloco aqui o link para os interessados em baixar meu e-book “Crônicas da China”. Trata-se de uma série de relatos sobre minhas viagens em território chinês, bem como sobre a cidade onde morei, Xangai.

Nele trato de minhas experiências diárias, mas também-me refiro à densa e milenar história chinesa.

https://www.academia.edu/48887593/Cronicas_da_China_05mai2021_1_

Relatos e imagens dos jesuítas-mandarins (séculos XVI ao XVIII)

Carmen Lícia Palazzo.

(Doutora em História pela Universidade de Brasília, UnB. Especialista em Relatos de Viajantes, encontros entre culturas, imagens ocidentais do Oriente e Rota da Seda. Ministra módulos sobre China e Rota da Seda em pós-graduação lato sensu do UniCeub, Brasília. Foi pesquisadora visitante na Georgetown University, Washington, D.C. É autora de Entre mitos, utopias e razão: os olhares franceses sobre o Brasil (EdiPUCRS) e Alexandra David-Néel: itinerários de uma orientalista (Annablume), além de capítulos de livros e diversos artigos para periódicos de História. E-mail: carmenlicia@gmail.com)

RESUMO: O presente artigo analisa a participação dos jesuítas na elaboração das visões europeias da China no decorrer do período imperial, mais especificamente entre os séculos XVI e XVIII, com ênfase nos seus relatos escritos que circularam em diversos idiomas entre a elite  europeia, mas também na iconografia da época e que teve sua expressão mais apreciada em um conjunto de imponentes tapeçarias francesas. Os padres da Companhia de Jesus muitas vezes alcançaram posições de prestígio junto à corte de diversos imperadores, integrando-se de modo excepcional à sociedade chinesa, descrevendo com muitos detalhes suas percepções que refletiam o fascínio que uma cultura, principalmente em seu viés confucionista, exercia sobre eles. As fontes de pesquisa aqui citadas são os relatos de três dos muitos jesuítas que viveram na China: Matteo Ricci, Álvaro Semedo e Gabriel de Magalhães, altamente representativos do encontro entre mundos tão distintos, e também as tapeçarias que foram produzidas no ateliê de Beauvais entre o final do século XVII e as primeiras décadas do século XVIII, e que bem documentam a sinofilia que então se disseminava entre os europeus.

Palavras-chave: Jesuítas. China. Aculturação. Imagens do Outro.

ABSTRACT:  This article focuses on the role of the Jesuits in the formulation of European views of imperial China between the sixteenth and eighteenth centuries. It focuses on written journals that circulated in different languages ​​among the European elite, but also on the iconography of the period. The latter had its most appreciated expression in a set of imposing French tapestries. Priests of the Society of Jesus often reached prestigious positions at the court of several emperors, integrating exceptionally in Chinese society and describing in much detail their perceptions, evidencing their fascination with that culture, and especially its Confucian aspects. The research sources used here are the accounts of three of the many Jesuits who lived in China – Matteo Ricci, Álvaro Semedo and Gabriel de Magalhães, who are representative of the encounter between such different worlds – as well as the tapestries manufactured in the Beauvais workshop between the end of the 17th century and the first decades of the 18th century, and which document clearly the Synophilia then popular among Europeans.

Keywords: Jesuits. China. Acculturation. Images of the Other.

Introdução

A história dos jesuítas no império chinês é a de um relacionamento na longa duração que gerou um encontro entre culturas, não sem percalços, mas de grande riqueza, iniciando-se nas últimas décadas do século XVI e mantendo-se ativo até meados do século XVIII. O florescimento das relações comerciais entre a Europa e a China e o interesse ocidental pelas porcelanas, sedas, lacas e outros produtos exportados a partir do porto de Macau, contribuíram para que se desenvolvesse um imaginário que associava os países asiáticos ao luxo e ao refinamento, originando a moda europeia das “chinoiseries”.

Os missionários jesuítas constituíram-se em parte de um processo de construção de imagens da China em função de sua frequente correspondência e de seus relatos com detalhadas descrições das longas temporadas nas quais muitos deles viveram no Império do Meio, em estreitos contatos com mandarins e até mesmo com alguns imperadores. As evidências do papel dos jesuítas na veiculação da ideia de uma China sofisticada, na qual era muito clara a valorização da ciência, dos mestres e da educação de um modo geral, estão bem presentes nos seus textos. Vários deles, inclusive, foram traduzidos para mais de um idioma, tendo circulado entre os letrados de diversos países europeus.

O inegável interesse ocidental pela movimentada saga dos jesuítas no império chinês pode ser visto também em uma das peças de um excepcional conjunto de tapeçarias denominado Histoire de l’empereur de Chine, realizado pela primeira vez entre 1684 e 1690, no ateliê de Beauvais. Depois da primeira tecelagem, dado o seu grande sucesso, elas foram reproduzidas muitas outras vezes para atender a encomendas da nobreza e da elite europeia em geral. Nossa pesquisa, então, leva em consideração tanto as fontes escritas quanto a produção material que recontava em imagens, nos salões europeus, o luxo de uma civilização distante.

Dentre os diversos relatos de jesuítas sobre o império chinês, optamos por apresentar, neste artigo, os de Matteo Ricci, Álvaro Semedo e Gabriel de Magalhães, tanto por sua densidade quanto por sua circulação em diversas traduções, o que evidencia o alcance que tiveram entre os leitores de vários países. É importante, ainda, acrescentar que os três foram atores de um fecundo processo de intercâmbio cultural e circularam intensamente entre o mandarinato sendo eles próprios considerados pelos letrados chineses como verdadeiros mandarins.

Matteo Ricci, Álvaro Semedo e Gabriel de Magalhães: relatos de uma aculturação

A Companhia de Jesus iniciou suas atividades na China a partir de Macau, um entreposto comercial luso arrendado pelos chineses ao reino de Portugal. A cidade nasceu no lugar de uma antiga aldeia de pescadores e ali os portugueses pretendiam, inicialmente, estabelecer apenas uma escala bem localizada e de apoio ao florescente comércio por via marítima com diversos portos da Ásia. No entanto, já na segunda metade do século XVI, Macau tornou-se um centro de comércio importante onde estabeleceram-se mercadores que contavam também com o interesse de chineses e de outros negociantes asiáticos, bem como de funcionários da administração imperial do sul da China.

A dinastia Ming (1368-1644) não tinha uma diretriz única em relação ao estabelecimento de estrangeiros em algumas áreas do Império e, no que dizia respeito aos portugueses em Macau, o mandarinato estava dividido, alguns deles contrários à presença dos europeus em geral, mas muitos beneficiando-se do desenvolvimento dos contatos comerciais. (Alves, 1999, 115-118). Os jesuítas ali instalados constituíam-se na comunidade religiosa mais influente na cidade e tinham grande prestígio (Zhu, 2010, 32). Eram “(…) em regra geral juízes de paz de Macau e elite letrada nos contatos com as autoridades oficiais da Ásia Oriental” (Barreto, 2006, 137).

Nem todos os jesuítas de Macau desejavam deixar a região para enfrentar as dificuldades das atividades missionárias em um ambiente que apresentava muitos desafios. Vários deles estavam sedentarizados em atividades no Colégio de São Paulo, que funcionava junto à Igreja Madre de Deus. A importância do Colégio foi muito grande, tanto nas suas funções de escolarização da população local, quanto no seu currículo de nível universitário, que passou a vigorar a partir de dezembro de 1594, quando foram completadas suas novas instalações.

Reconhecido por sua qualidade, o Colégio de São Paulo recebeu como alunos do ensino acadêmico os noviços vindos da Europa, mas que ainda não haviam completado toda a sua formação, e também aqueles que ainda a estavam recém iniciando, em geral jovens macaenses de diversas origens, alguns asiáticos, inclusive japoneses, e outros convertidos ao cristianismo (Malatesta, 1994). A movimentação na península era grande com uma população composta de pessoas de várias etnias, em grande parte ligadas às atividades comerciais.

Foi, portanto, Macau que propiciou aos inacianos o aprendizado inicial sobre a China e, quando a Companhia de Jesus decidiu que enviaria seus missionários para o interior do império, a península macaense mostrou-se um ótimo ponto de partida para o estudo do idioma e também para os primeiros contatos com funcionários chineses que controlavam a movimentação de estrangeiros na região (Palazzo, 2014, 13-31).  A entrada de estrangeiros no império, no decorrer de todo o século XVI e mesmo mais adiante, não era fácil. Fazia-se necessária a autorização do imperador ou de algum alto funcionário da Corte que o representasse.

Entre os missionários pioneiros destacaram-se dois padres jesuítas italianos, Michele Ruggieri e Matteo Ricci, o primeiro tendo desembarcado em Macau em 1579 e o segundo, em 1582. Ambos teceram boas relações com diversos mandarins e, com muita habilidade, conseguiram permissão para deixar a península macaense e seguir para o interior do império, onde estabeleceram missões em mais de uma cidade. Ruggieri, no entanto, após um importante trabalho de intensos contatos com letrados chineses, retornou à Europa no ano de 1588 e não mais voltou à China, enquanto Ricci nela permaneceu em grande atividade até a sua morte, ocorrida em Beijing, em 1610.

O padre Matteo Ricci deixou uma das mais importantes obras escritas sobre o desenvolvimento das atividades missionárias no Império do Meio, mas também sobre seus contatos com o letrados, incluindo diversas passagens sobre a importância do confucionismo nas relações familiares e sociais em geral. Por ocasião de sua morte, o texto[1] de seu relato já estava praticamente concluído e foi outro jesuíta, o padre belga Nicolas Trigault, quem recolheu o manuscrito e o levou para Roma.

Foi também Trigault quem traduziu todo o texto para o latim, acrescentando-lhe diversas páginas de sua autoria no final, porém autenticando o original, em 26 de fevereiro de 1615, como sendo efetivamente de Matteo Ricci (Ricci, 2010, LVI). Ainda assim, foi o nome de Nicolas Trigault que apareceu nas muitas edições europeias, não apenas em latim, mas na tradução para o francês, em 1616, para o alemão, em 1617 e para o espanhol, em 1621 (Mungello, 1989, 48).  As traduções muito contribuíram para a divulgação da imagem da China entre a elite letrada europeia que, já no início do século XVII, apreciava também vários produtos importados da Ásia, entre eles a porcelana azul e branca, que havia alcançado um alto grau de qualidade durante a dinastia Ming.  

Ricci destacou em seu relato a relevância dos letrados chineses nas mais altas funções da administração e fez também referência aos rigorosos exames imperiais que eram realizados para selecionar os funcionários da sofisticada burocracia do império (Ricci, 2010, 32-38).  Sobre Confúcio, o inaciano deixou bem claro que se tratava de um mestre, um verdadeiro filósofo, e tão digno de atenção quanto alguns pensadores ocidentais. Seu fascínio por Confúcio e pelas regras do confucionismo ficam bastante evidentes em boa parte do seu relato. Em uma de suas passagens, escreveu que:

O maior filósofo entre eles é Confúcio que nasceu quinhentos e cinquenta e um anos antes da vinda do Senhor ao mundo e viveu mais de setenta anos de uma boa vida ensinando esta nação com palavras, obras e escritos; de todos é tido e venerado como o mais santo homem que teve o mundo. E, na verdade, naquilo que disse e na sua boa maneira de viver, de acordo com a natureza não é inferior aos nossos antigos filósofos, excedendo a muitos deles (Ricci, 2010, 28-29)[2].    

A vasta correspondência que Ricci manteve com seus companheiros que estavam na Europa foi também responsável pela difusão de uma imagem positiva do Império do Meio (Ricci, 2001). Sem dúvida seu objetivo era o de motivar os jesuítas que se encontravam em postos decisórios e importantes, e sobretudo o supervisor geral da Companhia, em Roma, a olhar com simpatia para o trabalho missionário que estava sendo realizado na China. E suas interpretações da espiritualidade chinesa eram filtradas pela ótica do cristianismo e por seu objetivo principal, o de converter os chineses.

No entanto, além da importância de manter aceso o entusiasmo de seus superiores pela atividade missionária no império, era clara a admiração que o jesuíta italiano devotava a muitos aspectos da sociedade na qual estava vivendo, entre eles a realização dos chamados concursos ou exames imperiais, que tinham como objetivo a seleção dos funcionários de uma vasta e intrincada burocracia. Em seu relato, Ricci refere-se à importância do estudo dos livros Clássicos chineses, comentando também sobre a dificuldade das provas (Ricci, 2010, 28-38). Suas observações são muito corretas, detalhando os graus obtidos pelos letrados de acordo com os distintos níveis dos concursos e coincidem com todos os documentos que atualmente fazem parte do acervo do Museu do Sistema dos Concursos Imperiais, em Jiading[3].

A qualidade das informações que Ricci transmitia sobre a China era devida, sem dúvida, ao seu contato muito próximo com o mandarinato, já que os jesuítas eram aceitos pelos chineses como homens sábios, originários do Ocidente. Embora inicialmente tanto Ruggieri quanto Ricci tenham adotado os trajes dos “bonzos”, como os jesuítas chamavam os monges budistas, inclusive raspando a cabeça, nas relações mais frequente com os altos funcionários da burocracia imperial, deram-se conta de que a classe mais respeitada era a dos mandarins e não a dos monges. Passaram, então, a adotar as sofisticadas vestes de seda que os tornavam muito semelhantes aos letrados do império, deixando crescer os cabelos e a barba.

Matteo Ricci pediu a necessária autorização ao supervisor e visitador das missões na Ásia, o padre Alessandro Valignano, para essa troca na aparência, e foi atendido. Valignano deu sua concordância por escrito, em novembro de 1594 (Ricci, 2010, 230), para que os missionários pudessem exercer suas atividades com bons resultados, pois era ele mesmo um entusiasta dos métodos de aculturação nas sociedades fora da Europa.

Tal proximidade com o mandarinato, porém, ocasionou algumas críticas, muitas vezes da parte de outras ordens. Alguns padres espanhóis que estavam nas Filipinas também mostraram-se pouco favoráveis ao intenso processo de aculturação iniciado por Michele Ruggieri e Matteo Ricci na China. Em mais de uma oportunidade, deixaram claro o seu descontentamento (Dunne, 1962, 226-244). Em defesa dos inacianos, o próprio Alessando Valignano, escreveu:

(…) quanto ao que diz frei Martín [um irmão missionário franciscano] que vestem-se [os jesuítas] em trajes chineses e que não tratam de conversão, é verdade que andam vestidos à maneira de letrados chineses e que trazem as barbas crescidas e também os cabelos até as orelhas (…) isto se fez por ordem minha e pelo parecer de muitas outras pessoas sérias e letradas da Companhia (Valignano, 1998, 88).  

Matteo Ricci deu também, em seu relato, muitas informações sobre os hábitos chineses, sobre a etiqueta, os costumes à mesa e destacou que, sempre que os padres eram convidados à casa de algum mandarim, era servido chá, considerado uma peça importante da cortesia (Ricci, 2010, 61). Os europeus, por sua vez, admirando o luxo das cortes asiáticas, iniciaram-se no consumo do chá antes mesmo que a sua produção se desenvolvesse em larga escala na colônia britânica da Índia (Forrest, 1973, 24 e 45-51).

Ricci foi, não apenas um dos responsáveis e certamente um dos pioneiros na difusão de imagens da China entre os europeus, mas também mostrou aos letrados chineses uma Europa que tinha muito a oferecer em matéria de conhecimentos científicos. Suas habilidades em cartografia, em matemática euclidiana e em mecânica, na construção de apreciados relógios, tornaram-no muito requisitado pela elite chinesa, abrindo-lhe várias portas em todas as cidades onde esteve no interior do império e, posteriormente, em Beijing. Não foram muitas as conversões realizadas diretamente por Matteo Ricci e por seus companheiros no início das atividades missionárias, mas alguns dos convertidos, sempre membros do mandarinato chinês, vieram a ser também seus colaboradores e o auxiliaram na tradução de diversos textos.

No passado, os chineses tinham alcançado grande destaque nas ciências exatas e, no século VI, Zu Shongzhi calculou o pi grego até um valor que levou séculos para ser superado (Fontana, 2011, 97). No entanto, no decorrer da dinastia Ming, houve um decréscimo em diversos conhecimentos e o império esteve, por um tempo considerável, fechado a contatos com outras sociedades, mesmo asiáticas, contatos que tinham florescido nos períodos de maior relevância da chamada Rota da Seda. Desta maneira, a chegada dos jesuítas e principalmente sua apurada formação intelectual despertou um grande interesse naqueles que podiam ser considerados seus pares na China.

O mais conhecido dos mandarins que se tornaram amigos de Matteo Ricci foi Xu Guangqi, cujo nome de batismo era Paulo e que passou a ser chamado também de Siu Paulo ou Siu Paulus. Xu ou Paulus destacou-se na intrincada burocracia chinesa, pois nos concursos imperiais foi aprovado no mais alto grau do mandarinato, mesmo depois de convertido à religião católica. Como os missionários equiparavam a etapa mais elevada dos exames chineses a um doutorado europeu, o Xu Guangxi passou, então, a ser conhecido entre eles como “doutor Siu Paulus”.

Ainda no decorrer da dinastia Ming, foram quatro os letrados de maior destaque que se converteram ao cristianismo, Xu Guangqi, Li Zhizao, Yang Tungyun e Wang Zheng. A grande motivação de todos eles era o conhecimento científico demonstrado pelos jesuítas, com destaque para a matemática e a cartografia. Os padres eram considerados representantes da “ciência do ocidente”, que exercia grande fascínio no ambiente letrado da China. (Zhang, 2009, 44)

Na Europa, a imagem de Siu Paulus circulou a partir da publicação de uma importante obra de Athanasius Kircher sobre a China, que alcançou grande sucesso nos séculos XVII e XVIII (Kircher, 1667). Conhecida por seu título abreviado de China Monumentis ou China Illustrata, foi traduzida para diversos idiomas e, já no ano de 1670, aparecia em francês, a língua internacional da maior parte da elite culta europeia. Na obra de Kircher, há uma gravura com Matteo Ricci em trajes de mandarim ao lado de Siu Paulus (Kircher, 1670, entre páginas 200 e 201).

Matteo Ricci e Xu Guangqi. ou Siu Paulus. Gravurista: provavelmente Wenceslaus Hollar. Em Kircher, 1670, entre p. 200 e 201. (Imagem de domínio público.)

Tendo desembarcado em Macau em 1610, no mesmo ano em que Matteo Ricci falecia em Beijing, o jesuíta português Álvaro Semedo também manteve um intenso contato com os letrados chineses, seguindo o processo de aculturação que já havia sido iniciado por seus antecessores. A sua permanência no império, depois que deixou a península macaense, não foi sem percalços. Semedo instalou-se em Nanjing em 1613, mas passou por várias dificuldades em virtude de um período de perseguição aos missionários naquela cidade, tendo que retornar ao enclave português no ano de 1616.  

Se Ricci havia sido alvo de raras manifestações contra a sua presença na China[4], Álvaro Semedo, por sua vez, enfrentou tempos mais difíceis, no quais havia uma exacerbada animosidade contra os missionários, motivada pelo medo em relação aos estrangeiros, em tempos conturbados para a dinastia Ming. Entre os anos de 1615 e 1616 o jesuíta português chegou a ser preso, acusado de propagar crenças nocivas aos chineses, mas em 1621 já havia sido admitido novamente no continente, onde viveu até 1658, quando faleceu em Guangzhou (Cantão).

O relato de Álvaro Semedo sobre a China teve sua primeira edição em espanhol, em 1642 e não há nenhuma evidência de outra anterior, em português. Seguiram-se traduções para o francês, em 1645, e para o inglês, em 1655 (Mungello, 1989, 75), o que evidencia o interesse que o Império do Meio despertava na Europa, em meados do século XVII. Acreditamos ser possível afirmar que tal interesse antecedia em muito o chamado “orientalismo” que viria a se desenvolver a partir do século XVIII e, ainda com maior intensidade, no decorrer do século XIX, associado ao expansionismo europeu e bastante voltado para o Oriente Médio e para os países muçulmanos do norte da África.

Semedo descreveu de maneira detalhada o idioma chinês e fez comentários bastante favoráveis à educação no império, destacando as características da escrita e a capacidade de memorização dos estudantes, algo que despertava grande interesse na Europa (Semedo, 1642, 49-54). Para os jesuítas, sem dúvida, o encontro com uma sociedade que prestigiava os mestres e valorizava o estudo apresentava uma real possibilidade de diálogo, o qual tornava-se ainda mais fecundo pelo fato de os padres terem se dedicado com muito afinco ao estudo do idioma.

Assim como Matteo Ricci, Álvaro Semedo referiu-se, no seu relato, com bastante precisão aos livros Clássicos chineses que continham os textos cujo conhecimento era exigido dos candidatos aos concursos imperiais. O fato de que os letrados eram os principais interlocutores dos padres permitia que estes obtivessem informações bastante fidedignas a respeito dos estudos na China.

A escrita chinesa era também motivo de admiração para os europeus e Semedo não deixou de registrar sua antiguidade: “as letras que usam parecem ser tão antigas quanto a própria gente, pois conforme seus monumentos históricos escritos com elas, conhecem-nas há mais de 3.700 anos (…)” (Semedo, 1642, 34). Sua descrição dos exames imperiais é extremamente detalhada, não apenas em relação aos três graus aos quais os candidatos podiam concorrer, de acordo com sua capacitação nos estudos, mas também quanto à maneira como se desenvolviam as provas e, ainda, quanto ao prestígio daqueles que chegavam ao seu mais elevado patamar  (Semedo, 1642, 61-69).

No relato de Álvaro Semedo, há uma boa descrição do interesse dos chineses pela Astronomia, destacando que o estudo dessa ciência era totalmente vinculado ao controle da Corte imperial (Semedo, 1642, 78). Realmente, a elaboração do calendário, o detalhamento de períodos de plantio e de colheitas, as previsões de eclipses e até mesmo o estabelecimento de datas auspiciosas ou nefastas eram considerados assuntos de alto interesse do império e só poderiam ser tratados por mandarins da confiança do imperador. Os europeus, portanto, estavam bem informados pelos jesuítas acerca da vontade de aperfeiçoamento dos chineses em determinadas áreas e da sua importância, o que levou muitos dos inacianos altamente capacitados a atuarem junto à Corte, principalmente como matemáticos e astrônomos.

A medicina tradicional chinesa era, na época, desconhecida na Europa, mas chamou a atenção dos jesuítas e Álvaro Semedo a descreve no seu relato, destacando a precisão da prática de tomar o pulso:

No pulso realmente são admiráveis. Tomam-no muito devagar em ambos os braços, bem descansados, sobre almofadas ou outra coisa e por ele conhecem o achaque do enfermo, sem que lhe façam nenhuma pergunta sobre o que lhe dói. Não direi que acertam todos e em tudo, porque há médicos ignorantes, mas os estudiosos e bons, sim, acertam. (Semedo, 1642, 83)

Outro jesuíta português, o padre Gabriel de Magalhães, estabeleceu-se em Hangzhou, no sul da China, em 1640, indo posteriormente para Chengdu e, em 1648, instalando-se em Beijing. Seu relato foi publicado posteriormente ao de Álvaro Semedo e também continha informações detalhadas sobre a China e sobre o denso relacionamento que ele próprio manteve com o mandarinato. O relato de Magalhães, escrito em português, também não circulou na Europa em português mas, inicialmente, na tradução francesa feita pelo abade Claude Bernou (Magaillans, 1688)[5]

No mesmo ano de 1688 foi publicada uma tradução para o inglês e, portanto, nestes dois idiomas é que o texto foi, inicialmente, lido pelos europeus. Em diversos aspectos, o relato de Magalhães é ainda mais detalhado do que os anteriores e sua descrição de Beijing mostrou-se bastante semelhante à cidade daquela época. A partir da descrição do jesuíta o tradutor para o francês, Bernou, acrescentou na obra o desenho de um mapa, o Plan de la Ville de Pekim Capitale de la Chine (Magaillans, 1688, encarte entre as páginas 274 e 275).

O idioma chinês continuava despertando grande interesse nos europeus e o padre Gabriel de Magalhães deteve-se longamente na sua análise. Ele afirmava que a sua escrita era não apenas muito antiga como também anterior aos hieróglifos do Egito. Mesmo beirando a fantasia, sua descrição das características da escrita chinesa mostra, sem dúvida, grande encantamento:

Ainda que os egípcios se gabem de ter sido os primeiros a possuir letras e hieróglifos, é certo, porém, que os chineses os tiveram antes deles. Todas as outras nações tiveram uma escrita comum, que consiste em um alfabeto de mais ou menos vinte e quatro letras que têm aproximadamente o mesmo som, ainda que sua imagem seja diferente; mas os chineses têm cinquenta e quatro mil quatrocentas e nove letras, que exprimem o que elas significam com tanta graça, de vivacidade e de força, que parece que não são caracteres, mas vozes e línguas que falam ou, melhor dizendo, figuras e imagens que exprimem e representam ao vivo o que elas significam, tanto o artifício destas letras é admirável. (Magaillans, 1688, 84).

No relato, seguem-se a este trecho diversos exemplos de caracteres chineses, enfatizando aqueles cuja representação figurativa tem relação com o seu significado o que, conforme sabemos, não é o caso da imensa maioria dos caracteres, mas sempre exerceu grande fascínio no Ocidente. Fica bastante claro, em grande parte do relato, que o jesuíta se interessou com certa profundidade pela escrita chinesa, pois suas explicações remontam às formas mais antigas de algumas palavras, que ele transcreve de maneira muito correta (Magaillans, 1688, 85-86).

O respeito dos chineses pelas pessoas mais velhas e também à memória dos seus antepassados e mais ainda por seus pais já falecidos, é um tipo de comportamento que fez com que os jesuítas os considerassem dignos de admiração. O culto aos ancestrais, uma prática confucionista que, no século XVIII criou tantos problemas e deu origem a tantas críticas da parte de outras ordens e até mesmo do Vaticano, foi entendido pelo padre Magalhães, bem como por outros jesuítas, como algo digno de ser apreciado:

Vemos setecentos e nove templos construídos pelos chineses em diversas épocas, em memória de  seus ancestrais e consideráveis pelo seu tamanho e pela beleza de sua arquitetura. Os chineses se acostumaram com o testemunho de um amor e de uma obediência extraordinária por seus pais, principalmente depois da sua morte, e é para o demonstrar que eles mandam construir com grandes custos salas soberbas, nas quais em lugar de imagens e de estátuas eles colocam cartuchos com os nomes de seus pais. Em certos dias do ano, determinados pela família à qual pertence o templo, eles reúnem-se nessas salas, onde se prosternam no chão em sinal de amor e de respeito (…). (Magaillans, 1688, 56)

A descrição de Gabriel de Magalhães é bastante fiel às cerimônias nos templos confucionistas e fica evidente no seu texto que ele não considera os rituais que homenageiam os antepassados como manifestações religiosas incompatíveis com o cristianismo. Tal debate viria a ocorrer mais adiante e de maneira muito acirrada, com o recrudescimento da chamada “querela dos ritos”, que tantos problemas causou para a Companhia de Jesus (Peretti, 2016, 9-12).

Nem toda a longa estadia chinesa do padre Magalhães foi, porém, agradável, pois ele viveu em tempos conturbados do império chinês, em plena conquista manchu, estando em Chengdu, na companhia do padre italiano Ludovico Buglio, numa época de sangrentas insurreições contra os invasores. Com a vitória dos que viriam a se autodenominar dinastia Qing, ambos os jesuítas foram presos e conduzidos a Beijing quando o rebelde Zhang Xianzong foi morto por soldados manchus. Os jesuítas escaparam de condenações mais graves por intercessão de outro padre, o alemão Johan Adam Schall von Bell, que então já havia conquistado o apoio dos novos senhores da China e era muito prestigiado em suas funções de astrônomo imperial (Patternicò, 2014, 65).

Mais adiante, enfrentando novos problemas e denúncias, Magalhães foi mais uma vez preso em virtude de acusações de alguns mandarins. Era comum que ocorressem tais problemas, pois nem todos os cientistas da corte gostavam de ter seu prestígio dividido com estrangeiros de destaque junto ao imperador. A tudo, somou-se uma longa e amarga disputa com Adam Schall, ainda que este o tivesse ajudado em seus problemas iniciais com os chineses no período da queda da dinastia Ming. Schall, porém, muito cuidadoso e bastante apreciado pelo imperador Shunzhi, para o qual trabalhava como astrônomo, evitava sempre maiores problemas que pudessem colocar em risco o conjunto das atividades dos jesuítas na China.

No entanto, apesar das muitas atribulações, grande parte das rusgas, dos desentendimentos, mesmo os mais graves, eram resolvidos dentro do império e raramente afloravam com repercussão na Europa. Era rara a interferência das autoridades da Companhia de Jesus em relação ao trabalho dos inacianos na China e a extrema distância, com a lentidão na troca de correspondência entre a Europa e o Império do Meio, faziam com que os missionários tivessem que gerir de maneira independente o conjunto de suas atividades, inclusive as inevitáveis disputas em um ambiente de muita concorrência.

De um modo geral, porém, a maioria dos mandarins chineses acolhia os jesuítas com grande interesse por seus conhecimentos científicos, portanto boa parte das imagens veiculadas pelos padres tinha um caráter positivo e elas mantiveram-se apesar de alguns raros períodos de perseguições voltadas para as atividades missionárias. Em Beijing, demonstrando seus conhecimentos principalmente em matemática e em astronomia junto à Corte, os inacianos fizeram-se úteis a mais de um imperador.

O próprio Gabriel de Magalhães foi muito apreciado também por suas habilidades em mecânica, pelos relógios e autômatos que ele mesmo fabricava e também consertava e que encantavam os chineses. Um carrilhão que, com as horas, tocava música, fez grande sucesso e ficou muito conhecido em Beijing. (Mungello, 1989, 92).

Era, sem dúvida, intensa a movimentação dos missionários e o processo de acomodação que foi iniciado por Matteo Ricci com grande apoio do Supervisor das Missões na Ásia, Alessandro Valignano, continuou, mais adiante, gerando imagens positivas da China junto aos europeus no decorrer de todo o século XVII e até grande parte do século XVIII. Podemos dizer que o interesse das elites letradas encontrava, assim, diversas fontes para alimentar sua curiosidade e encanto que se concretizou na moda das chinoiseries.

Imagens dos jesuítas nas chinoiseries europeias: as tapeçarias de Beauvais

A moda que ficou conhecida na Europa como chinoiseries, nos jardins, nas pinturas, no mobiliário e nos mais variados objetos de decoração a partir de meados do século XVII e, mais intensamente, no decorrer de todo o século XVIII (Goux, 2020), enquadra-se em um movimento mais amplo de sinofilia, que foi bastante claro em todo o período setecentista.

Com relação à presença, por um longo tempo, dos jesuítas no interior do Império do Meio, sua aceitação dependeu muito da política interna chinesa em cada época. Houve perseguições em momentos de crise e principalmente quando uma dinastia estava sob ameaça de perder o trono para outros grupos, fossem eles internos ou vindos das fronteiras do norte, como no caso da conquista manchu.

Após os períodos de instabilidade, no entanto, os jesuítas sempre voltavam a ser valorizados, mesmo sofrendo pontualmente em virtude de algumas rivalidades, principalmente devido aos seus conhecimentos científicos e aos altos cargos que ocupavam na corte.  A própria estrutura e dificuldade de aprovação nos concursos ou exames imperiais levava a que muitos mandarins fossem bastante ciosos de suas posições na burocracia. Mas foram, sem dúvida, as imagens de prestígio dos inacianos que circularam intensamente na Europa e em especial aquelas dos padres exercendo as suas importantes atividades de cientistas junto aos imperadores – o que correspondia à realidade.

Se, por um lado, os relatos escritos dos jesuítas foram muito importantes na difusão de imagens da China entre os europeus, por outro lado os objetos da cultura material também contribuíam para manter presente as referências ao exotismo. Com os crescentes interesses comerciais dos exportadores e importadores que movimentavam as rotas marítimas da Ásia, chegavam na Europa as porcelanas, sedas e lacas que eram muito apreciadas pela nobreza e pela rica burguesia, com suas casas decoradas de acordo com a moda de cada época. As porcelanas estavam entre os produtos mais transportados nos grandes navios das chamadas Companhias das Índias, no entanto a produção europeia também começava a se desenvolver, não apenas copiando peças das manufaturas chinesas, mas também com criações próprias, como era o caso das tapeçarias.

Dois padres que chegaram a exercer a função de diretores do Observatório Astronômico de Beijing, o alemão Johan Adam Schall von Bell e o flamengo Ferdinand Verbiest foram, entre o final do século XVII e o início do XVIII, representados em um conjunto de tapeçarias francesas denominado L’Histoire de l’empereur de Chine. Como era habitual na época, as tapeçarias foram manufaturadas de acordo com as encomendas do circuito da elite europeia em dos ateliês mais prestigiados do reino, o de Beauvais.

Não é possível avaliar com exatidão quantas vezes foram reproduzidas cada peça do referido conjunto, no entanto, ainda atualmente, várias delas podem ser encontradas em museus e em coleções privadas de diversos países. E há o registro de alguns clientes que as encomendaram ao ateliê de Beauvais, onde foram executadas, entre eles o então jovem duque do Maine, Louis Auguste de Bourbon, filho do rei Luís XIV com Madame de Montespan (Marty, 2014, 17).

Foi Luís XIV justamente o monarca que enviou para a China um grupo de jesuítas diretamente vinculados à Coroa francesa e, pela primeira vez, não submetidos ao Padroado português.[6] Denominada Missão Francesa, seus integrantes tinham recebido também o apoio da Academia de Ciências de Paris e chegaram em Beijing no ano de 1688, sendo muito bem recebidos pelo imperador Kang’xi e por boa parte do mandarinato.

No final do século XVII os chineses já estavam habituados à qualidade do trabalho dos inacianos e sobretudo a seus conhecimentos de cartografia, de matemática e de astronomia. Assim, a saga da Companhia de Jesus na China era largamente apreciada na França, o que sem dúvida fez com que dois dos padres, mesmo de outras nacionalidades, fossem não apenas representados em uma obra decorativa de porte, mas também de circulação nas mais altas esferas da elite francesa.

Os padres Schall e Verbiest não faziam parte da missão enviada pelo monarca francês e a antecederam, mas suas importantes funções na China eram de conhecimento dos europeus. Justamente um dos membros da referida Missão, o padre Jean de Fontaney, escreveu uma carta ao confessor de Luís XIV na qual descrevia as homenagens que Ferdinand Verbiest havia recebido da parte dos chineses em seu funeral, realizado em 1688 (Fontaney, 2001, 65). Verbiest, que viveu na China entre 1659 e 1688, havia sucedido Adam Schall na direção do importante Observatório Astronômico.

A imagem que segue mostra a peça denominada Les Astronomes, do conjunto de tapeçarias ao qual nos referimos e traz uma cena na qual estão representados, muito provavelmente, os dois jesuítas-astrônomos, Adam Schall von Bell e Ferdinand Verbiest, o imperador Shunzhi e seu filho Kang’xi. Não há registro que descreva quem são exatamente as figuras da tapeçaria, mas o padre Schall foi diretor ao Observatório durante o reinado do imperador Shunzhi, entre os anos de 1644 e 1664, portanto em um período no qual Kang’xi era ainda uma criança. Assim, o menino próximo a Verbiest, poderia ser justamente o então príncipe Kang’xi que, após suceder o pai, tornou-se um grande admirador e protetor dos jesuítas.

Tapeçaria Les Astronomes. Foto nossa no Museu Leblanc-Duvernois, em Auxerre.

Os trajes de ambos os padres são as tradicionais vestes de mandarins chineses, o que corresponde ao grau que eles atingiram na burocracia. O cisne bordado em um quadrado no peito de Adam Schall é a figura que os mandarins de grande importância costumavam usar. Provavelmente o desenho na tapeçaria foi inspirado por uma gravura retratando Schall e que se encontra na obra de Athanasius Kircher, publicada em sua tradução para o francês um pouco antes da realização das pinturas dos cartões[7] que serviram de base para os tecelões (Kircher 1668, 138). Cabe lembrar que a obra de Kircher, ele mesmo um jesuíta, foi escrita originalmente em latim, mas circulou em muitas traduções e em diversos países europeus, difundindo também o prestígio que os padres desfrutavam no Império do Meio.

Além de Louis Auguste de Bourbon, sabe-se que o conjunto das tapeçarias L’Histoire de l’empereur de Chine foi encomendado também por outras personalidades europeias, entre elas Louis Alexandre de Bourbon, conde de Toulouse, François-Louis de Wittelsbach, um eclesiástico do Sacro Império Romano Germânico e Joseph-Jean-Baptiste Fleuriau d’Armennonville, de uma família de comerciantes de Tours (Marty, 2014, 29-33), o que mostra o alcance das imagens registradas em peças de tanto prestígio.

Observar a circulação das histórias sobre os contatos dos jesuítas na China, ainda que recontadas e interpretadas livremente pelos artistas que criaram as cenas, leva-nos a constatar que os europeus letrados estavam bem informados sobre as atividades de prestígio que os inacianos exerciam junto à corte de um império milenar. E, tendo os padres efetivamente atuado como cientistas, reconhecidos como verdadeiros mandarins, era sem dúvida legítimo que naquela época os europeus vissem a China como uma sociedade culturalmente avançada, com a qual era possível e até mesmo desejável dialogar.

O derradeiro golpe neste fecundo encontro entre culturas ocorreu com a dissolução da Companhia de Jesus, em 1773 ainda que, antes disto, a querela dos ritos à qual já nos referimos tenha contribuído para prejudicar largamente o bom relacionamento entre ambas as partes.

Conclusão

Nosso objetivo, neste artigo, foi o de mostrar, com a análise da documentação tanto escrita quanto iconográfica, a importância dos jesuítas como responsáveis pela divulgação, entre os europeus, de imagens de uma China admirável e, em muitos aspectos, comparável à Europa. A sua civilização milenar, ainda que não cristã, era por eles considerada como digna de atenção e meritória de uma interlocução positiva.

Com seus relatos muito detalhados sobre a cultura confucionista dos mandarins e sobre o respeito demonstrado pelos chineses às ciências, os padres estimulavam, na Europa, o que viria a ser conhecido como um período de sinofilia entre as elites letradas. Da mesma maneira, as descrições dos exames ou concursos imperiais também permitiram que os europeus tomassem conhecimento da estrutura da burocracia chinesa, na qual a qualificação baseava-se no estudo árduo e competitivo.

A própria aceitação dos missionários como cientistas, atuando no coração da corte em funções de grande prestígio, descortinava um tipo de intercâmbio ao qual os letrados europeus não estavam acostumados, ao menos não em tal escala e com tal projeção fora do seu próprio continente. O império chinês, até meados do século XVIII era solidamente centralizado e muito cioso de sua importância, o que também fazia com que a relação com os missionários pudesse ocorrer entre semelhantes, apesar das divergências e até mesmo disputas algumas vezes acirradas.

O fato de ser estimulado, na Companhia de Jesus, o aprendizado do idioma das sociedades nas quais os padres exerciam suas atividades missionárias, sem dúvida facilitou a estreita convivência dos mesmos com o mandarinato, permitindo que ocorresse um fecundo intercâmbio cultural. Com todas as dificuldades que alguns dos inacianos enfrentaram e apesar dos momentos críticos que ocorreram, com diversas turbulências na política interna chinesa, especialmente durante a invasão e posterior conquista manchu, a maioria deles manteve um olhar de grande abertura e até mesmo de admiração de uma cultura com a qual estabeleceram um verdadeiro diálogo.

Os manchus, por sua vez, ao adotar grande parte dos hábitos e o idioma dos chineses, e ao manter a valorização dos concursos imperiais, quando subiram ao trono como a poderosa dinastia Qing (1644–1911) tiveram nos inacianos colaboradores excepcionais. Com o apoio dos padres desenvolveram seus conhecimentos de matemática, de mecânica e de astronomia até o final do século XVIII, quando então ocorreu o rompimento na mesma época da extinção da Companhia de Jesus.

O comércio de luxo que levava aos europeus a porcelana e tantos outros produtos muito apreciados constituía-se, por sua vez, no suporte material igualmente relevante como cenário no qual se desenvolviam ideias sobre a China, que chegaram até os pensadores Iluministas. É possível, então, dizer que mais do que um interesse superficial pelo exótico, o conhecimento sobre as atividades dos jesuítas no Império do Meio estava integrado na ampliação da visão de mundo do Ocidente entre os séculos XVI e XVIII, visão esta que se realizava, nos exemplos que analisamos, a partir da aculturação dos inacianos em uma sociedade muito distinta daquela de suas origens mas nem por isto de menor densidade cultural.

Se a catequese era um aspecto importante nas atividades dos jesuítas, ao entender que ela poderia se dar através da valorização da ciência desenvolvida na Europa – ciência da qual eles, com razão, consideravam-se representantes – abria-se o caminho para um intercâmbio que frutificava. Neste contexto, a divulgação de imagens da China entre os europeus inseria-se como parte da própria interação entre ambas as culturas.

Ainda hoje, na atual República Popular da China, um país moderno e que se desenvolve a passos acelerados, permanece a lembrança da história dos jesuítas no Império do Meio. As cópias do mapa de Matteo Ricci ainda despertam a atenção dos visitantes de mais de um museu do país. Os visitantes do Museu do Antigo Observatório Astronômico, localizado em Beijing, deparam-se com uma homenagem a Johan Adam Schall von Bell e a Ferdinand Verbiest, com painéis legendados em mandarim e inglês, contando um pouco sobre a atuação dos dois padres-astrônomos na Corte dos Qing. E o Cemitério Jesuíta de Zhalan, também na capital, no qual dezenas de túmulos de inacianos que viveram e morreram nas terras do império estão bem cuidados pelas autoridades chinesas, permanece como testemunho de um longo período no qual os encontros entre o Ocidente e o Oriente foram mais amplos, mais densos e mais fecundos do que os desencontros.

Túmulo de Matteo Ricci. Cemitério Jesuíta de Beijing, Zhalan. Foto nossa.

Referências

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FONTANEY, J. Carta de 15 de fevereiro de 1703, enviada a R. P. De La Chaise. Em Vissière & Vissière, I. e J.-L. (ed.). Lettres Édifiantes e Curieuses des Jésuites de Chine (1702-1776). Paris: Desjonquères, 2001: 59-75.

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RICCI, Matteo. Della entrata della Compagnia di Giesù e Christianità nella Cina. Macerata: Quodlibet, 2010. (Editado por Piero Corradini a partir do manuscrito do Arquivo Romano da Companhia de Jesus, em: Jap.-Sin., 106a.).

RICCI, Matteo. Lettere (1580-1609). Macerata: Quaderni Quodlibet, 2001.

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Fontes iconográficas:

Tapeçaria Les Astronomes. Museu Leblanc-Duvernois, em Auxerre, França. Foto do   nosso arquivo pessoal.

Imagem de Matteo Ricci e Siu Paulus/Xi Guangqi. Em KIRCHER, Athanasius. La Chine illustrée de plusiers monuments tant Sacrés que Profanes, et de quantité de Recherches de la Nature & de l’Art. Amsterdam: Jan Jansson & les heritiers de Elizée Weyerstraet, 1670: gravura entre as páginas 200 e 201.

Túmulo de Matteo Ricci. cemitério Jesuíta de Zhalan, Beijing. Foto do nosso arquivo pessoal.

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NOTAS:

[1] As duas edições mais acuradas da obra de Ricci são: 1) a comentada por P. Pasquale d’Elia, S.J., sob o título de Storia dell’introduzione del Cristianesimo in Cina ; 2) a editada por Piero Corradine a partir do manuscrito original do Arquivo Romano da Companhia de Jesus e comentada por Maddalena del Gatto, que mantém o título original dado por Ricci, Della entrata della Compagnia di Giesù e Christianità nella Cina. Esta última foi a fonte que escolhemos para o presente artigo já que, em sua fidelidade ao manuscrito, mantém a rica linguagem do autor (repleta de influências do português, do espanhol e mesmo do mandarim), sem alterações por parte do editor (Ricci, 2010).

[2] No presente artigo, todas as traduções para o português de fontes e bibliografia em outros idiomas, são nossas.

[3] O referido museu está instalado no interior de um antigo templo dedicado a Confúcio, na rua Nandajie nº 183, em Jiading, atualmente um distrito de Xangai.

[4] Os episódios que mais preocuparam os missionários que acompanhavam Matteo Ricci foram provavelmente ocasionados por ciúmes de alguns funcionários chineses em virtude da importância que os jesuítas tinham alcançado junto a muitos letrados. Na primeira estadia de Ricci em Nanjing ele foi expulso da cidade, no entanto mais adiante retornou, recebendo total proteção e até mesmo o apreço das autoridades locais (Ricci, 2010, 240-245,e 282-291).

[5] O sobrenome de Gabriel de Magalhães foi grafado como Magaillans, pelo tradutor francês, que se referiu ao fato de que os franceses não saberiam pronunciar o sobrenome português do jesuíta. A edição em inglês o seguiu. (“Préface” in Magaillans, 1688, s/p).

[6] Depois da referida Missão totalmente patrocinada pelo monarca francês, houve outros casos de jesuítas que atuaram sem a subordinação a Portugal, o que gerou forte reação portuguesa. Mais adiante, D. João V (que reinou de 1706 até 1750) tentou solucionar a questão e aproveitou a ida de Alexandre Metelo de Sousa e Meneses em uma embaixada à China para tratar de problemas relativos a Macau, instruindo-o a pedir ao imperador Yongzheng para que este não mais aceitasse missionários que não estivessem vinculados ao Padroado. Seu pedido, porem, não foi considerado, e os próprios jesuítas que se encontravam no império chinês manifestaram-se a favor da liberdade de ação (Russo e Jin, 2005, 101-102). Agradeço ao professor Dr. Jorge Leão pela generosidade do envio da obra aqui referenciada, sobre a embaixada de Alexandre Metelo à China.

[7] As tapeçarias eram realizadas a partir dos chamados cartões pintados por artistas da época e as pinturas eram depois reproduzidas em ateliês de prestígio com fios, em geral de seda, e muitas vezes também de ouro e prata, dependendo do luxo requerido pelos que encomendavam as obras. No caso do conjunto sobre o imperador da China, os cartões foram realizados pelos pintores Guy-Louis Vernansal (1648 – 1729), Jean-Baptiste Monnoyer (1636 – 1699), et Jean-Baptiste Belin de Fontenay (1653 -1715). (Marty, 2014, 1)

China: uma breve síntese histórica.

Carmen Lícia Palazzo

Resumo da História da China para o entendimento de comportamentos na longa duração. Texto que escrevi para alunos em uma disciplina sobre a China.

Para analisar a China contemporânea é importante observar o que nós, historiadores, denominamos de mentalidades na longa duração. A modernidade na China não deve ser vista como uma ruptura porque ela traz consigo uma tradição de muitos milênios que é preciso ter em conta para o entendimento da sociedade chinesa e de como os chineses se veem.

A primeira consideração importante é a de que a China é a única civilização cuja escrita atual tem suas raízes em caracteres que datam de pelo menos 3.500 anos. O início para o qual existe testemunho material da escrita chinesa é aproximadamente o do ano 1.500 a.C. Os caracteres que receberam esta datação foram escritos em ossos de animais, em carapaças de tartarugas e no interior de objetos de bronze usados em diversos rituais e descobertos em escavações arqueológicas relativamente recentes, várias delas datando do século XIX.

Diferente dos hieróglifos do Egito, os caracteres chineses atravessaram milênios, transformaram-se, mas vários deles mantiveram sua estrutura ou alguma referência com os de um distante passado. Os testemunhos das origens milenares da escrita estão atualmente presentes em diversos museus e são motivo de orgulho também para as novas gerações. As crianças chinesas sabem que estão aprendendo uma caligrafia que tem origem nos seus mais remotos ancestrais e, apesar de toda a modernidade presente nas escolas,  escrever é uma arte que continua tendo considerável prestígio no país.

Outro motivo de orgulho para os chineses diz respeito ao fato de que, embora o longevo império tenha enfrentado muitas invasões e, em duas oportunidades, tenha sido governado por etnias estrangeiras – os mongóis da dinastia Yuan e os manchus, da dinastia Qing – sempre prevaleceu a cultura e a escrita chinesas bem como a estrutura da administração largamente influenciada pelo Confucionismo.

Dada a grande extensão territorial do império, a formação da burocracia, para o funcionamento do núcleo central da Corte e até as mais remotas províncias era uma preocupação constante. Desde muito cedo foram organizados concursos que selecionavam os candidatos mais capacitados para exercer diversas atividades como funcionários imperiais. Os primeiros concursos dos quais se têm registro datam do ano de 650. No entanto, sua implementação de maneira regular passou a ser realizada pela dinastia Song (960-1279), mais precisamente a partir do século X, mantendo-se de forma ininterrupta até sua extinção em 1905, no período final do império Qing, tendo durado portanto por quase dez séculos.

Com pequenas variações pontuais, o conteúdo dos concursos imperiais exigia o conhecimento aprofundado e a capacidade de interpretação de dois conjuntos de obras essenciais da cultura chinesa: os Quatro Livros e os Cinco Clássicos. Resumidamente pode-se dizer que os textos considerados como os mais importantes destas obras eram os Diálogos de Confúcio com seus estudantes (os Analectos), os escritos de Mêncio, um discípulo de Confúcio mas que desenvolvera algumas ideias próprias, os Anais com descrições históricas e o I Ching, ou Livro da Sabedoria.

Considerando-se que os concursos só foram abolidos no início do século XX, pode-se constatar a importância do Confucionismo e da cultura clássica e sua permanência no universo mental da sociedade chinesa na longa duração. E como a aprovação nos diversos níveis dos concursos imperiais eram um significativo instrumento de ascensão social,  o estudo, os ensinamentos de Confúcio e os professores eram também muito valorizados, valorização esta que se tornou uma das características mais fortes da cultura da China.

Outro aspecto importante da civilização chinesa é a defesa da sua integridade territorial. Em épocas nas quais a Europa estava fragmentada em feudos a China já era uma monarquia absolutista preocupada com a defesa de suas fronteiras e com a manutenção de uma corte centralizada e imperial. Em alguns períodos houve reinos que combateram entre si, dentro do território de cultura chinesa, no entanto sempre emergiu dos períodos de lutas uma dinastia aglutinadora e forte.

A construção da Grande Muralha, que foi realizada no decorrer de séculos, é emblemática da preocupação com a defesa territorial e, embora ela não tenha sido efetiva para deter todas as invasões, era afirmativa de um poder imperial que reinava sobre uma civilização unificada por diversas características culturais e entre elas por uma mesma escrita, ainda que existissem e ainda existam inúmeros dialetos.

Nem sempre a dinastia governante era de origem chinesa, portanto “han”. A mais conhecida dinastia estrangeira que conquistou a China, ainda que adotando largamente a cultura chinesa, foi a dos mongóis. Kublai Khan, neto de Gengis Khan, chefe mongol que unificara diversas tribos do norte, fundou a dinastia Yuan, após conquistar a China. É a corte de Kublai Khan que  está relatada no famoso livro de Marco Polo.

Crises no abastecimento agrícola e um grande descontentamento entre o mandarinato chinês, que era preterido em altos cargos pelos mongóis e até mesmo por outras nacionalidades, foram responsáveis, entre outros fatores, pela queda dos Yuan após quase um século no poder.  A ascensão de uma dinastia novamente de etnia chinesa que se autodenominou Ming, ocorreu em 1368 e foi um dos mais brilhantes períodos da arte da porcelana e da pintura na China.

Mas, em 1644, as constantes invasões de novas tribos do norte, que sempre cobiçavam o rico Império do Meio, levaram à desestabilização dos Ming, enfraquecidos, por sua vez, por novas crises econômicas e altos impostos. Os invasores manchus destronaram o imperador Ming em 1644 e assumiram o que viria a ser a derradeira dinastia, a dos Qing, antes da República. Foi um período de muitas realizações principalmente no reino de dois brilhantes imperadores, Kangxi e Qianlong.

Em seus relacionamentos com o exterior, a China teve fases muito distintas e isto influenciou bastante o seu desenvolvimento. Na Antiguidade e no início do que no Ocidente nós chamamos de Idade Média, o comércio de produtos chineses foi de longo alcance através de uma intensa movimentação de mercadores que, posteriormente, ficou conhecida como Rota da Seda. Através de estradas, caminhos e até mesmo oásis nos desertos, principalmente o de Taklamakan e o de Gobi, circularam caravanas nas quais estavam presentes também alguns peregrinos e aventureiros, mas formadas sobretudo por comerciantes que levavam até os portos do Mediterrâneo oriental e ocidental as manufaturas chinesas muito prezadas nas cortes europeias, entre elas as sedas e as lacas. Às mercadorias chinesas, somava-se também ao longo da Rota todo um comércio oriundo de outras partes da Ásia, como tapetes, perfumes e temperos.

Na movimentação da Rota da Seda, chegaram à China os primeiros muçulmanos. Recentemente têm ocupado o noticiário internacional os problemas que ocorrem entre o governo chinês e os muçulmanos uigures do Xinjiang. Não se trata, porém, do único grupo de praticantes do Islã na China, já que os denominados Hui têm como ancestrais os mercadores persas e árabes que, desde provavelmente o século VIII não apenas circularam em território chinês nos caminhos da Rota da Seda, mas muitos ali se estabeleceram, casaram-se com mulheres chinesas e, com o passar dos séculos, adquiriram feições, hábitos e o idioma chinês.

Os Hui são considerados um grupo à parte dos chamados chineses Han pelo fato de serem muçulmanos, no entanto em suas feições e na maior parte de seus hábitos (excetuando-se o consumo de porco) pouco diferem dos chineses e são, algumas vezes,  denominados “chineses Hui”. Este grupo raramente se envolve nas questões que tornam tão complicada a convivência dos muçulmanos uigures com os chineses.

Os muçulmanos uigures, porém, são de etnia túrquica ou turcomena. Eles não tem feições chinesas, seu idioma é de origem turcomena. Os uigures não têm nenhuma relação étnico-linguística com os muçulmanos Hui e vivem na chamada Região Autônoma do Xinjiang Uigur, que já foi chamado não oficialmente de Turquestão Chinês. Trata-se de uma região que beira muitos conflitos, pois faz fronteira com a Mongólia, o Cazaquistão, o Quirguistão, o Tajiquistão, o Afeganistão e a Cachemira, disputada entre a Índia e o Paquistão. E, em uma pequena parte, a região faz fronteira também com a Rússia.

A Região Autônoma do Xinjiang Uigur abriga todo um leque de etnias: uigures, chineses, casaques, tajiques, russos e outros. No passado, esteve ligada a uma Confederação de Povos Nômades, porém durante muito tempo foi parte do império chinês até que, no século XIX, no rastro das reivindicações nacionalistas que eclodiam pelo mundo, viu surgir, no seu interior, as primeiras manifestações separatistas. Mais adiante, já no século XX, ocorreram atentados terroristas graves, matando chineses. Por outro lado, em 1980, os chineses apoiaram a luta dos talibãs contra os russos, permitindo, inclusive, que muçulmanos uigures fossem participar da guerra. Mais adiante, os talibãs retribuíram o apoio mas, na Região Autônoma do Xinjiang, apoiando os uigures em suas ações terroristas contra o governo chinês.

Trata-se, portanto, de uma complicada questão de ordem política, mais do que religiosa, mas que ocasiona graves problemas regionais. Governos do Oriente Médio, mesmo muçulmanos, também não interferem na repressão chinesa aos uigures, pois não consideram que se trate de perseguição de caráter religioso, mas de uma questão política interna da China. O desinteresse dos sauditas pelos muçulmanos uigures levou a críticas bastante contundentes, no entanto não alterou em nada as relações da Arábia Saudita com a China.

Durante grande parte do período imperial, os chineses sempre acolheram a diversidade religiosa, ainda que às vezes privilegiando mais os budistas ou mais os taoístas, mas tendo sempre Confúcio como o seu fundamento, já que era o confucionismo a  literatura clássica vinculada ao funcionamento da burocracia. No entanto, desde os tempos da Rota da Seda, foi frequente a presença não apenas de muçulmanos mas também de cristãos, principalmente nestorianos e de judeus, na China, com maior frequência nos grandes centros comerciais, como Suzhou, Hangzhou, Kaifeng, Xi’an, entre outros.

Continuando a falar sobre as relações da China com o exterior, a presença dos jesuítas no Império é um capítulo muito interessante de encontros culturais importantes entre os europeus e o Oriente. Os missionários jesuítas, muito estimulados pela história de Francisco Xavier no Japão, dedicaram-se também às atividades de catequese no Império do Meio, porém ali tiveram uma experiência bastante distinta da japonesa, desenvolvendo um rico relacionamento com os letrados da Corte e algumas vezes diretamente com os próprios imperadores, entre os séculos XVI e XVIII.

A entrada de ocidentais no interior da China era difícil, pois dependia de autorização do imperador. Entre os primeiros missionários jesuítas, destacaram-se os italianos Michele Ruggieri e Matteo Ricci. Ambos teceram excelentes relações com altos funcionários da Corte e, com habilidade, conseguiram permissão para deixar Macau, que era o enclave comercial português e porta de entrada no império para penetrar no interior do continente, onde estabeleceram missões em mais de uma cidade.

No entanto, o mais importante foram os relacionamentos que Riccci desenvolveu com o mandarinato, aprendendo o idioma, ensinando muito do que tinha aprendido no Colégio Romano (atual universidade Gregoriana) para os chineses e, afinal, sendo reconhecido como um legítimo mandarim. Mais adiante, já no período da dinastia Qing, outros jesuítas cientistas chegaram a ocupar altos postos na Corte, dois deles, Ferdinand Verbiest e Adam Schall von Bell,  como diretores do Observatório Astronômico Imperial. Os jesuítas encantaram-se com o confucionismo, com a estrutura dos exames imperiais e escreveram relatos nos quais reconheciam a China como uma civilização com a qual era gratificante dialogar.

A China, que havia estado na vanguarda de grandes avanços, como a invenção da bússola, do papel, dos juncos que navegavam com muita agilidade, no século XVIII começava a se fechar aos contatos com o exterior, restando apenas os jesuítas para fazer uma ponte entre a ciência ocidental, que já tinha progredido muito, e os letrados chineses, em geral muito conservadores e literários. Crescia entre o mandarinato a ideia de que o Império do Meio poderia ser autossuficiente e pouco dependeria do exterior. Os progressos na catequese não foram grandes e os padres jesuítas foram bastante criticados por outras ordens porque  acabaram atuando mais como cientistas do que como missionários.

Os jesuítas europeus permaneceram na China até a extinção da Ordem, em 1773, muitas vezes contando com o apadrinhamento de grandes imperadores, como Kangxi e Qianlong, e seus relatos e as cartas que enviavam para a Europa foram responsáveis pela construção de uma imagem positiva do Império chinês no Ocidente e pela difusão da chamada moda das “chinoiseries”. O século XVIII foi importante também na introdução do chá chinês na Inglaterra (antes do chá que depois passou a ser cultivado na Índia) e na larga demanda pela porcelana e pelas lacas chinesas, principais produtos importados pelos europeus.

Cemitério dos jesuítas ocidentais que morreram no Império entre os séculos XVI e XVIII. Muitos deles receberam honras dos imperadores. Eram respeitados como “homens sábios do Ocidente”. Foto minha.

No entanto, a sensação de grande poder e de invulnerabilidade que, durante muitos séculos, foi uma característica do Império do Meio, independente de qual a dinastia que estivesse reinando, e mesmo de qual a etnia, foi se esvaindo no decorrer de todo o século XIX, ainda que a corte Qing não abrisse mão de grande luxo e de uma mão de ferro para governar as províncias. As mudanças que ocorriam no rastro da Revolução Industrial envolviam principalmente os processos de modernização da Europa, dos EUA e do Japão.

Os europeus entraram em uma fase de modernização acelerada, pois justamente a Revolução Industrial havia permitido importantes avanços na construção de navios, tanto da marinha de guerra quanto da mercante. A Companhia das Índias Orientais, uma companhia charter britânica, fazia a rota comercial da Índia e da China. Por outro lado, os chineses, que no século XVIII tinham se interessado pelo conhecimento científico dos jesuítas, foram deixando de lado os avanços navais por considerar que o império dificilmente seria atacado ou entraria em alguma guerra importante. Abrir mão da modernização da frota  chinesa foi um descuido que posteriormente custou muito caro para a dinastia Qing, então reinante.

No século XIX, havia um descompasso entre a modernização acelerada da Europa, que alavancava o imperialismo, e a China, cujo império enfrentava inúmeras dificuldades além da pressão das potencias ocidentais para ceder na abertura de seus portos aos navios estrangeiros.  Os problemas internos enfrentados pela dinastia manchu eram inúmeros, entre eles uma prolongada e grave crise alimentar, resultado de problemas climáticos com grandes enchentes e diques mal conservados, impostos cada vez mais altos cobrados dos agricultores e, entre os altos funcionários da Corte, um embate persistente entre os defensores da modernização do império e os conservadores, avessos a ideias vindas de fora que contrariassem as tradições chinesas.

A partir de 1850 houve um recrudescimento da crise econômica e os grandes imperadores como Kangxi e Qianlong, que apesar de serem de dinastia manchu, eram admirados pela população em geral, estavam no passado. Com imperadores menos carismáticos e também menos capacitados na gestão do Estado, os chineses elegeram a dinastia como culpada por todos os problemas e surgiram reações populares de caráter nacionalista pedindo a derrubada dos Qing.

Uma  das guerras internas mais trágicas de toda a história da China imperial e que causou milhões de mortos (há uma estimativa de 20 milhões de vítimas diretas ou indiretas da guerra) foi a chamada Revolta Taiping, que teve início no ano de 1851 e só terminou em 1864. O líder que deu início ao levante, Hong Xiu Quan, dizia-se cristão, mas fazia, em seus discursos, um amálgama do esoterismo taoísta e algumas referências ao cristianismo, que provavelmente havia aprendido de missionários estrangeiros, e se anunciava como filho de Deus e irmão mais jovem de Jesus. Apesar do desvairio de suas afirmações, conseguiu muitos adeptos porque pregava um mundo mais justo e melhores condições de vida para os camponeses que viviam em situação muito precária.

A difícil derrota dos Taiping, após 14 anos de uma luta devastadora só ocorreu com a ajuda das potências ocidentais que, apesar de seu caráter imperialista, desejavam obter concessões da China, mas não a deposição da dinastia reinante. Um oficial americano, Frederick Ward , e um britânico, Charles Gordon, comandaram os soldados chineses na luta contra os revoltosos Taiping. O mandarinato, independente de ser do grupo conservador ou modernizante, também se posicionou contra a Revolta, que conseguiu apoio da parte mais pobre da população.

Neste clima de descontentamento e de violência ocorreram também duas guerras oriundas de agressões externas para extrair vantagens sobretudo comerciais do Império, as chamadas Guerras do Ópio, que podem também ser consideradas como dois episódios de uma mesma guerra. O vício dos chineses em ópio era antigo. Inicialmente usado pela medicina tradicional como medicamento para diversos males, seu consumo foi se tornando um hábito de sociedade, inclusive entre o mandarinato, transformando-se em um vício em larga escala, principalmente a partir do século XVIII. A produção interna atendia bem a demanda até o século XVII, mas com o aumento do consumo os comerciantes chineses passaram a importa-lo dos ingleses, que abasteciam seus navios na sua possessão indiana de Bengala, onde havia grandes plantações de papoula.

A Companhia das Índias Orientais tinha o monopólio deste comércio e, da China, levava de volta em seus navios o muito apreciado chá chinês, altamente consumido na Grã Bretanha principalmente a partir do século XVIII. As transações entre os britânicos e chineses ocorriam no único porto então aberto para tal, que era o de Cantão (Guangzhou) e assim mesmo sob diversas restrições e intermediações de funcionários imperiais.

Como os chineses tinham pouco interesse em produtos europeus e consideravam que o Império produzia quase tudo o que eles necessitavam, a Balança Comercial entre ambos os países era deficitária para os britânicos e apenas a exportação ópio indiano poderia melhorar a situação.. No entanto, alguns imperadores tentaram frear o seu consumo não medicinal, considerando que o vício, alastrado inclusive entre altos funcionários da Corte, estava prejudicando o país.

A partir de 1831 começaram a ser feitas tentativas firmes para reprimir o seu uso e, em 1839 teve início uma repressão muito dura e bem organizada em todo o Império. Um funcionário de confiança da Corte e que administrava o porto de Cantão ordenou, no mesmo ano de 1839, a apreensão de 20.000 caixas de ópio de Bengala ali desembarcadas e fez uma queima pública de todas elas. Tal apreensão e destruição de um produto desembarcado pela Companhia das Índias Orientais foi considerada uma afronta aos britânicos tendo início, então, aquela que ficou conhecida como Primeira Guerra do Ópio. A Grã-Bretanha enviou seus navios de guerra para fazer o bloqueio de diversos portos chineses.

Como a China encontrava-se em grande desvantagem tecnológica em relação aos europeus e sobretudo a sua marinha nunca tinha se modernizado, já que os mandarins mais conservadores não acreditavam em algum possível ataque por mar, em 1842 os chineses foram derrotados e tiveram que assinar o Tratado de Nanjing, que seria o primeiro do que depois foi denominados “Tratados Desiguais”. 

Pelo Tratado de Nanjing ficava estabelecido que a China pagaria uma elevada indenização aos britânicos, cederia a eles Hong Kong e abriria mais quatro portos (Ningbo, Xangai, Xiamen e Fuzhou) além de Cantão, que antes da guerra era o único que recebia navios estrangeiros. Na verdade, essa abertura dos portos era o principal objetivo das potencias ocidentais, demanda que se coadunava com as características do imperialismo do século XIX. E, abertos à Grã Bretanha, ficavam então os referidos portos abertos também às demais potências europeias e ao Japão.

Não havia, da parte dos europeus, nenhum interesse em derrubar a dinastia Qing, com a qual, em diversos aspectos, eles mantinham um relacionamento bastante amigável e lucrativo. O que existia era o desejo de abrir a China ao comércio internacional e aos investimentos estrangeiros, já que nenhum europeu esperava conquista-la ou integra-la às suas possessões, reconhecendo a especificidade chinesa, a força de um império milenar ainda que extremamente atingido por crises de vários tipos.

Entre 1856 e 1860 ocorreu a que ficou conhecida como Segunda Guerra do Ópio, com características muito semelhantes à anterior, desencadeada em resposta a um episódio de vistoria chinesa ao navio Arrow e às atividades de sua tripulação. Na mesma ocasião, houve o assassinato de um missionário francês, o que fez com que a França decidisse entrar também na guerra, apoiando os britânicos. Nova derrota para a China, novo tratado desigual, desta vez o de Tientsin, com mais portos sendo abertos aos navios mercantes europeus e japoneses.

Entre as vantagens conseguidas pelos europeus no rastro das derrotas chinesas, estava, desde o final da primeira Guerra do Ópio, o estabelecimento de “concessões”, além da abertura dos portos. Nelas, os estrangeiros poderiam residir sem que ficassem sujeitos às leis chinesas, mantendo seus hábitos, suas escolas e toda uma estrutura administrativa como se fosse território internacional.  Entre os exemplos que ficaram mais conhecidos e que foram mais bem sucedidos estavam a concessão britânica de Xangai, que se manteve de 1845 até 1943, e a francesa na mesma cidade, entre 1849 e 1943.

Ainda que as concessões tenham sido uma exigência dos vencedores da guerra,  muitos chineses consideraram-se beneficiários delas pois, em diversos casos, e em especial na de Xangai, ocorreu a criação de  novos empregos e, durante a Revolta Taiping, serviu de refúgio para muitos mandarins e outros chineses que temiam a barbárie dos revoltosos. O grande desenvolvimento cosmopolita de Xangai é atribuído, mesmo pelos chineses, à presença de ocidentais em diversas atividades na cidade.

O século XIX, todo ele, vai ser de muitos conflitos também internos e em geral envolvendo sempre dois grupos opostos da elite letrada, que se constituía no corpo de funcionários mais qualificado de toda a administração imperial. Tais grupos eram o dos conservadores e o dos adeptos de uma rápida modernização tanto da Economia quanto do sistema escolar, muito engessado em função do programa dos concursos imperiais, todo ele focado nos Clássicos chineses. Deste embate entre tradição estrita e modernização vai surgir uma nova revolta, que ficará conhecida como a Guerra dos Boxers ou dos Punhos Justiceiros.

Para entender a Guerra dos Boxers é importante conhecer o contexto no qual ela ocorreu. A província de Shandong, onde se iniciaram os confrontos, era um importante centro do Taoísmo, abrigando também muitos centros budistas e a cidade natal de Confúcio, Qufu. Era – e ainda é – uma  região de muitas memórias da civilização chinesa e na qual seus habitantes, principalmente aqueles ligados a atividades camponesas, tinham   algumas práticas esotéricas de raízes ancestrais. Nessa mesma região, como resultado dos Tratados Desiguais, o Império havia arrendado aos alemães a baía onde ficava a cidade de Qingdao, na qual também se instalaram alguns outros europeus, principalmente britânicos. Eram indivíduos ligados ao comércio ou missionários, que fundaram escolas na região.

Os missionários eram bem vistos por parte da população, pois ensinavam novas técnicas em suas escolas e eram contrários à deformação dos pés das meninas, estendo as possibilidades de estudo também a elas.  Para os conservadores, no entanto, este ambiente de modernidade era considerado ofensivo às práticas ancestrais chinesas, especialmente arraigadas na província de Shandong.

Neste quadro, ao qual somava-se a crescente crise econômica e o empobrecimento dos camponeses, uma sociedade esotérica de cunho altamente nacionalista e messiânico que se denominava Punhos Justiceiros (conhecidos no Ocidente como Boxers) insuflou a população com discursos contra os estrangeiros, acusados de  perturbar os ancestrais com seus investimentos modernos, como a construção de estradas de ferro e do telégrafo. Aos missionários, acusavam de bruxaria e de assassinato de crianças para extrair seus órgãos para rituais religiosos. O nome Punhos Justiceiros devia-se a um tipo de luta que o grupo praticava e que era considerada “mágica”, impedindo que, em uma guerra, as balas dos opositores os atingissem.

A Corte manchu ficou em dúvida se os apoiava apenas para não arriscar novos levantes da população contra ela ou se ficava neutra em relação à revolta. Afinal, venceram os mandarins próximos ao imperador que o aconselharam a dar apoio aos Boxers, o que desencadeou nova guerra contra os europeus e os japoneses, já que as Legações em Beijing foram atacadas, violando-se assim o território dos diplomatas estrangeiros. A reação foi rápida, os europeus, os norte-americanos e os japoneses enviaram tropas, atacaram os Boxers e os derrotaram, numa guerra relativamente curta que durou entre 1899 e 1900.

O imperador Guangxu e sua tia Cixi, conhecida como a Imperatriz Viúva e que era a verdadeira eminência parda do Império, tinham se refugiado em Xi’an durante o conflito, procurando não se envolver diretamente nele, mantendo uma atitude bastante dúbia já que principalmente ela tinha um relacionamento amigável com os diplomatas estrangeiros em Beijing. Os estrangeiros, por sua vez, embora sendo alvo dos ataques nacionalistas dos Boxers, também não pretendiam derrubar a dinastia Qing e então, com os Boxers derrotados em 1901, foi assinado um Protocolo através do qual eram extraídas, do governo chinês, altas indenizações.

A China, a cada derrota, a cada guerra perdida, como havia sido  o caso nas duas Guerras do Ópio e na dos Boxers, via suas finanças severamente comprometidas com as indenizações, passava pela situação humilhante de se mostrar tecnologicamente fragilizada, com precárias condições de combate, tendo ainda que enfrentar o imperialismo japonês, que lhe havia subtraído a Coréia como Estado Tributário (no conflito de 1894-95). A tudo, somava-se o avanço dos russos, que cobiçavam parte do território chinês ao norte.

Nesse contexto terrivelmente conturbado da segunda metade do século XIX e até o início do século XX destacou-se, às vezes nos bastidores, mas também muitas vezes na linha de frente, a Imperatriz Viúva Cixi. Concubina do imperador Xianfeng, com a sua morte ainda muito jovem, em 1861, ela chegou ao poder por ser a mãe do único filho homem do imperador, alçado ao trono ainda criança. Cixi, junto com a esposa oficial de Xianfeng, Cian, assumiu a regência que depois passou a exercer sozinha tanto por suas manobras bem sucedidadas quanto por um certo desinteresse de Cian. Desde que tomou as primeiras decisões políticas, Cixi nunca mais deixou o controle político do império. Com a morte do seu próprio filho colocou um sobrinho no trono, também criança e voltou a ser regente.

Há claras evidências de que foi com muita dificuldade que Cixi manteve o equilíbrio entre a valorização da milenar cultura chinesa que ela, mesmo sendo manchu, admirava, e a inevitável modernização, que entrava no império através dos europeus, dos norte-americanos e dos japoneses. Foi também Cixi que, antes de morrer, indicou aquele que seria o último imperador, Puyi.

De toda a movimentada história da China no século XIX, podem ser destacadas algumas considerações importantes:

1) a humilhação da derrota em diversos conflitos, com as potências impondo a abertura dos portos e sobretudo as pesadas indenizações, foi provavelmente o aspecto mais visível da decadência imperial;

2) a manutenção da integridade territorial, apesar de todos os conflitos, o que permitiu que a China, mais adiante, pudesse se recuperar e recuperar seu orgulho. Sempre houve o entendimento, da parte do Ocidente, de que o Império do Meio não seria conquistado e nem mesmo se constituiria em algum tipo de protetorado, ainda que tenha ocorrido um considerável avanço de caráter imperialista em mais de uma oportunidade.

A integridade civilizacional da China nunca esteve sob ameaça e, pelo contrário, os estrangeiros sempre demonstraram certo fascínio pelo que lá encontravam em matéria de arte e de filosofia. Por outro lado, os embates internos entre mandarins conservadores e modernizantes foram uma parte importante dos problemas enfrentados pelos imperadores e pela imperatriz Cixi. Os letrados confucionistas custaram muito a entender que o programa dos exames imperiais, calcado em estudos puramente literários, não preparava os candidatos e futuros funcionários para a realidade do mundo nos séculos XIX e XX, mas em 1905, antes mesmo da vitória dos republicanos, os exames foram extintos.

Sem uma personalidade forte para comandar o Império com a morte de Cixi, em 1908, e sem que o alto mandarinato tivesse conseguido se articular em torno de um projeto de monarquia constitucional que já tinha começado a ser esboçado, mas que nunca, efetivamente, foi levado adiante, os defensores da República conseguiram ganhar muitos adeptos.

A vitória da Revolução Republicana, sob a liderança de Sun Yat-Sen foi reconhecida sem maiores traumas já em 1911 e, em fevereiro de 1912, Puyi, o último imperador, ainda uma criança de seis anos de idade, abdicou do trono. Os republicanos venceram fazendo apelo ao fato de que o império era governado por uma dinastia estrangeira, de origem manchu, mostrando a corrupção que era endêmica na estrutura do mandarinato, mas também pelos altos impostos cobrados principalmente dos camponeses. O discurso nacionalista apontando igualmente para a influência das grandes potencias estrangeiras fortaleceu a criação do Guomintang, partido centralizador, pouco democrático, mas extremamente nacionalista, que apelava para a restauração do orgulho chinês.

Tanto Sun Yat-Sen quanto Chiang Kai-Shek eram populistas e nacionalistas e casados com duas irmãs de uma família da elite na China, a família Soon, cujo apoio foi importante na escolha de quadros republicanos. Até a emergência de Mao e a implementação do socialismo na China, as grandes famílias tradicionais estiveram no controle da República. Já a ideia de hierarquia, de centralização das decisões políticas permaneceu na passagem do Império para a República, da mesma maneira que permanecerá também durante e depois de Mao.

Concluindo esta breve apresentação sobre a história da China, eu gostaria de destacar alguns pontos que considero importantes para entender o presente. O primeiro deles é justamente o de que a força da hierarquia, que tinha raízes milenares com as lições de Confúcio, se mantém como regra até os dias atuais.

Houve um hiato de banimento da literatura Clássica e do Confucionismo em particular e este hiato foi durante o curto espaço de tempo da Revolução Cultural (1966-1976). Pois bem, não por acaso, os mentores da Revolução Cultural recrutaram para a temível Guarda Vermelha, jovens de 12 a 18 anos de idade, mas a maior parte deles entre 12 e 16 anos, a idade da rebeldia. A ideia era erradicar por completo as ideias confucionistas e mesmo a influência dos pais, convencendo os jovens de que os novos tempos pediam novas lideranças que não fossem intelectualizadas. Foram fechadas escolas e universidades e os livros Clássicos jogados no lixo. Adolescentes entre 12 e 16 anos encarregaram-se desse tipo de faxina para erradicar a cultura Clássica. No entanto, em uma cultura como a chinesa, tal disparate não poderia durar muito e a Revolução Cultural foi um hiato na longa duração da história da China.

A valorização do estudo e dos mestres atravessou os anos mais conturbados de guerras e de revoltas e, excluindo-se o período da Revolução Cultural, manteve-se firme em toda a China. Atualmente, mesmo com a espantosa modernização do país é muito claro o incentivo dado a pesquisas arqueológicas que trazem à tona uma história muito antiga. Quem visita o país encanta-se com a qualidade dos seus museus, repletos de objetos de muitas épocas passadas e para os quais há informações de muito boa qualidade.

Xi Jinping na minha opinião não deve ser visto como um ditador nos moldes ocidentais. Embora ele seja muito autoritário, é bem mais um autocrata com características imperiais, quem sabe um déspota esclarecido do que um ditador moderno como nós já tivemos a experiência na Europa e na America Latina. Trata-se de um homem culto, casado com uma importante cantora de ópera chinesa, oriundo de uma família admiradora de Confúcio e cujo pai sofreu nas mãos da Guarda Vermelha. A China nunca foi uma monarquia constitucional. De um Império fortemente centralizador, claramente absolutista, ela passou para uma República com líderes pouco democráticos, com Sun Yat-Sen, Yuan Shikai, Chiang-Kai Shek e depois Mao.

Antes de terminar a minha fala eu gostaria de fazer brevíssimas considerações sobre a questão do Covid-19 e da divulgação tardia de que se tratava de um vírus perigoso. Em primeiro lugar, a culpabilização do governo por hábitos ancestrais dos mercados de animais silvestres é injusta pois o governo chinês tem tentado, desde o tempo do Hu Jintao, modificar consideravelmente certos costumes alimentares, tendo inclusive proibido em mais de uma oportunidade (e nem sempre com sucesso) o festival que inclui a matança de cachorros. No entanto, em sociedades rurais com tais comportamentos não é tarefa simples a mudança de hábitos e o mesmo ocorre no Vietnã, na Coréia e em outros países asiáticos. No caso da China acrescenta-se a questão da medicina tradicional, na qual o pangolim, que foi o vetor de transmissão atual, é um dos insumos mais usados na fabricação de medicamentos .

É importante também deixar claro que a ocultação dos primeiros casos não foi uma decisão do governo central mas do provincial, o que também é parte da estrutura de governança da China, desde os tempos imperiais. Funcionários das províncias calculam até o PIB da sua área que depois é somado aos demais para a obtenção dos dados nacionais.  A burocracia provincial tem muitas prerrogativas e, por outro lado, quando comete erros, recebe punições fortíssimas, exatamente como ocorria nos tempos do Império, o que certamente levou a que a informação sobre um vírus novo em Wuhan fosse incialmente ocultada. Zhou Xianwang, que era então prefeito de Wuhan, renunciou ao admitir ter escondido informações sobre o surto. Com tais considerações de modo algum minimizo o problema do ocultamento inicial dos dados, mas acho importante ter um olhar amplo sobre o que ocorreu.

Eu vejo como chance zero a ideia de democratização da China nos moldes ocidentais, porque são pelo menos cinco mil anos de uma história de centralização do poder, mas também porque, atualmente, a modernização do país tem sido favorável  às pessoas comuns, ao povo em geral. Os governos de Hu Jintao e agora de Xi Jinping não são excludentes, os governantes apostaram e continuam apostando na inclusão dos chineses, com grande ênfase na inclusão pela educação, pela modernidade. É esse esforço de inclusão que faz toda a diferença para que, apesar de seu inegável autoritarismo, o governo tenha um considerável apoio popular. Não estou defendendo a autocracia contra a democracia, apenas tentando entender o contexto político do país sem enxergá-lo apenas no seu tempo presente. E sem considerar que as mesmas soluções e modelos políticos possam ser aplicados a todas as sociedades de maneira indiscriminada.

Xangai moderna. Pearl Tower. Foto minha.

Há muito mais para ser dito e analisado sobre a história da China e a crescente modernização do país. Este resumo histórico tem como finalidade fazer apenas considerações pontuais, em um panorama bastante resumido da longa duração.

Segue uma bibliografia bastante básica. Na internet e em diversas páginas de cunho acadêmico há uma grande quantidade de textos sobre a história chinesa, facilmente acessíveis. Recomendo que os interessados coloquem as palavras-chave com relação a períodos ou temas que estiverem pesquisando, para obter resultados mais específicos sobre a China. Ressalto que esta é apenas uma bibliografia MUITO BÁSICA de livros acessíveis no Brasil ou que podem ser comprados online e até mesmo em sebos, sem dificuldade. Preocupo-me sempre em dar informações para leigos e também para os alunos do Ensino Médio e dos cursos de graduação em História. Os pesquisadores mais experientes sabem onde procurar suas fontes, no entanto considero que os professores devem sempre apoiar os alunos iniciantes em seus estudos.

CARVALHO, Evandro Menezes de e SILVEIRA, Janaína Camara da (org.). A China por sinólogos brasileiros: visões sobre economia, cultura e sociedade. Rio de Janeiro: Batel, 2019.

CHANG, Jung. A Imperatriz de Ferro. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

CONGER, Sarah Pike. Letters from China. Columbia, SC: Big Byte Books, 2020.

FAIRBANK, John King e GOLDMAN, Merle. China: uma nova história. Porto Alegre: L&PM, 2006.

HAW, Stephen G. História da China. Lisboa: Tinta da China, 2015.

HISTORY. https://www.history.com/tag/ancient-china

KISSINGER, Henry. Sobre a China. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011

PALAZZO, Carmen Lícia. “Os Jesuítas como atores privilegiados na comunicação de imagens da China para a Europa: século XVI a XVIII.” Curitiba: Revista Tuiuti: Ciência e Cultura, n. 48, 2014, p. 13-31.

SPENCE, Jonathan. Em busca da China Moderna. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.

 

Wuxi: uma cidade com muita História.

Nos guias turísticos que sempre consultei para organizar nossas viagens através da China, durante os quase oito meses em que o Paulo Roberto e eu moramos naquele país, além dos livros descritivos das cidades chinesas e páginas da internet, sempre achei poucas referências a Wuxi, a ponto de ter pensado bastante antes de incluir a cidade em nossa programação. No entanto, ela me interessava tanto por sua história quanto por sua proximidade a Yixing, local onde há séculos eram produzidas peças renomadas de cerâmica e assim achei que deveria arriscar incluí-la nos roteiros que eu preparava para nossas saídas de feriados e finais de semana. Não me arrependi.

Próxima a Xangai, fizemos o percurso rapidamente em um trem muito moderno e confortável. Suas raízes são muito antigas e encontram-se bem documentadas em um esplêndido museu cujo belo prédio de moderna arquitetura abriga seis mil anos de civilização, com objetos e descrições remontando até os períodos paleo e neolítico da região. Iniciar, portanto, nossa programação com uma visita ao museu foi uma boa ideia pois a partir dele ficamos mais conscientes de uma história milenar que os chineses sabem estar impregnada naquela região, que é também a do lago Tai e do rio Yangze.

Na imagem abaixo, uma das galerias do museu reproduzindo as atividades comerciais nas margens do Grande Canal (foto minha).

As diversas galerias do Museu de Wuxi possuem painéis explicativos bilíngues, em inglês e em mandarim, ainda que o Paulo e eu fossemos visivelmente os únicos visitantes ocidentais. Motivamos, como sempre acontecia no interior da China, a admiração de muitas pessoas, que nos pediam para tirar fotos ao nosso lado e faziam comentários simpáticos e sempre com enormes sorrisos. Os funcionários do museu foram extremamente solícitos, indicando-nos as salas mais interessantes e fazendo de tudo para que não deixássemos de ver nenhuma vitrine importante.

Acho que, de todos os lugares que visitamos, as pessoas em Wuxi foram as mais alegres e desejosas de interagir conosco, ainda que isto acontecesse em quase toda a China. Guardo, porém, um carinho especial principalmente pelos jovens que cruzaram nossos caminhos por lá e para os quais às vezes pedíamos alguma informação. Lembro de uma garota para a qual agradeci uma referência de rua com o incontornável Xiè xiè e fui retribuída com um gesto das duas mãos dela fazendo um coração e depois um aceno amistoso. São destas coisas que a gente não esquece, ainda mais em viagem e mesmo morando em um país distante do nosso.

A exposição permanente do museu se inicia com as culturas pré-históricas e mostra a importância do lago Tai e do rio, com a abundância de água favorecendo a pesca, que sempre foi uma atividade milenar e muito importante na região. O desenvolvimento da economia em toda a área foi também significativo no período imperial e a construção do Grande Canal permitiu o escoamento de uma farta produção de grãos que já era significativa nos tempos da dinastia Yuan (1271-1368) e com grande destaque para o arroz durante todo o período Ming (1368-1644).

O Grande Canal foi uma obra essencial para e economia da China imperial e sua construção teve início na dinastia Sui (581-618), mas foi depois ampliado em diversas etapas. Em toda a sua extensão liga um grande número de rios, de outros canais e lagos visando facilitar a circulação fluvial de mercadorias.  Toda esta história está muito bem contada em diversas salas com objetos, imagens e grandes painéis explicativos que mostram as diversas etapas do desenvolvimento de Wuxi e do seu entorno.

Passear à pé pelo centro de Wuxi é também um ótimo programa e as ramificações do Grande Canal que  cortam a cidade proporcionam belos reflexos nas águas, com pontes e diversas embarcações que circulam por ali com frequência. Há também muito verde por todos os lados e algumas casas têm lanternas vermelhas nas janelas, que são usadas com frequência em toda a China e não apenas em lugares turísticos. O que muitas vezes achamos que se trata de decoração apenas para atrair os visitantes é realmente parte do dia-a-dia chinês.

DE MATTEO RICCI À MISSÃO FRANCESA: O ENCONTRO ENTRE OS JESUÍTAS EUROPEUS E O IMPÉRIO DO MEIO (SÉCULOS XVI a XVIII)

Artigo meu sobre os Jesuítas na China.

DE MATTEO RICCI À MISSÃO FRANCESA: O ENCONTRO ENTRE OS JESUÍTAS EUROPEUS E O IMPÉRIO DO MEIO (SÉCULOS XVI a XVIII)

Carmen Lícia Palazzo

Introdução

O presente texto é uma apresentação resumida de nossa pesquisa mais ampla sobre o encontro cultural entre jesuítas europeus com os chineses, em especial com a elite letrada do mandarinato confucionista e alguns imperadores, do século XVI ao XVIII.

O fascínio pela Ásia e as viagens de religiosos e mercadores ao Extremo Oriente, seguindo muitas vezes caminhos que posteriormente foram chamados de Rota da Seda, não era novo no início da chamada Idade Moderna. No período medieval Pian di Carpine, Guilherme de Rubruck, Marco Polo e Odorico de Pordenone não apenas se aventuraram na difícil travessia em direção a territórios distantes mas também deixaram relatos de grande valor histórico e antropológico sobre contatos com chineses, mongóis, tibetanos, uigures outros povos até então pouco conhecidos dos europeus. [Palazzo, 2011]

 A China imperial, porém, nunca se constituiu em terreno fértil para a atividade missionária já que era consciente de sua força, que lançava raízes em tradições milenares e numa eficiente estrutura hierárquica. O poder centralizado na Corte era exercido em toda sua extensão territorial, com a autorização do imperador, pelo mandarinato, elite letrada selecionada através de um rígido sistema de concursos. A solução que os jesuítas encontraram para a aceitação de suas atividades no interior do império foi tanto o aprendizado do idioma quanto a familiarização com os códigos de conduta daquela sociedade. E, como ponto de partida para suas atividades, foi importante a existência do enclave português de Macau, etapa inicial para contatos com os chineses e para o estudo da língua.

Os missionários que tinham como objetivo entrar na China continental faziam de Macau o ponto inicial de seu aprendizado, diferente dos padres que ali se fixavam para atender católicos portugueses e a alguns asiáticos convertidos. Longe de se constituir em um território exclusivamente europeu, Macau era multiétnica. Pequena em extensão, era povoada por chineses, portugueses, malaios, entre muitos outros mercadores e suas famílias. Dentre as diversas comunidades de religiosos católicos que ali se estabeleceram com o objetivo de dar apoio espiritual aos cristãos locais, a mais importante era a dos jesuítas, em “(…) regra geral juízes de paz de Macau e elite letrada nos contatos com as autoridades oficiais da Ásia Oriental.” [Barreto, 2006, p.137] Foi Macau que propiciou aos inacianos o aprendizado inicial sobre a China. Assim, quando a Companhia de Jesus decidiu que enviaria seus missionários para o interior do Império, a península macaense se mostrou um bom ponto de partida para o estudo do idioma e contato com os hábitos chineses [Palazzo, 2014, p. 13-31].

O pioneiro Matteo Ricci.

A entrada de estrangeiros no interior da China era difícil, pois dependia de autorização do imperador. Entre os primeiros missionários jesuítas, destacaram-se os italianos Michele Ruggieri e Matteo Ricci. Ambos teceram excelentes relações com altos funcionários da Corte e, com habilidade, conseguiram permissão para deixar Macau e penetrar no interior do continente, onde estabeleceram missões em mais de uma cidade. [Ducornet, 2010, p. 25; p. 48-52] A parte mais importante da estratégia escolhida pelos inacianos para dar início a um bom relacionamento com os funcionários-mandarins foi o aprendizado da língua, no que Matteo Ricci se destacou [Zhu, 2010, p. 22-25].

Ricci viveu durante 28 anos na China, de 1582 até 1610, quando faleceu em Beijing. Durante muito tempo aguardou autorização imperial que também se fazia necessária para o estabelecimento na capital, o que nem sempre era permitido, mesmo para os que, como ele, já estivessem oficialmente instalados no interior do continente. A autorização foi conseguida somente em 1601 por influência de diversos relacionamentos que o missionário cultivou demonstrando seus conhecimentos e presenteando as autoridades locais com objetos europeus que não eram conhecidos na China.

O pesquisador Zhang Xiping enfatiza o interesse motivado pelo que era considerado “estranho” pelos chineses. Esta curiosidade favorecia os jesuítas pois suscitava diversos encontros com as autoridades, que sempre tomavam a iniciativa de procurá-los:

“Quando os chineses letrados começaram a se aproximar dos missionários, muitos deles o fizeram por curiosidade (…) relógios e prismas triangulares eram mostrados pelos jesuítas e jamais tinham sido vistos [pelos chineses]. Quando Michele Ruggieri e Matteo Ricci chegaram em Zhaoqing, o que atraiu o governador local foi justamente ambos os objetos. Em Nanjing, muitos oficiais e letrados foram visitar Matteo Ricci assim que souberam que ele havia levado coisas estranhas para a cidade.” [Zhang, 2009, p.38]

Em toda a história da missionação na China, fica muito claro que os europeus eram para os chineses o exótico por excelência, o Outro que causava estranhamento. No entanto, no caso dos jesuítas, pelo domínio do idioma e assimilação aos hábitos locais, tratava-se também do Outro que os surpreendia fazendo-se próximo. Com relação a Matteo Ricci, sua excepcional capacidade para o aprendizado da língua permitiu que escrevesse vários textos em chinês, contando provavelmente com o auxílio de mandarins convertidos, com os quais ele se relacionava [Laven, 2001, p. 104-105]. Tal fato, sem dúvida, colaborou para alçá-lo à condição de letrado, honra máxima na sociedade chinesa.

No estudo das relações entre o mandarinato e os inacianos a primeira e uma das mais significativas fontes é o importante texto deixado por Matteo Ricci e intitulado por ele mesmo Della entrata della Compagnia di Giesù e Christianità nella Cina, já quase concluído por ocasião de sua morte, em 1610 [Ricci, 2010]. A ele o padre Nicholas Trigault acrescentou dezenove páginas, traduzindo-o integralmente para o latim e levando para Roma o original e sua tradução. Em seguida, a partir do texto latino, foram realizadas traduções para diversos idiomas, o que ampliou sua divulgação entre leitores europeus, ainda que, de maneira equivocada, sob o nome de Trigault. Este, porém, autenticou o manuscrito em 26 de fevereiro de 1615 como sendo efetivamente de autoria do jesuíta italiano e nunca lhe negou o crédito [Ricci, 2010, p. LVI].

Matteo Ricci foi um observador atento e perspicaz da sociedade chinesa. A formação intelectual dos inacianos capacitava-os para entender o mundo à sua volta, principalmente no caso daqueles que, como ele, tiveram acesso ao qualificado corpo docente do Colégio Romano, posteriormente denominado Universidade Gregoriana.

A imagem dos missionários-mandarins passou a circular na Europa a partir das atividades de Ricci [Kircher:1667] mantendo-se até o século XVIII, mas não isenta de considerações críticas, principalmente por parte dos franciscanos. Em resposta às muitas críticas da época, o padre Alessandro Valignano grande incentivador do estilo de missionação dos jesuítas na China, Visitador da Companhia na Ásia e conhecedor das sociedades orientais, deixou bem claro o que considerava como “calúnias” contra os padres da Companhia de Jesus. De acordo com Valignano:

“(…) quanto ao que diz Frei Martín que vestem-se em trajes de chineses e que não tratam de conversão, é verdade que andam vestidos à maneira de letrados chineses e que trazem as barbas crescidas e também os cabelos até as orelhas (…) isto se fez por ordem minha e pelo parecer de muitas outras pessoas sérias e letradas da Companhia.” [Valignano, 1598/1998: 88]

E, mais adiante:

“(…) entendemos que os Padres, fazendo ofício de homens letrados, teriam mais fácil entrada com todos e poderiam melhor e com mais autoridade divulgar nossa santa lei para os chineses, e não se deve reprender e nem ironizar este método, como faz o frade, a quem parece que toda a religião consiste no hábito, o qual, ainda que seja bom, “não faz o monge”, como se diz nos cânones sagrados.” [Ibid.: 89] 

O frade ao qual Valignano se referia era Martín Loinez de la Ascención, um crítico contundente do trabalho dos inacianos no Oriente. Valignano, porém, destaca em sua Apología que outros franciscanos também deram informações “muito caluniosas e prejudiciais para a nossa Companhia, e bem diferentes e contrárias do que se passa na verdade” [Ibid.: 1]

Ricci, em todos os seus escritos deixa evidente ter demonstrado grande capacidade para apreender as muitas características da cultura chinesa, analisando-as com real interesse. Em uma das passagens escreve: 

“O maior filósofo entre eles é Confúcio que nasceu quinhentos e cinquenta e um anos antes da vinda do Senhor ao mundo e viveu mais de setenta anos de uma boa vida ensinando esta nação com palavras, obras e escritos; de todos é tido e venerado como o mais santo homem que teve o mundo. E, na verdade, naquilo que disse e na sua boa maneira de viver, de acordo com a natureza não é inferior aos nossos antigos filósofos, excedendo a muitos deles.” [Ricci, op.cit.: 28-29]

A saga de Matteo Ricci até sua instalação definitiva em Beijing foi repleta de aventuras, de contatos com funcionários chineses fascinados por aquela exótica figura que falava sua língua e interessava-se por seus comportamentos. Em mais de uma localidade na qual se estabeleceu procurando realizar algumas conversões de chineses para o cristianismo ele amealhou diversos aliados, ainda que as conversões não fossem em número elevado.  Seu pioneirismo abriu caminho para os muitos inacianos que seguiram seus passos.

As Cartas edificantes e curiosas do século XVIII

Entre as muitas informações produzidas pelos jesuítas e difundidas através da Europa no século XVIII estavam as Lettres Édifiantes et Curieuses. Tratava-se de cartas enviadas pelos padres franceses estabelecidos em várias partes do mundo a diversas personalidades com o objetivo de divulgar as atividades da Companhia de Jesus. As referidas cartas foram em seguida publicadas, atingindo um número maior de leitores entre a elite francesa, além de seus destinatários. No caso das cartas que foram escritas a partir da China, mais do que os detalhes das conversões em si, que não eram em tão grande número a ponto de impressionar os europeus, os jesuítas fizeram questão de mostrar a posição de destaque que os inacianos desfrutavam no Império do Meio.

A história da chamada Missão Francesa remonta a 1685, quando o rei Luís XIV enviou para a China um grupo de jesuítas que chegou a Beijing em 1688. Com tal decisão, o monarca ignorava o Padroado português que, ao menos teoricamente, detinha a exclusividade do controle da atividade missionária no Oriente. Embora o sistema de Padroado vinculasse também os missionários na China à coroa lusa, a situação ali era menos rígida. Padres de diversas nacionalidades estavam sempre prestando contas de forma mais direta a Roma e aos seus supervisores do que ao rei de Portugal.

O caso dos jesuítas franceses enviados por Luís XIV era, por sua vez, totalmente excepcional, com independência do reino luso, o que não ocorreu sem fricções. Horácio Peixoto de Araújo faz uma boa análise do sistema do Padroado e suas características na China [Araújo, 2000] e Isabelle e Jean-Louis Vissière apresentam o caso francês, na Introdução ao volume que editaram com as Lettres Édifiantes et Curieuses [Vissière & Vissière, 2001:7-24].

Os jesuítas franceses se constituíam em cientistas de excelente formação e sua escolha foi realizada com o apoio da Academia de Ciências de Paris, que não tinha interesse direto na atividade missionária, mas desejava enviar para diversas partes do mundo pessoas capacitadas para coletar informações visando um amplo trabalho de aperfeiçoamento da cartografia. A ideia de que os padres da Companhia de Jesus seriam os mais indicados para tal função na China devia-se ao fato, já então bem conhecido na Europa, de que eles desfrutavam de boa acolhida na fechada corte imperial, o que não era o caso de outros estrangeiros [Ibid.: 10-11].

A Missão Francesa, no entanto, foi muito além de um simples contato científico e missionário. O imperador Kang’xi, que ocupou o trono entre 1662 e 1722, afeiçoou-se aos inacianos tornando-se um grande admirador de suas atividades, integrando-os durante seu longo reinado ao corpo dos grandes letrados do Império [Spence, 1988].

Das muitas cartas enviadas pelos jesuítas a seus correspondentes europeus, destaca-se a de Jean de Fontaney, escrita em fevereiro de 1703 para o padre de la Chaise, confessor do rei francês Luís XIV. Nela, Fontaney descreve de modo muito positivo as honras que foram proporcionadas ao padre flamengo Ferdinan Verbiest na cerimônia de seu velório, ocorrido anos antes, em 1688. Verbiest, que não fazia parte da Missão Francesa mas que era muito admirado por todos, tinha se destacado como matemático e astrônomo. Fontaney não  trata apenas da chamada missão francesa, mas dá um bom panorama das atividades de diversos jesuítas na corte imperial. Relata também em sua correspondência o papel de mediação exercido pelos padres em um confronto que havia ocorrido entre russos e chineses, em virtude do agressivo expansionismo russo. A atuação dos inacianos como mediadores foi fundamental naquela oportunidade para que se alcançasse a então chamada Paz de Nertchinski. Nela destacou-se a atuação de Thomas Pereyra e Jean-François Gerbillon que estavam a serviço do imperador chinês, partucipando das reuniões entre ambas as nações como intérpretes e conselheiros [Fontaney, 2001, p. 65]. Nesta mesma carta o jesuíta descreve ainda o grande interesse do imperador pelo estudo da matemática e da geometria euclidiana [Ibid.: p. 66] reafirmando, portanto, na Europa, uma imagem muito positiva do soberano chinês, curioso e interessado em aprender, o que era, efetivamente, uma característica de Kang’xi [Spence, op. cit. p. xviii].


Outros missionários franceses mantiveram também uma ativa correspondência com diversas personalidades europeias. O padre Dominique Parrenin, que além de missionário era um cientista consagrado, trocou, entre 1728 e 1740, diversas cartas com Dortous de Mairan, físico e matemático que foi diretor da Academia de Ciências de Paris e depois seu Secretário Perpétuo [Parrenin, 2001, p.180]. Em uma destas cartas o padre discorreu longamente sobre as ciências na China, fazendo análises interessantes sobre o fato dos chineses valorizarem mais a “história das leis e da moral”, o que ocorria em detrimento das “ciências especulativas”, como eram chamadas a geometria e a astronomia [Ibid.: 184].

A situação descrita pelo jesuíta era real e justamente em função dela o trabalho dele e de seus companheiros mostrava-se de grande utilidade para o império. Parrenin, porém, destacou que o relativo atraso no qual se encontravam os chineses no século XVIII em relação às “ciências especulativas” não consistia em nenhuma deficiência mas resultado de uma escolha, já que os concursos para mandarim, que davam acesso às funções de maior prestígio, exigiam principalmente conhecimentos ligados às leis e à moral. De acordo com o padre Parrenin os chineses eram “bem sucedidos em outros assuntos que não demandavam menos gênio e nem menos profundidade do que a astronomia e a geometria”. [Ibid., p.181]

O imperador Qianlong, que reinou de 1735 até 1796, sucedeu Kang’xi e manteve, como era praxe já há muitos anos, diversos jesuítas a seu serviço em Beijing, inclusive padres que eram também artistas e que trabalhavam como pintores oficiais da corte. Alguns deles alcançaram grande destaque, como foi o caso do italiano Giuseppe Castiglione “que fez (…) combinar as artes ocidental e oriental e formar uma nova escola de pintura da China (…)” [Seng, 2002, p. 131]

No entanto os inacianos que, como seus antecessores, continuavam a viver sob a proteção imperial, estavam entre os derradeiros representantes de um rico encontro entre o Ocidente e o Oriente que em breve seria interrompido em função de acirradas discussões sobre as práticas da missionação. As ásperas disputas que ficaram conhecidas como a “querela dos ritos”, motivadas pela intransigência da Santa Sé em aceitar as cerimônias de culto aos ancestrais e de homenagem a Confúcio, fizeram com que os missionários começassem a perder o apoio até mesmo do próprio imperador e a sofrer perseguições de parte da população, já que os rituais que estavam sendo criticados pelo papado representavam a própria essência da milenar cultura chinesa.


Na Europa, recrudesciam também as críticas aos métodos inacianos de aculturação o que, ao menos parcialmente, influenciaria na dissolução da Ordem. Da parte dos jesuítas, já não havia mais uma personalidade forte, batalhadora por suas idéias e prestigiada em Roma, como havia sido o caso de Alessandro Valignano, no século XVI, e que pudesse defender a originalidade de seus métodos de aproximação com as populações locais, visando abrir caminho para a catequese.

Conclusão

Os jesuítas, sem dúvida, sempre tiveram uma pedagogia diferenciada em sua atividade missionária, incluindo um certo grau de abertura para a alteridade e o projeto de, em algumas sociedades, iniciar a missionação pelas classes mais altas e letradas. No caso dos inacianos que estiveram no império chinês entre os séculos XVI e XVIII o caminho foi pavimentado também pelas ideias confucionistas que, longe de desagrada-los, passaram a ser incorporadas, em certa medida, como parte de comportamentos morais que os padres consideravam comuns aos cristãos e aos seguidores de Confúcio.

O bom relacionamento entre os jesuítas e os letrados chineses devia-se não apenas às atitudes dos padres mas também ao mandarinato e, em diversos casos, igualmente a imperadores que viabilizaram verdadeiros encontros de civilizações. As trocas foram materiais, intelectuais e até mesmo afetivas, baseadas em admiração recíproca. Atualmente, diversos nomes de jesuítas são lembrados pelos chineses e os que mais se destacaram estão referenciados em museus importantes que contam a história imperial, como o Antigo Observatório Astronômico de Beijing, cuja exposição permanente rende homenagem aos astrônomos Adam Schall von Bell e Ferdinando Verbiest.

O chamado Cemitério Jesuíta de Beijing, conhecido como Cemitério de Zhalan, que incluímos como fonte material de nossa pesquisa, também é testemunho do apreço e respeito pelos inacianos da parte dos chineses, que ali conservam 63 túmulos com grande zelo. Em sua entrada estão, com destaque, as lápides de Matteo Ricci, Adam Schall von Bell e Ferdinand Verbiest.

Houve, sem dúvida, períodos de muitas tensões entre  chineses e europeus em torno das atividades de catequese, com momentos de perseguições e de incompreensões também da parte dos missionários europeus. Os franciscanos registraram na sua história inúmeros relatos de martírio, ocorridos principalmente no interior.  Os jesuítas, embora em grau bem menor, foram também alvo de ataques, mas quase sempre fora da capital. O foco de nossa pesquisa, porém, é o do intercâmbio entre inacianos e chineses e, dentro de um escopo mais amplo, o da avaliação da influência deste encontro na construção de imagens da China na Europa, imagens estas que se mantiveram positivas por um considerável período de tempo e que podem ser consideradas como parte essencial do fascínio ocidental pelo Oriente.

Referências:

Carmen Lícia Palazzo é doutora em História pela Universidade de Brasília, UnB, pesquisadora convidada do UniCeub, pesquisadora do Grupo de Estudos Persas e do Grupo Rota da Seda na Antiguidade, da UnB. Foi também pesquisadora convidada da Georgetown University, EUA.

Agradecimentos: ao professor Hirochika Nakamaki do Museu Nacional de Etnologia de Osaka pela generosa disponibilização de fontes importantes para a esta pesquisa e também aos professores Julio Jatobá, em Macau, e Jorge Cardoso Leão, no Rio de Janeiro, que colaboraram com importantes sugestões bibliográficas.

[Todas as traduções de fontes e bibliografia em língua estrangeira no corpo do texto são nossas.]

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Publicado em:

BUENO, André; ESTACHESKI, Dulceli; CREMA, Everton; NETO, José Maria [orgs.] Mais Orientes. Rio de Janeiro/União da Vitória; Edições Sobre Ontens/LAPHIS, 2017., p. 31-45.
ISBN: 978-85-65996-48-8

Disponível em: www.revistasobreontens.site