A arte GANDHARA

GANDHARA: UM ENCONTRO DE CULTURAS

Carmen Lícia Palazzo.

Na região dos atuais Afeganistão e Paquistão foram descobertos os testemunhos materiais dos mais antigos e bem-sucedidos encontros entre a arte do Ocidente e a do Oriente — as chamadas esculturas de Gandhara. Por Gandhara entende-se uma antiga província na Ásia Central que, no século IV a.C., fez parte do território conquistado por Alexandre após violentas batalhas contra os persas. Após a morte do macedônio, o império foi dividido entre seus generais.

Não apenas o comércio foi estimulado mas verdadeiras colônias gregas se estabeleceram na região. Na margem do rio Oxus, atual Amu Darya, foi fundada, na Antiguidade, Aï Khanoum, cujo ginásio, templo e pisos de mosaico fizeram dela uma verdadeira cidade helênica. Impressionante descoberta arqueológica, foi infelizmente destruída no decorrer da guerra dentre o Afeganistão e a então URSS.[1]

Com a expansão dos Kushan, que no século II da era atual já haviam conquistado o remanescente dos reinos gregos pós-alexandrinos na Ásia Central e no norte da Índia, o comércio continuou florescendo. Kanisha, que reinou entre os anos de 129 e 132, incentivou a produção artística de caráter budista mas exercendo uma tolerância religiosa que permitiu o culto de deuses gregos, iranianos e indianos. Favoreceu, portanto, um alto grau de sincretismo que permeou toda a cultura da região.

A cronologia que tem sido aceita pelos estudiosos para a análise da Rota da Seda, enfatiza os séculos I e II como um marco importante para o início de uma circulação mais densa de mercadorias. Trata-se de um período de significativas trocas culturais que coincide não apenas com o desenvolvimento do comércio pelos Sogdianos e com a chegada do budismo na China mas também com o apogeu do império Kushan. Trata-se também do início de um frutífero intercâmbio artístico que legará à Ásia algumas de suas mais belas obras.

A própria história do budismo está indissoluvelmente ligada à da Rota da Seda e uma das conseqüências da aproximação entre mundo greco-romano e o asiático na região de Gandhara foi a adoção da figura humana na representação de Buda. Nos primeiros séculos de difusão dos ensinamentos de Sidarta Gautama o mesmo era evocado através de imagens de pegadas, de um trono vazio, de um dossel ou da roda do dharma, evitando-se todo e qualquer apelo ao que pudesse ser entendido como objeto de culto. Porém, com a maior difusão do budismo, que no século II já se expandira através dos muitos caminhos de mercadores, surgem as primeiras imagens e com elas uma forte influência greco-romana.

Não se conhece exatamente a trajetória daqueles que teriam sido os escultores da região de Gandhara durante o império Kushan, onde foram realizadas as primeiras esculturas de Budas e de Bohdisattvas com traços helênicos e com drapejados em vestimentas muito semelhantes aos encontrados na Grécia e em Roma. Há também uma discussão entre os especialistas sobre os motivos que possam ter levado a uma significativa mudança nas mentalidades para que a representação da figura humana passasse a ser aceita e, desde então, largamente difundida entre os budistas. Sem dúvida o intercâmbio que se processava ao longo da Rota da Seda teve sua parcela de influência na adoção de imagens e no seu uso como objetos de culto, no panteão budista. As anteriores conquistas de Alexandre, de certa forma, também abriram caminho para aproximar o mundo mediterrâneo e adriático da Ásia Central. Assim, a interpenetração não apenas de estilos mas também de práticas produziu alterações importantes que marcaram novas formas de religiosidade.

A Sackler Gallery, da Smithsonian Institution, em Washington, D.C., possui, no seu acervo, uma esplêndida cabeça de Bodhisattva em estuque, de 53 cm, datada aproximadamente dos séculos IV ou V, da área de Gandhara (ver Figura 1). Observando as feições do personagem e principalmente a maneira como foram esculpidos os cabelos cacheados, evidenciam-se elementos que o distinguem das imagens tipicamente asiáticas. À exceção dos olhos amendoados, todo o rosto evoca um modelo grego ou romano.

Figura 1: Cabeça de Bodhisattva Gandhara[2]

Sherman E. Lee, especialista em arte oriental, referindo-se ao uso do estuque para as esculturas, escreve:

Sucumbe-se ao charme e à virtuosidade técnica destas imagens plásticas.  A produção de esculturas em pedra em Gandhara tende a acabar até o século III ou IV, e o trabalho subseqüente tende a ser executado em estuque, quando o gênio indiano para as formas plásticas e fluidas se reafirma.[3]

Conforme nos referimos anteriormente, outra característica da arte Gandhara é a semelhança das vestimentas de alguns personagens tanto com os panos gregos quanto com as togas romanas. O Museu de Artes Asiáticas Guimet, de Paris, possui em sua coleção algumas obras muito representativas deste estilo. Em uma escultura denominada “Bodhisattva em pé”, de 120 cm de altura, realizada entre os séculos I e III e encontrada no sítio arqueológico de Shahbaz-Garhi, é bastante clara a influência grega na veste fartamente drapejada.[4]

São muitos os exemplos passíveis de análise tendo como objetivo detectar os aportes da Grécia e de Roma na arte budista, principalmente em obras do período compreendido entre os séculos I e V na Ásia Central. Mas, como sempre ocorre em se tratando de manifestações artísticas, as influências não se esgotam em um período determinado e nem se circunscrevem a uma única região.

Os modelos migram para outras áreas e outras épocas, e vão se somando a novas criações que acumulam conteúdos e formas passadas, reinterpretando-os e transformando-os. Na arte oriental, e especialmente na budista, que cobre uma vasta extensão geográfica e tem a duração de muitos séculos, é rica a incorporação de influências externas e a elaboração e reconstrução de sentidos.


[1] Ver, para maiores informações, BOPEARACHCHI, Osmund.. De l’Indus à l’Oxus: Archéologie de l’Asie Centrale. Paris: Lattès, 2003.

[2] Peça do acervo da Arthur M. Sackler Gallery, Afeganistão, em torno de 300-400. Referência S1987.951. (Foto minha).

[3]  LEE, Sherman E. A History of Far Eastern Art. New Jersey: Prentice Hall Inc., 1994, p. 108.

[4] Para visualizar a imagem da referida escultura, acessar a página do Museu Guimet  www.museeguimet.fr e buscar Bodhisattva débout.

Nos caminhos da Rota da Seda: Dunhuang

Este post é parte de um dos capítulos do livro que estou escrevendo sobre minha estadia na China

Carmen Lícia Palazzo.

“(…) Já há alguns anos eu me interessava pela história de viajantes que, através dos séculos, percorreram toda uma rede de estradas e caminhos que atravessavam a Ásia e chegavam até os portos orientais do Mediterrâneo. Estes viajantes que seguiam quase sempre em grandes caravanas eram mercadores, peregrinos, missionários, agentes oficiais, diplomatas e aventureiros das mais diversas etnias e que, de forma direta ou indireta, participavam de um importante intercâmbio não apenas comercial mas também de ideias e de crenças religiosas.

A grande movimentação que ocorreu principalmente entre os séculos II e XIV, despertou grande interesse nos arqueólogos, historiadores e orientalistas no decorrer de todo o século XIX. Foi então que o geógrafo e explorador Ferdinand von Richthofen cunhou o nome de Rota da Seda para aquela imensa rede de comunicações, em virtude da seda ter se constituído em um dos mais caros e cobiçados produtos que o Oriente enviava para a Europa.

Não tive dúvidas e organizei eu mesma e sem nenhuma agência de turismo, apenas fazendo uso da internet, uma viagem que incluiria inicialmente Dunhuang, a cidade que se desenvolveu a partir de um oásis no deserto de Gobi, na província do Gansu, ao norte da China. De Dunhuang iria depois para Xi’an, mas aquele primeiro destino era um dos que eu mais desejava conhecer.

Desde o início da temporada chinesa o Paulo Roberto e eu tínhamos combinado que caberia a mim a organização de nossas viagens, a escolha de roteiros, de hotéis e até mesmo os horários e meios de transporte que utilizaríamos (na maioria das vezes o trem), pois eu já havia lido e me informado intensivamente sobre o país. Assim, lá estávamos nós, então, frente à grande oportunidade de conhecer de perto alguns daqueles que tinham sido os pontos altos da lendária rota das caravanas.

Durante toda a Idade Média, o oásis de Dunhuang foi um local de encontro e de reabastecimento na rota das caravanas que ali se preparavam para etapas mais difíceis que ainda encontrariam pela frente. O lugar era estratégico para o descanso, no entroncamento de vários caminhos, já que os caravaneiros seguiam para destinações diversas, entre elas a Índia, o Tibete, o Irã e os portos mediterrâneos orientais. O que as pesquisas mais recentes têm mostrado é justamente uma enorme variedade de contatos, apontando para uma rede de intercâmbio muito mais densa do que a que foi vislumbrada pelos orientalistas do século XIX.

Desembarcamos em Dunhuang após um ótimo vôo em uma companhia aérea chinesa, tendo sido esta uma das poucas viagens que não fizemos de trem, dada a grande distância de Xangai até a província de Gansu. No aeroporto, nos esperava um simpático motorista enviado pelo Silk Road Hotel, que eu já havia reservado através de uma página que encontrei na internet. A chegada ao hotel foi impressionante, o prédio era imponente, de uma beleza sóbria e sem nenhuma outra construção à sua volta. Na imensa recepção, tapeçarias, pinturas, objetos e mapas formavam um ambiente luxuoso e elegante. O quarto era encantador, decorado com estofados de qualidade, uma colcha de seda macia e aconchegante, as paredes enfeitadas com caligrafia chinesa em pedaços de bambu e, da janela, a vista, ao longe, das dunas do deserto. Tudo isto por um preço de qualquer outro hotel médio no Ocidente mas também em outras cidades chinesas.

Uma hospedagem perfeita se não fosse a total incapacidade dos funcionários do hotel, mesmo na recepção, de falar em inglês ou qualquer outro idioma ocidental com os hóspedes. Foi ali que descobrimos que a expressão “hotel internacional” é uma ficção em muitas cidades do interior, ainda que seu nome seja pomposamente anunciado em inglês em todos os folhetos e sites. Concluímos que turistas estrangeiros viajando sem excursão, sem um guia local especializado, como sempre foi o nosso caso, constituíam-se numa raridade.

Lembro que tentei, justamente naquele hotel, pedir açúcar para o meu chá, o que foi impossível. Em primeiro lugar porque os chineses tomam chá sem açúcar, mas também porque a palavra tang, que eu tentava pronunciar corretamente, pode significar várias coisas, dependendo do tom de voz em que é dita, inclusive sopa. E considerando-se que, para eles, não é impossível tomar sopa acompanhada por um chá, sempre que eu fazia meu pedido, em vez de açúcar era brindada com um fumegante pote de sopa!

A dificuldade de comunicação, porém, não impediu que a viagem fosse memorável. E, afinal, a beleza do hotel e a simpatia e os sorrisos de seus funcionários nos conquistaram e fizeram também com que nossa estadia fosse muito agradável. Digo sem pestanejar que eu me hospedaria nele novamente, mas é claro que agora falando um pouquinho de mandarim… Combinamos com o motorista que havia nos esperado no aeroporto (e que falava um pouco de inglês, pouco mas o suficiente para os acertos sobre roteiros) que nos levasse ao que mais queríamos ver próximo a Dunhuang, o conjunto conhecido como grutas ou cavernas do desfiladeiro de Mogao.

Em um longo e impressionante  desfiladeiro situado em uma das pontas do deserto de Gobi, começaram a ser escavadas, desde o século IV, inúmeras cavernas cujo objetivo era o de abrigar comunidades de monges budistas que dariam apoio espiritual para os integrantes das caravanas que tinham, naquela região, a última parada ainda sob proteção do governo chinês. A própria cidade-oásis de Dunhuang era o derradeiro posto militar chinês antes da fronteira e a partir dali os viajantes passavam a enfrentar rotas menos protegidas e certamente expostas a maiores perigos.

Os monges que foram se instalando em Mogao através dos séculos desenvolveram uma ativa comunidade que se transformou em importante centro de devoção. Não era incomum que os viajantes com algumas posses encomendassem pinturas e esculturas para decoração das cavernas, tanto para pedir bençãos para enfrentar os percalços dos longos caminhos que os esperavam pela frente, quanto para agradecer o retorno ao território chinês, após aventuras bem sucedidas. Por outro lado, pagar para que as cavernas fossem escavadas e decoradas com belas obras de arte era um ato que permitiria, para os budistas, a acumulação de mérito, importante para que os próximos renascimentos ocorressem  em situação favorável. Assim, não só viajantes foram os responsáveis pela arte de Dunhuang e os especialistas atualmente consideram que muitos foram os mecenas de toda aquela beleza, provavelmente também muitas autoridades locais.

Aos poucos foi aumentando o número de cavernas cujo interior era recoberto de pinturas e esculturas e já no século XIV o conjunto artístico havia atingido o seu auge. Ao todo elas são 492 decoradas e mais 243 que no passado serviram como celas para o alojamento e as atividades diárias dos monges. Tudo isto eu conhecia um pouco através de alguns livros e, há anos, tinha encontrado breves referências a Dunhuang nos museus da Smithsonian Institution, em Washington, D.C. Mas, de repente, eu estava ali vivendo uma experiência mágica. Era a minha chance do contato direto com aquele que é considerado o mais excepcional conjunto de arte budista conhecido.

O impacto, logo que nos aproximamos de Mogao, foi muito grande: o solo arenoso do oásis, o leito seco de um rio e a longa ravina toda perfurada com aberturas que são as portas de entrada de cada caverna, criando um bordado ao longo de todo o paredão. Ao nos aproximarmos, nos deparamos com um belo pórtico de madeira pintada, marcando a entrada principal do acesso às cavernas. Uma guia chinesa de ótima formação, com evidente conhecimento das diversas características da arte budista, nos acompanhou na visita que foi organizada no próprio local. Por questão de segurança não se pode fazer a visita sem o acompanhamento de um guia, dada a fragilidade de cada interior decorado.

É difícil descrever a sensação de ver tudo aquilo ao vivo. Há uma profusão de pinturas que cobrem as paredes e os tetos com temas relacionados ao budismo, mas também descrevendo as atividades rotineiras das caravanas, com cenas de viagem e também da vida diária. Os personagens retratados não são apenas chineses, há muitos mongóis, tibetanos, árabes e representantes de outros povos que circularam pela região. E, além das pinturas, há muitas esculturas, algumas delas de imensos budas.

Na caverna de número 126, uma pintura magnífica relata a história do monge Xuanzang, que foi à Índia em busca dos textos sagrados do budismo e é considerado um dos mais famosos viajantes da Rota da Seda. Xuanzang divulgou os ensinamentos de Buda na sociedade chinesa e sua memória ainda hoje é evocada com respeito e admiração, em vários templos espalhados pelo país.

Na caverna 296, uma belíssima pintura relata a viagem de um homem cujas feições não são chinesas. Provavelmente um árabe, conduzindo um camelo carregado de mercadorias, acompanhado de um chinês montado em um cavalo. Os mercadores árabes e persas frequentaram a Rota da Seda e muitas vezes chegaram a se estabelecer na China onde seus negócios prosperaram. A caverna    tem, no seu interior, também uma estátua monumental de Buda.

Em mais de um dos interiores foram pintadas as apsaras, figuras femininas muito graciosas e delicadas que para nós, ocidentais, evocam anjos ou fadas, muitas vezes tocando instrumentos musicais. São seres celestiais do panteão budista cuja função é principalmente decorativa, levando alegria às cenas das quais fazem parte. Durante a visita, entra-se apenas em um número limitado de cavernas mas mesmo assim o esplendor é tanto que a emoção perdura por um longo tempo mesmo depois que se deixa o lugar. A sensação que eu tive foi a de ter visto algo único não apenas pela sua qualidade artística mas também pela enorme densidade histórica de toda a região. E esculturas mais recentes das apsaras, seguindo o modelo das que foram encontradas nas pinturas antigas, também estão espalhadas pelo oásis, encantando-nos com sua leveza.

Além das grutas de Mogao visitamos também o museu de Dunhuang e uma parte do deserto onde está o lago da Lua Crescente. O lago tem a forma de meia-lua e suas águas são cristalinas e muito limpas apesar de toda a areia das dunas à sua volta. É uma paisagem única, não alterada há muitos séculos. Foi divertido caminhar pelas dunas, ver de perto os camelos que circulam por ali e ter uma ideia do que devem ter enfrentado os viajantes de outras épocas, para os quais aquela era apenas uma parte da imensa jornada que os levaria a atravessar a Ásia Central.”