Breves reflexões sobre a China

Quem já morou na China constata o controle que é exercido pelo governo mas, ao mesmo tempo, a liberdade que têm os chineses de viajar para o exterior, de estudar fora, sair e voltar para o país em diversas oportunidades.

Sem dúvida, a China é um governo de partido único, sem dúvida o Xi Jiping endureceu mais os controles do que os do tempo do Hu Jintao, mas um considerável grau de liberdade e de empreendedorismo continua vigente, o que agrada sobretudo a uma população mais jovem. Mais dinheiro no bolso, aumento do poder de compra, facilidades de pagamento, uma impressionante modernidade na qual até a compra de verduras nos mercados é feita com o celular (altamente disseminado entre as pessoas, mesmo nas pequenas cidades) são fortes antídotos contra rebeliões.

O crescimento da economia e sua impressionante modernização, assim como o efetivo combate à pobreza são aliados do governo.

Entre 28 e 29 de junho vai ocorrer, em Osaka, no Japão, o encontro do G20. Trump e Xi Jiping obviamente estarão lá e fala-se de uma reunião privada entre os dois. Como o presidente americano acaba de voltar atrás em relação às tarifas para o México, aguarda-se para ver o que dirá ao Xi.

De qualquer maneira, a intransigência dos EUA dificilmente enfraquece Xi Jiping internamente, muito pelo contrário. Quem está colocando problemas no relacionamento entre ambos os países são os EUA e não a China e isto tem sido dito claramente para a população chinesa. 

No seu estilo habitual, Donald Trump já voltou um pouco atrás, tendo declarado que: “Maybe something will happen” e também que: “We’re going to be meeting [ele e Xi], as you know, at the G20 in Japan, and that’ll be, I think, probably a very fruitful meeting”(Fonte desta declaração: South China Morning Post, 23. maio. 2019).

Ao contrário de muitos outros países, que costumam deixar claras suas intenções, a China é mais sutil e mesmo ambígua e os chineses são famosos por sua capacidade de negar algo raramente usando a palavra “não”. Resta, assim, observar realmente o que vai sair deste encontro em breve, já que o presidente americano, sem dúvida não por sutileza, poderá surpreender.

Quero lembrar, ainda, que qualquer avaliação sobre a China que enfatize o marxismo ou mesmo, como o fez recentemente uma autoridade brasileira, o “maoísmo”, estará partindo de premissas equivocadas. A especificidade chinesa combina a liberdade econômica com algo que vem de muito longe, a forte influência da mentalidade confucionista.

Se a leitura, as discussões e o estudo de Confúcio foram banidos durante os duros anos da Revolução Cultural e não contavam com a simpatia do próprio Mao, os comportamentos da população, as chamadas mentalidades continuavam influenciadas pelo confucionismo. E os atuais dirigentes chineses sabem que os ditos “clássicos” podem ser aliados na valorização da hierarquia e em tantos outros aspectos que fazem da China um país que respeita sobremaneira os seus mestres.

Entender o país implica em um estudo aprofundado da sua rica história, que de modo algum pode ser reduzida a uns poucos anos contemporâneos. Há muitas camadas que tornaram a China, através dos milênios, uma sociedade como ela é hoje. Precisamos de especialistas em negociações com a China, mas precisamos e muito de diversos historiadores e cientistas políticos que estudem o país com um olhar que nnao se atenha exclusivamente à Economia. Mesmo para desenvolver as relações econômicas.
(Carmen Lícia Palazzo)