Nos caminhos da Rota da Seda: Dunhuang

Este post é parte de um dos capítulos do livro que estou escrevendo sobre minha estadia na China

Carmen Lícia Palazzo.

“(…) Já há alguns anos eu me interessava pela história de viajantes que, através dos séculos, percorreram toda uma rede de estradas e caminhos que atravessavam a Ásia e chegavam até os portos orientais do Mediterrâneo. Estes viajantes que seguiam quase sempre em grandes caravanas eram mercadores, peregrinos, missionários, agentes oficiais, diplomatas e aventureiros das mais diversas etnias e que, de forma direta ou indireta, participavam de um importante intercâmbio não apenas comercial mas também de ideias e de crenças religiosas.

A grande movimentação que ocorreu principalmente entre os séculos II e XIV, despertou grande interesse nos arqueólogos, historiadores e orientalistas no decorrer de todo o século XIX. Foi então que o geógrafo e explorador Ferdinand von Richthofen cunhou o nome de Rota da Seda para aquela imensa rede de comunicações, em virtude da seda ter se constituído em um dos mais caros e cobiçados produtos que o Oriente enviava para a Europa.

Não tive dúvidas e organizei eu mesma e sem nenhuma agência de turismo, apenas fazendo uso da internet, uma viagem que incluiria inicialmente Dunhuang, a cidade que se desenvolveu a partir de um oásis no deserto de Gobi, na província do Gansu, ao norte da China. De Dunhuang iria depois para Xi’an, mas aquele primeiro destino era um dos que eu mais desejava conhecer.

Desde o início da temporada chinesa o Paulo Roberto e eu tínhamos combinado que caberia a mim a organização de nossas viagens, a escolha de roteiros, de hotéis e até mesmo os horários e meios de transporte que utilizaríamos (na maioria das vezes o trem), pois eu já havia lido e me informado intensivamente sobre o país. Assim, lá estávamos nós, então, frente à grande oportunidade de conhecer de perto alguns daqueles que tinham sido os pontos altos da lendária rota das caravanas.

Durante toda a Idade Média, o oásis de Dunhuang foi um local de encontro e de reabastecimento na rota das caravanas que ali se preparavam para etapas mais difíceis que ainda encontrariam pela frente. O lugar era estratégico para o descanso, no entroncamento de vários caminhos, já que os caravaneiros seguiam para destinações diversas, entre elas a Índia, o Tibete, o Irã e os portos mediterrâneos orientais. O que as pesquisas mais recentes têm mostrado é justamente uma enorme variedade de contatos, apontando para uma rede de intercâmbio muito mais densa do que a que foi vislumbrada pelos orientalistas do século XIX.

Desembarcamos em Dunhuang após um ótimo vôo em uma companhia aérea chinesa, tendo sido esta uma das poucas viagens que não fizemos de trem, dada a grande distância de Xangai até a província de Gansu. No aeroporto, nos esperava um simpático motorista enviado pelo Silk Road Hotel, que eu já havia reservado através de uma página que encontrei na internet. A chegada ao hotel foi impressionante, o prédio era imponente, de uma beleza sóbria e sem nenhuma outra construção à sua volta. Na imensa recepção, tapeçarias, pinturas, objetos e mapas formavam um ambiente luxuoso e elegante. O quarto era encantador, decorado com estofados de qualidade, uma colcha de seda macia e aconchegante, as paredes enfeitadas com caligrafia chinesa em pedaços de bambu e, da janela, a vista, ao longe, das dunas do deserto. Tudo isto por um preço de qualquer outro hotel médio no Ocidente mas também em outras cidades chinesas.

Uma hospedagem perfeita se não fosse a total incapacidade dos funcionários do hotel, mesmo na recepção, de falar em inglês ou qualquer outro idioma ocidental com os hóspedes. Foi ali que descobrimos que a expressão “hotel internacional” é uma ficção em muitas cidades do interior, ainda que seu nome seja pomposamente anunciado em inglês em todos os folhetos e sites. Concluímos que turistas estrangeiros viajando sem excursão, sem um guia local especializado, como sempre foi o nosso caso, constituíam-se numa raridade.

Lembro que tentei, justamente naquele hotel, pedir açúcar para o meu chá, o que foi impossível. Em primeiro lugar porque os chineses tomam chá sem açúcar, mas também porque a palavra tang, que eu tentava pronunciar corretamente, pode significar várias coisas, dependendo do tom de voz em que é dita, inclusive sopa. E considerando-se que, para eles, não é impossível tomar sopa acompanhada por um chá, sempre que eu fazia meu pedido, em vez de açúcar era brindada com um fumegante pote de sopa!

A dificuldade de comunicação, porém, não impediu que a viagem fosse memorável. E, afinal, a beleza do hotel e a simpatia e os sorrisos de seus funcionários nos conquistaram e fizeram também com que nossa estadia fosse muito agradável. Digo sem pestanejar que eu me hospedaria nele novamente, mas é claro que agora falando um pouquinho de mandarim… Combinamos com o motorista que havia nos esperado no aeroporto (e que falava um pouco de inglês, pouco mas o suficiente para os acertos sobre roteiros) que nos levasse ao que mais queríamos ver próximo a Dunhuang, o conjunto conhecido como grutas ou cavernas do desfiladeiro de Mogao.

Em um longo e impressionante  desfiladeiro situado em uma das pontas do deserto de Gobi, começaram a ser escavadas, desde o século IV, inúmeras cavernas cujo objetivo era o de abrigar comunidades de monges budistas que dariam apoio espiritual para os integrantes das caravanas que tinham, naquela região, a última parada ainda sob proteção do governo chinês. A própria cidade-oásis de Dunhuang era o derradeiro posto militar chinês antes da fronteira e a partir dali os viajantes passavam a enfrentar rotas menos protegidas e certamente expostas a maiores perigos.

Os monges que foram se instalando em Mogao através dos séculos desenvolveram uma ativa comunidade que se transformou em importante centro de devoção. Não era incomum que os viajantes com algumas posses encomendassem pinturas e esculturas para decoração das cavernas, tanto para pedir bençãos para enfrentar os percalços dos longos caminhos que os esperavam pela frente, quanto para agradecer o retorno ao território chinês, após aventuras bem sucedidas. Por outro lado, pagar para que as cavernas fossem escavadas e decoradas com belas obras de arte era um ato que permitiria, para os budistas, a acumulação de mérito, importante para que os próximos renascimentos ocorressem  em situação favorável. Assim, não só viajantes foram os responsáveis pela arte de Dunhuang e os especialistas atualmente consideram que muitos foram os mecenas de toda aquela beleza, provavelmente também muitas autoridades locais.

Aos poucos foi aumentando o número de cavernas cujo interior era recoberto de pinturas e esculturas e já no século XIV o conjunto artístico havia atingido o seu auge. Ao todo elas são 492 decoradas e mais 243 que no passado serviram como celas para o alojamento e as atividades diárias dos monges. Tudo isto eu conhecia um pouco através de alguns livros e, há anos, tinha encontrado breves referências a Dunhuang nos museus da Smithsonian Institution, em Washington, D.C. Mas, de repente, eu estava ali vivendo uma experiência mágica. Era a minha chance do contato direto com aquele que é considerado o mais excepcional conjunto de arte budista conhecido.

O impacto, logo que nos aproximamos de Mogao, foi muito grande: o solo arenoso do oásis, o leito seco de um rio e a longa ravina toda perfurada com aberturas que são as portas de entrada de cada caverna, criando um bordado ao longo de todo o paredão. Ao nos aproximarmos, nos deparamos com um belo pórtico de madeira pintada, marcando a entrada principal do acesso às cavernas. Uma guia chinesa de ótima formação, com evidente conhecimento das diversas características da arte budista, nos acompanhou na visita que foi organizada no próprio local. Por questão de segurança não se pode fazer a visita sem o acompanhamento de um guia, dada a fragilidade de cada interior decorado.

É difícil descrever a sensação de ver tudo aquilo ao vivo. Há uma profusão de pinturas que cobrem as paredes e os tetos com temas relacionados ao budismo, mas também descrevendo as atividades rotineiras das caravanas, com cenas de viagem e também da vida diária. Os personagens retratados não são apenas chineses, há muitos mongóis, tibetanos, árabes e representantes de outros povos que circularam pela região. E, além das pinturas, há muitas esculturas, algumas delas de imensos budas.

Na caverna de número 126, uma pintura magnífica relata a história do monge Xuanzang, que foi à Índia em busca dos textos sagrados do budismo e é considerado um dos mais famosos viajantes da Rota da Seda. Xuanzang divulgou os ensinamentos de Buda na sociedade chinesa e sua memória ainda hoje é evocada com respeito e admiração, em vários templos espalhados pelo país.

Na caverna 296, uma belíssima pintura relata a viagem de um homem cujas feições não são chinesas. Provavelmente um árabe, conduzindo um camelo carregado de mercadorias, acompanhado de um chinês montado em um cavalo. Os mercadores árabes e persas frequentaram a Rota da Seda e muitas vezes chegaram a se estabelecer na China onde seus negócios prosperaram. A caverna    tem, no seu interior, também uma estátua monumental de Buda.

Em mais de um dos interiores foram pintadas as apsaras, figuras femininas muito graciosas e delicadas que para nós, ocidentais, evocam anjos ou fadas, muitas vezes tocando instrumentos musicais. São seres celestiais do panteão budista cuja função é principalmente decorativa, levando alegria às cenas das quais fazem parte. Durante a visita, entra-se apenas em um número limitado de cavernas mas mesmo assim o esplendor é tanto que a emoção perdura por um longo tempo mesmo depois que se deixa o lugar. A sensação que eu tive foi a de ter visto algo único não apenas pela sua qualidade artística mas também pela enorme densidade histórica de toda a região. E esculturas mais recentes das apsaras, seguindo o modelo das que foram encontradas nas pinturas antigas, também estão espalhadas pelo oásis, encantando-nos com sua leveza.

Além das grutas de Mogao visitamos também o museu de Dunhuang e uma parte do deserto onde está o lago da Lua Crescente. O lago tem a forma de meia-lua e suas águas são cristalinas e muito limpas apesar de toda a areia das dunas à sua volta. É uma paisagem única, não alterada há muitos séculos. Foi divertido caminhar pelas dunas, ver de perto os camelos que circulam por ali e ter uma ideia do que devem ter enfrentado os viajantes de outras épocas, para os quais aquela era apenas uma parte da imensa jornada que os levaria a atravessar a Ásia Central.”

Viagens atuais através da antiga Rota da Seda: Sugestão de roteiro para viajantes.

 

   São roteiros perfeitamente viáveis. Recomendo especialmente a visita a DUNHUANG, uma jóia de arte budista com centenas de cavernas pintadas. No passado, foi um oásis importante para o descanso dos caravaneiros.

The Silk Road is a historically important international trade route between China and the Mediterranean. Because silk comprised a large proportion of trade along this road, in 1877, it was named ‘the Silk Road’ by Ferdinand von Richthofen, an eminent German geographer.

Xian Terracotta Warriors
Xian Terracotta Warriors

 Culture: The road is not only an ancient international trade route, but also a splendid cultural bridge liking the cultures of China, India, Persia, Arabia, Greek and Rome. The Four Great Inventions of China and religions of the West were introduced into their counterparts. 

 History: From the time Zhang Qian opened up the world-famous Silk Road during the Han Dynasty, until the collapse of the Yuan Dynasty, it enjoyed a history of about 1,600 years.

 Route: This ancient road begins at Chang’an (now Xian), then by way of the Hexi Corridor, and it reaches Dunhuang, where it divides into three, the Southern Route, Central Route and Northern Route. The three routes spread all over the Xinjiang Uygur Autonomous Region, and then they extend as far as Pakistan, India and even Rome. 

 Other roads: In fact, besides the Silk Road in the northwest of China, there are another two trade roads in the southwest of China and by sea, which also contributed greatly to the development of the world. They are called the “Southern Silk Road” and the “Silk Road on the Sea“.

Crescent Lake, Dunhuang, Gansu
Crescent Lake, Dunhuang, Gansu

 Scenery along the Road: The scenery and sights along the Silk Road are spectacular and intriguing. There are well-known Mogao Caves (Mogao Grottoes) in Dunhuang, the bustling Sunday Bazaar in Kashgar and exotic customs in Xinjiang Uygur Autonomous Region and more … 

 Silk Road Adventure: There are all kinds of tour plans for traveling the world-famous road. TravelChinaGuide provides many tour lines for visitors to experience the adventures of this ancient trade road.


Classical Silkroad Tour: 14 Days Beijing – Urumqi – Kashgar – Urumqi – Turpan – Dunhuang – Xian – Shanghai
In-depth Adventure: 22 Days Beijing – Urumqi – Korla – Kuqa – Aksu – Kashgar – Hetian – Minfeng – Korla – Turpan – Dunhuang – Xian – Shanghai
More Silk Road Tours

 Tips: It is necessary for tourists be aware of some travel essentials when they are on the road, such as weather, food, drink, accommodation, transportation and customs of minorities. Here provides detailed information about them. 

 Pictures: The pictures show the stunning scenery of this time-honored trade route. They display not only the beauty of places of historical places, but also the natural wonders.

 

Camel Train
Camel Team in Desert, Dunhuang

 

 

Texto sobre as viagens e fotos de travelchinaguide.com/silkroad

Hangzhou

Chegando de Hangzhou, uma cidade incrível!

Hangzhou começou a se desenvolver no século VIII com a abertura do Grande Canal, uma obra importante para a economia chinesa pois facilitou a circulação de mercadorias entre as províncias do norte e do sul. O transporte pela água é uma das grandes características do comércio chinês e até hoje é muito importante a presença de barcos nos inúmeros canais e na enorme extensão de rios navegáveis que o país possui.

O período áureo de Hangzhou, porém, foi durante a dinastia dos Song do sul, que ali estabeleceram sua capital, fugindo da dominação dos invasores Jurchen (que, no início do século XII, atacaram o norte, conquistando posteriormente quase toda a China). A cidade guarda, ainda hoje, muitos vestígios do tempo em que foi uma brilhante capital. No Museu Provincial uma excepcional coleção de cerâmicas, especialmente da época Song, testemunha a riqueza e o refinamento daquela sociedade.

O Museu da Seda é muito bem apresentado e, além de um acervo importante de sedas antigas e de alguns objetos, conta a história da sericultura na China e de sua expansão através da Rota da Seda. É claro que fiquei encantada, não podia estar mais feliz de encontrado este museu!

Toda a cidade é belíssima. Fica em volta de um lago (Xi Hú) que é cortado por caminhos e pontes, formando dois pequenos lagos internos (Bei Li e Xi Li) dentro do lago principal. Ilhotas e pavilhões chineses também “enfeitam” o lago e o conjunto, todo iluminado à noite, é mágico. Durante o dia é muito comum uma neblina descer sobre as margens e é esta paisagem, com a neblina, que está registrada em inúmeras pinturas chinesas antigas.

Em uma das ruas mais antigas de Hangzhou fica um famoso Centro de Medicina Tradicional Chinesa. Fui até lá para conhecê-lo, o prédio é muito bonito e, na entrada, funciona uma farmácia tradicional (foto abaixo), em cujas paredes está exposta uma coleção de antigos potes de porcelana pintada.

Enfim, um excelente programa que pretendo repetir pois a cidade merece mais de uma visita.

Hong Kong e Macau

Viagem a Hong Kong e Macau: um belo programa e mais uma etapa de nossos passeios para conhecer a China. Hong Kong é uma cidade bastante cosmopolita e com uma grande densidade populacional. Mas o que mais me encantou foi Macau. A presença portuguesa na arquitetura e no traçado das ruas é bastante evidente. Os azulejos são magníficos. Numa livraria próxima ao Largo do Senado (cujo nome está escrito assim mesmo, em português) comprei vários livros interessantes e alguns números da revista publicada pela Fundação Oriente. Mas cabe ressaltar que é atualmente muito raro encontrar alguém que fale português em Macau! Só algumas pessoas bem mais velhas e, é claro, aqueles que se encontram envolvidos em atividade acadêmica de pesquisa sobre os encontros culturais.

O Museu Histórico é bastante didático e conta a história não apenas da cidade mas de toda a região do sul da China. E, ao lado do museu, está a ruína, com uma fachada bem preservada, da Igreja jesuíta de São Paulo, imponente, belíssima (na foto abaixo).

Em diversos pontos da China é possível encontrar referência à atividade dos jesuítas. Talvez o fato de que eles convertessem inicialmente membros da elite do império chinês e só depois as outras camadas da população, tenha feito com que sua presença assumisse condições privilegiadas. Não encontrei ainda, em nenhum museu, em nenhum prédio histórico, referências negativas à atividade jesuítica (como é frequente, por exemplo, com relação ao domínio imperialista das grandes potências, especialmente no século XIX). Matteo Ricci, por exemplo, ainda hoje é considerado pelos chineses uma grande personalidade, à altura de Confúcio!

Penso que devo voltar ao texto de Tomé Pires sobre a China, que li há tanto tempo… A Suma Oriental, que data do início da época quinhentista (escrita a partir de 1512), dá muitas informações sobre o sul e sobre o período Ming. Mas por enquanto sigo vendo, vendo tudo o que posso, procurando livros e, o que não consigo evitar, pensando em futuras pesquisas, futuros escritos!!!

Mas, acima de tudo, cada viagem tem sido um novo encantamento.