Relatos e imagens dos jesuítas-mandarins (séculos XVI ao XVIII)

Carmen Lícia Palazzo.

(Doutora em História pela Universidade de Brasília, UnB. Especialista em Relatos de Viajantes, encontros entre culturas, imagens ocidentais do Oriente e Rota da Seda. Ministra módulos sobre China e Rota da Seda em pós-graduação lato sensu do UniCeub, Brasília. Foi pesquisadora visitante na Georgetown University, Washington, D.C. É autora de Entre mitos, utopias e razão: os olhares franceses sobre o Brasil (EdiPUCRS) e Alexandra David-Néel: itinerários de uma orientalista (Annablume), além de capítulos de livros e diversos artigos para periódicos de História. E-mail: carmenlicia@gmail.com)

RESUMO: O presente artigo analisa a participação dos jesuítas na elaboração das visões europeias da China no decorrer do período imperial, mais especificamente entre os séculos XVI e XVIII, com ênfase nos seus relatos escritos que circularam em diversos idiomas entre a elite  europeia, mas também na iconografia da época e que teve sua expressão mais apreciada em um conjunto de imponentes tapeçarias francesas. Os padres da Companhia de Jesus muitas vezes alcançaram posições de prestígio junto à corte de diversos imperadores, integrando-se de modo excepcional à sociedade chinesa, descrevendo com muitos detalhes suas percepções que refletiam o fascínio que uma cultura, principalmente em seu viés confucionista, exercia sobre eles. As fontes de pesquisa aqui citadas são os relatos de três dos muitos jesuítas que viveram na China: Matteo Ricci, Álvaro Semedo e Gabriel de Magalhães, altamente representativos do encontro entre mundos tão distintos, e também as tapeçarias que foram produzidas no ateliê de Beauvais entre o final do século XVII e as primeiras décadas do século XVIII, e que bem documentam a sinofilia que então se disseminava entre os europeus.

Palavras-chave: Jesuítas. China. Aculturação. Imagens do Outro.

ABSTRACT:  This article focuses on the role of the Jesuits in the formulation of European views of imperial China between the sixteenth and eighteenth centuries. It focuses on written journals that circulated in different languages ​​among the European elite, but also on the iconography of the period. The latter had its most appreciated expression in a set of imposing French tapestries. Priests of the Society of Jesus often reached prestigious positions at the court of several emperors, integrating exceptionally in Chinese society and describing in much detail their perceptions, evidencing their fascination with that culture, and especially its Confucian aspects. The research sources used here are the accounts of three of the many Jesuits who lived in China – Matteo Ricci, Álvaro Semedo and Gabriel de Magalhães, who are representative of the encounter between such different worlds – as well as the tapestries manufactured in the Beauvais workshop between the end of the 17th century and the first decades of the 18th century, and which document clearly the Synophilia then popular among Europeans.

Keywords: Jesuits. China. Acculturation. Images of the Other.

Introdução

A história dos jesuítas no império chinês é a de um relacionamento na longa duração que gerou um encontro entre culturas, não sem percalços, mas de grande riqueza, iniciando-se nas últimas décadas do século XVI e mantendo-se ativo até meados do século XVIII. O florescimento das relações comerciais entre a Europa e a China e o interesse ocidental pelas porcelanas, sedas, lacas e outros produtos exportados a partir do porto de Macau, contribuíram para que se desenvolvesse um imaginário que associava os países asiáticos ao luxo e ao refinamento, originando a moda europeia das “chinoiseries”.

Os missionários jesuítas constituíram-se em parte de um processo de construção de imagens da China em função de sua frequente correspondência e de seus relatos com detalhadas descrições das longas temporadas nas quais muitos deles viveram no Império do Meio, em estreitos contatos com mandarins e até mesmo com alguns imperadores. As evidências do papel dos jesuítas na veiculação da ideia de uma China sofisticada, na qual era muito clara a valorização da ciência, dos mestres e da educação de um modo geral, estão bem presentes nos seus textos. Vários deles, inclusive, foram traduzidos para mais de um idioma, tendo circulado entre os letrados de diversos países europeus.

O inegável interesse ocidental pela movimentada saga dos jesuítas no império chinês pode ser visto também em uma das peças de um excepcional conjunto de tapeçarias denominado Histoire de l’empereur de Chine, realizado pela primeira vez entre 1684 e 1690, no ateliê de Beauvais. Depois da primeira tecelagem, dado o seu grande sucesso, elas foram reproduzidas muitas outras vezes para atender a encomendas da nobreza e da elite europeia em geral. Nossa pesquisa, então, leva em consideração tanto as fontes escritas quanto a produção material que recontava em imagens, nos salões europeus, o luxo de uma civilização distante.

Dentre os diversos relatos de jesuítas sobre o império chinês, optamos por apresentar, neste artigo, os de Matteo Ricci, Álvaro Semedo e Gabriel de Magalhães, tanto por sua densidade quanto por sua circulação em diversas traduções, o que evidencia o alcance que tiveram entre os leitores de vários países. É importante, ainda, acrescentar que os três foram atores de um fecundo processo de intercâmbio cultural e circularam intensamente entre o mandarinato sendo eles próprios considerados pelos letrados chineses como verdadeiros mandarins.

Matteo Ricci, Álvaro Semedo e Gabriel de Magalhães: relatos de uma aculturação

A Companhia de Jesus iniciou suas atividades na China a partir de Macau, um entreposto comercial luso arrendado pelos chineses ao reino de Portugal. A cidade nasceu no lugar de uma antiga aldeia de pescadores e ali os portugueses pretendiam, inicialmente, estabelecer apenas uma escala bem localizada e de apoio ao florescente comércio por via marítima com diversos portos da Ásia. No entanto, já na segunda metade do século XVI, Macau tornou-se um centro de comércio importante onde estabeleceram-se mercadores que contavam também com o interesse de chineses e de outros negociantes asiáticos, bem como de funcionários da administração imperial do sul da China.

A dinastia Ming (1368-1644) não tinha uma diretriz única em relação ao estabelecimento de estrangeiros em algumas áreas do Império e, no que dizia respeito aos portugueses em Macau, o mandarinato estava dividido, alguns deles contrários à presença dos europeus em geral, mas muitos beneficiando-se do desenvolvimento dos contatos comerciais. (Alves, 1999, 115-118). Os jesuítas ali instalados constituíam-se na comunidade religiosa mais influente na cidade e tinham grande prestígio (Zhu, 2010, 32). Eram “(…) em regra geral juízes de paz de Macau e elite letrada nos contatos com as autoridades oficiais da Ásia Oriental” (Barreto, 2006, 137).

Nem todos os jesuítas de Macau desejavam deixar a região para enfrentar as dificuldades das atividades missionárias em um ambiente que apresentava muitos desafios. Vários deles estavam sedentarizados em atividades no Colégio de São Paulo, que funcionava junto à Igreja Madre de Deus. A importância do Colégio foi muito grande, tanto nas suas funções de escolarização da população local, quanto no seu currículo de nível universitário, que passou a vigorar a partir de dezembro de 1594, quando foram completadas suas novas instalações.

Reconhecido por sua qualidade, o Colégio de São Paulo recebeu como alunos do ensino acadêmico os noviços vindos da Europa, mas que ainda não haviam completado toda a sua formação, e também aqueles que ainda a estavam recém iniciando, em geral jovens macaenses de diversas origens, alguns asiáticos, inclusive japoneses, e outros convertidos ao cristianismo (Malatesta, 1994). A movimentação na península era grande com uma população composta de pessoas de várias etnias, em grande parte ligadas às atividades comerciais.

Foi, portanto, Macau que propiciou aos inacianos o aprendizado inicial sobre a China e, quando a Companhia de Jesus decidiu que enviaria seus missionários para o interior do império, a península macaense mostrou-se um ótimo ponto de partida para o estudo do idioma e também para os primeiros contatos com funcionários chineses que controlavam a movimentação de estrangeiros na região (Palazzo, 2014, 13-31).  A entrada de estrangeiros no império, no decorrer de todo o século XVI e mesmo mais adiante, não era fácil. Fazia-se necessária a autorização do imperador ou de algum alto funcionário da Corte que o representasse.

Entre os missionários pioneiros destacaram-se dois padres jesuítas italianos, Michele Ruggieri e Matteo Ricci, o primeiro tendo desembarcado em Macau em 1579 e o segundo, em 1582. Ambos teceram boas relações com diversos mandarins e, com muita habilidade, conseguiram permissão para deixar a península macaense e seguir para o interior do império, onde estabeleceram missões em mais de uma cidade. Ruggieri, no entanto, após um importante trabalho de intensos contatos com letrados chineses, retornou à Europa no ano de 1588 e não mais voltou à China, enquanto Ricci nela permaneceu em grande atividade até a sua morte, ocorrida em Beijing, em 1610.

O padre Matteo Ricci deixou uma das mais importantes obras escritas sobre o desenvolvimento das atividades missionárias no Império do Meio, mas também sobre seus contatos com o letrados, incluindo diversas passagens sobre a importância do confucionismo nas relações familiares e sociais em geral. Por ocasião de sua morte, o texto[1] de seu relato já estava praticamente concluído e foi outro jesuíta, o padre belga Nicolas Trigault, quem recolheu o manuscrito e o levou para Roma.

Foi também Trigault quem traduziu todo o texto para o latim, acrescentando-lhe diversas páginas de sua autoria no final, porém autenticando o original, em 26 de fevereiro de 1615, como sendo efetivamente de Matteo Ricci (Ricci, 2010, LVI). Ainda assim, foi o nome de Nicolas Trigault que apareceu nas muitas edições europeias, não apenas em latim, mas na tradução para o francês, em 1616, para o alemão, em 1617 e para o espanhol, em 1621 (Mungello, 1989, 48).  As traduções muito contribuíram para a divulgação da imagem da China entre a elite letrada europeia que, já no início do século XVII, apreciava também vários produtos importados da Ásia, entre eles a porcelana azul e branca, que havia alcançado um alto grau de qualidade durante a dinastia Ming.  

Ricci destacou em seu relato a relevância dos letrados chineses nas mais altas funções da administração e fez também referência aos rigorosos exames imperiais que eram realizados para selecionar os funcionários da sofisticada burocracia do império (Ricci, 2010, 32-38).  Sobre Confúcio, o inaciano deixou bem claro que se tratava de um mestre, um verdadeiro filósofo, e tão digno de atenção quanto alguns pensadores ocidentais. Seu fascínio por Confúcio e pelas regras do confucionismo ficam bastante evidentes em boa parte do seu relato. Em uma de suas passagens, escreveu que:

O maior filósofo entre eles é Confúcio que nasceu quinhentos e cinquenta e um anos antes da vinda do Senhor ao mundo e viveu mais de setenta anos de uma boa vida ensinando esta nação com palavras, obras e escritos; de todos é tido e venerado como o mais santo homem que teve o mundo. E, na verdade, naquilo que disse e na sua boa maneira de viver, de acordo com a natureza não é inferior aos nossos antigos filósofos, excedendo a muitos deles (Ricci, 2010, 28-29)[2].    

A vasta correspondência que Ricci manteve com seus companheiros que estavam na Europa foi também responsável pela difusão de uma imagem positiva do Império do Meio (Ricci, 2001). Sem dúvida seu objetivo era o de motivar os jesuítas que se encontravam em postos decisórios e importantes, e sobretudo o supervisor geral da Companhia, em Roma, a olhar com simpatia para o trabalho missionário que estava sendo realizado na China. E suas interpretações da espiritualidade chinesa eram filtradas pela ótica do cristianismo e por seu objetivo principal, o de converter os chineses.

No entanto, além da importância de manter aceso o entusiasmo de seus superiores pela atividade missionária no império, era clara a admiração que o jesuíta italiano devotava a muitos aspectos da sociedade na qual estava vivendo, entre eles a realização dos chamados concursos ou exames imperiais, que tinham como objetivo a seleção dos funcionários de uma vasta e intrincada burocracia. Em seu relato, Ricci refere-se à importância do estudo dos livros Clássicos chineses, comentando também sobre a dificuldade das provas (Ricci, 2010, 28-38). Suas observações são muito corretas, detalhando os graus obtidos pelos letrados de acordo com os distintos níveis dos concursos e coincidem com todos os documentos que atualmente fazem parte do acervo do Museu do Sistema dos Concursos Imperiais, em Jiading[3].

A qualidade das informações que Ricci transmitia sobre a China era devida, sem dúvida, ao seu contato muito próximo com o mandarinato, já que os jesuítas eram aceitos pelos chineses como homens sábios, originários do Ocidente. Embora inicialmente tanto Ruggieri quanto Ricci tenham adotado os trajes dos “bonzos”, como os jesuítas chamavam os monges budistas, inclusive raspando a cabeça, nas relações mais frequente com os altos funcionários da burocracia imperial, deram-se conta de que a classe mais respeitada era a dos mandarins e não a dos monges. Passaram, então, a adotar as sofisticadas vestes de seda que os tornavam muito semelhantes aos letrados do império, deixando crescer os cabelos e a barba.

Matteo Ricci pediu a necessária autorização ao supervisor e visitador das missões na Ásia, o padre Alessandro Valignano, para essa troca na aparência, e foi atendido. Valignano deu sua concordância por escrito, em novembro de 1594 (Ricci, 2010, 230), para que os missionários pudessem exercer suas atividades com bons resultados, pois era ele mesmo um entusiasta dos métodos de aculturação nas sociedades fora da Europa.

Tal proximidade com o mandarinato, porém, ocasionou algumas críticas, muitas vezes da parte de outras ordens. Alguns padres espanhóis que estavam nas Filipinas também mostraram-se pouco favoráveis ao intenso processo de aculturação iniciado por Michele Ruggieri e Matteo Ricci na China. Em mais de uma oportunidade, deixaram claro o seu descontentamento (Dunne, 1962, 226-244). Em defesa dos inacianos, o próprio Alessando Valignano, escreveu:

(…) quanto ao que diz frei Martín [um irmão missionário franciscano] que vestem-se [os jesuítas] em trajes chineses e que não tratam de conversão, é verdade que andam vestidos à maneira de letrados chineses e que trazem as barbas crescidas e também os cabelos até as orelhas (…) isto se fez por ordem minha e pelo parecer de muitas outras pessoas sérias e letradas da Companhia (Valignano, 1998, 88).  

Matteo Ricci deu também, em seu relato, muitas informações sobre os hábitos chineses, sobre a etiqueta, os costumes à mesa e destacou que, sempre que os padres eram convidados à casa de algum mandarim, era servido chá, considerado uma peça importante da cortesia (Ricci, 2010, 61). Os europeus, por sua vez, admirando o luxo das cortes asiáticas, iniciaram-se no consumo do chá antes mesmo que a sua produção se desenvolvesse em larga escala na colônia britânica da Índia (Forrest, 1973, 24 e 45-51).

Ricci foi, não apenas um dos responsáveis e certamente um dos pioneiros na difusão de imagens da China entre os europeus, mas também mostrou aos letrados chineses uma Europa que tinha muito a oferecer em matéria de conhecimentos científicos. Suas habilidades em cartografia, em matemática euclidiana e em mecânica, na construção de apreciados relógios, tornaram-no muito requisitado pela elite chinesa, abrindo-lhe várias portas em todas as cidades onde esteve no interior do império e, posteriormente, em Beijing. Não foram muitas as conversões realizadas diretamente por Matteo Ricci e por seus companheiros no início das atividades missionárias, mas alguns dos convertidos, sempre membros do mandarinato chinês, vieram a ser também seus colaboradores e o auxiliaram na tradução de diversos textos.

No passado, os chineses tinham alcançado grande destaque nas ciências exatas e, no século VI, Zu Shongzhi calculou o pi grego até um valor que levou séculos para ser superado (Fontana, 2011, 97). No entanto, no decorrer da dinastia Ming, houve um decréscimo em diversos conhecimentos e o império esteve, por um tempo considerável, fechado a contatos com outras sociedades, mesmo asiáticas, contatos que tinham florescido nos períodos de maior relevância da chamada Rota da Seda. Desta maneira, a chegada dos jesuítas e principalmente sua apurada formação intelectual despertou um grande interesse naqueles que podiam ser considerados seus pares na China.

O mais conhecido dos mandarins que se tornaram amigos de Matteo Ricci foi Xu Guangqi, cujo nome de batismo era Paulo e que passou a ser chamado também de Siu Paulo ou Siu Paulus. Xu ou Paulus destacou-se na intrincada burocracia chinesa, pois nos concursos imperiais foi aprovado no mais alto grau do mandarinato, mesmo depois de convertido à religião católica. Como os missionários equiparavam a etapa mais elevada dos exames chineses a um doutorado europeu, o Xu Guangxi passou, então, a ser conhecido entre eles como “doutor Siu Paulus”.

Ainda no decorrer da dinastia Ming, foram quatro os letrados de maior destaque que se converteram ao cristianismo, Xu Guangqi, Li Zhizao, Yang Tungyun e Wang Zheng. A grande motivação de todos eles era o conhecimento científico demonstrado pelos jesuítas, com destaque para a matemática e a cartografia. Os padres eram considerados representantes da “ciência do ocidente”, que exercia grande fascínio no ambiente letrado da China. (Zhang, 2009, 44)

Na Europa, a imagem de Siu Paulus circulou a partir da publicação de uma importante obra de Athanasius Kircher sobre a China, que alcançou grande sucesso nos séculos XVII e XVIII (Kircher, 1667). Conhecida por seu título abreviado de China Monumentis ou China Illustrata, foi traduzida para diversos idiomas e, já no ano de 1670, aparecia em francês, a língua internacional da maior parte da elite culta europeia. Na obra de Kircher, há uma gravura com Matteo Ricci em trajes de mandarim ao lado de Siu Paulus (Kircher, 1670, entre páginas 200 e 201).

Matteo Ricci e Xu Guangqi. ou Siu Paulus. Gravurista: provavelmente Wenceslaus Hollar. Em Kircher, 1670, entre p. 200 e 201. (Imagem de domínio público.)

Tendo desembarcado em Macau em 1610, no mesmo ano em que Matteo Ricci falecia em Beijing, o jesuíta português Álvaro Semedo também manteve um intenso contato com os letrados chineses, seguindo o processo de aculturação que já havia sido iniciado por seus antecessores. A sua permanência no império, depois que deixou a península macaense, não foi sem percalços. Semedo instalou-se em Nanjing em 1613, mas passou por várias dificuldades em virtude de um período de perseguição aos missionários naquela cidade, tendo que retornar ao enclave português no ano de 1616.  

Se Ricci havia sido alvo de raras manifestações contra a sua presença na China[4], Álvaro Semedo, por sua vez, enfrentou tempos mais difíceis, no quais havia uma exacerbada animosidade contra os missionários, motivada pelo medo em relação aos estrangeiros, em tempos conturbados para a dinastia Ming. Entre os anos de 1615 e 1616 o jesuíta português chegou a ser preso, acusado de propagar crenças nocivas aos chineses, mas em 1621 já havia sido admitido novamente no continente, onde viveu até 1658, quando faleceu em Guangzhou (Cantão).

O relato de Álvaro Semedo sobre a China teve sua primeira edição em espanhol, em 1642 e não há nenhuma evidência de outra anterior, em português. Seguiram-se traduções para o francês, em 1645, e para o inglês, em 1655 (Mungello, 1989, 75), o que evidencia o interesse que o Império do Meio despertava na Europa, em meados do século XVII. Acreditamos ser possível afirmar que tal interesse antecedia em muito o chamado “orientalismo” que viria a se desenvolver a partir do século XVIII e, ainda com maior intensidade, no decorrer do século XIX, associado ao expansionismo europeu e bastante voltado para o Oriente Médio e para os países muçulmanos do norte da África.

Semedo descreveu de maneira detalhada o idioma chinês e fez comentários bastante favoráveis à educação no império, destacando as características da escrita e a capacidade de memorização dos estudantes, algo que despertava grande interesse na Europa (Semedo, 1642, 49-54). Para os jesuítas, sem dúvida, o encontro com uma sociedade que prestigiava os mestres e valorizava o estudo apresentava uma real possibilidade de diálogo, o qual tornava-se ainda mais fecundo pelo fato de os padres terem se dedicado com muito afinco ao estudo do idioma.

Assim como Matteo Ricci, Álvaro Semedo referiu-se, no seu relato, com bastante precisão aos livros Clássicos chineses que continham os textos cujo conhecimento era exigido dos candidatos aos concursos imperiais. O fato de que os letrados eram os principais interlocutores dos padres permitia que estes obtivessem informações bastante fidedignas a respeito dos estudos na China.

A escrita chinesa era também motivo de admiração para os europeus e Semedo não deixou de registrar sua antiguidade: “as letras que usam parecem ser tão antigas quanto a própria gente, pois conforme seus monumentos históricos escritos com elas, conhecem-nas há mais de 3.700 anos (…)” (Semedo, 1642, 34). Sua descrição dos exames imperiais é extremamente detalhada, não apenas em relação aos três graus aos quais os candidatos podiam concorrer, de acordo com sua capacitação nos estudos, mas também quanto à maneira como se desenvolviam as provas e, ainda, quanto ao prestígio daqueles que chegavam ao seu mais elevado patamar  (Semedo, 1642, 61-69).

No relato de Álvaro Semedo, há uma boa descrição do interesse dos chineses pela Astronomia, destacando que o estudo dessa ciência era totalmente vinculado ao controle da Corte imperial (Semedo, 1642, 78). Realmente, a elaboração do calendário, o detalhamento de períodos de plantio e de colheitas, as previsões de eclipses e até mesmo o estabelecimento de datas auspiciosas ou nefastas eram considerados assuntos de alto interesse do império e só poderiam ser tratados por mandarins da confiança do imperador. Os europeus, portanto, estavam bem informados pelos jesuítas acerca da vontade de aperfeiçoamento dos chineses em determinadas áreas e da sua importância, o que levou muitos dos inacianos altamente capacitados a atuarem junto à Corte, principalmente como matemáticos e astrônomos.

A medicina tradicional chinesa era, na época, desconhecida na Europa, mas chamou a atenção dos jesuítas e Álvaro Semedo a descreve no seu relato, destacando a precisão da prática de tomar o pulso:

No pulso realmente são admiráveis. Tomam-no muito devagar em ambos os braços, bem descansados, sobre almofadas ou outra coisa e por ele conhecem o achaque do enfermo, sem que lhe façam nenhuma pergunta sobre o que lhe dói. Não direi que acertam todos e em tudo, porque há médicos ignorantes, mas os estudiosos e bons, sim, acertam. (Semedo, 1642, 83)

Outro jesuíta português, o padre Gabriel de Magalhães, estabeleceu-se em Hangzhou, no sul da China, em 1640, indo posteriormente para Chengdu e, em 1648, instalando-se em Beijing. Seu relato foi publicado posteriormente ao de Álvaro Semedo e também continha informações detalhadas sobre a China e sobre o denso relacionamento que ele próprio manteve com o mandarinato. O relato de Magalhães, escrito em português, também não circulou na Europa em português mas, inicialmente, na tradução francesa feita pelo abade Claude Bernou (Magaillans, 1688)[5]

No mesmo ano de 1688 foi publicada uma tradução para o inglês e, portanto, nestes dois idiomas é que o texto foi, inicialmente, lido pelos europeus. Em diversos aspectos, o relato de Magalhães é ainda mais detalhado do que os anteriores e sua descrição de Beijing mostrou-se bastante semelhante à cidade daquela época. A partir da descrição do jesuíta o tradutor para o francês, Bernou, acrescentou na obra o desenho de um mapa, o Plan de la Ville de Pekim Capitale de la Chine (Magaillans, 1688, encarte entre as páginas 274 e 275).

O idioma chinês continuava despertando grande interesse nos europeus e o padre Gabriel de Magalhães deteve-se longamente na sua análise. Ele afirmava que a sua escrita era não apenas muito antiga como também anterior aos hieróglifos do Egito. Mesmo beirando a fantasia, sua descrição das características da escrita chinesa mostra, sem dúvida, grande encantamento:

Ainda que os egípcios se gabem de ter sido os primeiros a possuir letras e hieróglifos, é certo, porém, que os chineses os tiveram antes deles. Todas as outras nações tiveram uma escrita comum, que consiste em um alfabeto de mais ou menos vinte e quatro letras que têm aproximadamente o mesmo som, ainda que sua imagem seja diferente; mas os chineses têm cinquenta e quatro mil quatrocentas e nove letras, que exprimem o que elas significam com tanta graça, de vivacidade e de força, que parece que não são caracteres, mas vozes e línguas que falam ou, melhor dizendo, figuras e imagens que exprimem e representam ao vivo o que elas significam, tanto o artifício destas letras é admirável. (Magaillans, 1688, 84).

No relato, seguem-se a este trecho diversos exemplos de caracteres chineses, enfatizando aqueles cuja representação figurativa tem relação com o seu significado o que, conforme sabemos, não é o caso da imensa maioria dos caracteres, mas sempre exerceu grande fascínio no Ocidente. Fica bastante claro, em grande parte do relato, que o jesuíta se interessou com certa profundidade pela escrita chinesa, pois suas explicações remontam às formas mais antigas de algumas palavras, que ele transcreve de maneira muito correta (Magaillans, 1688, 85-86).

O respeito dos chineses pelas pessoas mais velhas e também à memória dos seus antepassados e mais ainda por seus pais já falecidos, é um tipo de comportamento que fez com que os jesuítas os considerassem dignos de admiração. O culto aos ancestrais, uma prática confucionista que, no século XVIII criou tantos problemas e deu origem a tantas críticas da parte de outras ordens e até mesmo do Vaticano, foi entendido pelo padre Magalhães, bem como por outros jesuítas, como algo digno de ser apreciado:

Vemos setecentos e nove templos construídos pelos chineses em diversas épocas, em memória de  seus ancestrais e consideráveis pelo seu tamanho e pela beleza de sua arquitetura. Os chineses se acostumaram com o testemunho de um amor e de uma obediência extraordinária por seus pais, principalmente depois da sua morte, e é para o demonstrar que eles mandam construir com grandes custos salas soberbas, nas quais em lugar de imagens e de estátuas eles colocam cartuchos com os nomes de seus pais. Em certos dias do ano, determinados pela família à qual pertence o templo, eles reúnem-se nessas salas, onde se prosternam no chão em sinal de amor e de respeito (…). (Magaillans, 1688, 56)

A descrição de Gabriel de Magalhães é bastante fiel às cerimônias nos templos confucionistas e fica evidente no seu texto que ele não considera os rituais que homenageiam os antepassados como manifestações religiosas incompatíveis com o cristianismo. Tal debate viria a ocorrer mais adiante e de maneira muito acirrada, com o recrudescimento da chamada “querela dos ritos”, que tantos problemas causou para a Companhia de Jesus (Peretti, 2016, 9-12).

Nem toda a longa estadia chinesa do padre Magalhães foi, porém, agradável, pois ele viveu em tempos conturbados do império chinês, em plena conquista manchu, estando em Chengdu, na companhia do padre italiano Ludovico Buglio, numa época de sangrentas insurreições contra os invasores. Com a vitória dos que viriam a se autodenominar dinastia Qing, ambos os jesuítas foram presos e conduzidos a Beijing quando o rebelde Zhang Xianzong foi morto por soldados manchus. Os jesuítas escaparam de condenações mais graves por intercessão de outro padre, o alemão Johan Adam Schall von Bell, que então já havia conquistado o apoio dos novos senhores da China e era muito prestigiado em suas funções de astrônomo imperial (Patternicò, 2014, 65).

Mais adiante, enfrentando novos problemas e denúncias, Magalhães foi mais uma vez preso em virtude de acusações de alguns mandarins. Era comum que ocorressem tais problemas, pois nem todos os cientistas da corte gostavam de ter seu prestígio dividido com estrangeiros de destaque junto ao imperador. A tudo, somou-se uma longa e amarga disputa com Adam Schall, ainda que este o tivesse ajudado em seus problemas iniciais com os chineses no período da queda da dinastia Ming. Schall, porém, muito cuidadoso e bastante apreciado pelo imperador Shunzhi, para o qual trabalhava como astrônomo, evitava sempre maiores problemas que pudessem colocar em risco o conjunto das atividades dos jesuítas na China.

No entanto, apesar das muitas atribulações, grande parte das rusgas, dos desentendimentos, mesmo os mais graves, eram resolvidos dentro do império e raramente afloravam com repercussão na Europa. Era rara a interferência das autoridades da Companhia de Jesus em relação ao trabalho dos inacianos na China e a extrema distância, com a lentidão na troca de correspondência entre a Europa e o Império do Meio, faziam com que os missionários tivessem que gerir de maneira independente o conjunto de suas atividades, inclusive as inevitáveis disputas em um ambiente de muita concorrência.

De um modo geral, porém, a maioria dos mandarins chineses acolhia os jesuítas com grande interesse por seus conhecimentos científicos, portanto boa parte das imagens veiculadas pelos padres tinha um caráter positivo e elas mantiveram-se apesar de alguns raros períodos de perseguições voltadas para as atividades missionárias. Em Beijing, demonstrando seus conhecimentos principalmente em matemática e em astronomia junto à Corte, os inacianos fizeram-se úteis a mais de um imperador.

O próprio Gabriel de Magalhães foi muito apreciado também por suas habilidades em mecânica, pelos relógios e autômatos que ele mesmo fabricava e também consertava e que encantavam os chineses. Um carrilhão que, com as horas, tocava música, fez grande sucesso e ficou muito conhecido em Beijing. (Mungello, 1989, 92).

Era, sem dúvida, intensa a movimentação dos missionários e o processo de acomodação que foi iniciado por Matteo Ricci com grande apoio do Supervisor das Missões na Ásia, Alessandro Valignano, continuou, mais adiante, gerando imagens positivas da China junto aos europeus no decorrer de todo o século XVII e até grande parte do século XVIII. Podemos dizer que o interesse das elites letradas encontrava, assim, diversas fontes para alimentar sua curiosidade e encanto que se concretizou na moda das chinoiseries.

Imagens dos jesuítas nas chinoiseries europeias: as tapeçarias de Beauvais

A moda que ficou conhecida na Europa como chinoiseries, nos jardins, nas pinturas, no mobiliário e nos mais variados objetos de decoração a partir de meados do século XVII e, mais intensamente, no decorrer de todo o século XVIII (Goux, 2020), enquadra-se em um movimento mais amplo de sinofilia, que foi bastante claro em todo o período setecentista.

Com relação à presença, por um longo tempo, dos jesuítas no interior do Império do Meio, sua aceitação dependeu muito da política interna chinesa em cada época. Houve perseguições em momentos de crise e principalmente quando uma dinastia estava sob ameaça de perder o trono para outros grupos, fossem eles internos ou vindos das fronteiras do norte, como no caso da conquista manchu.

Após os períodos de instabilidade, no entanto, os jesuítas sempre voltavam a ser valorizados, mesmo sofrendo pontualmente em virtude de algumas rivalidades, principalmente devido aos seus conhecimentos científicos e aos altos cargos que ocupavam na corte.  A própria estrutura e dificuldade de aprovação nos concursos ou exames imperiais levava a que muitos mandarins fossem bastante ciosos de suas posições na burocracia. Mas foram, sem dúvida, as imagens de prestígio dos inacianos que circularam intensamente na Europa e em especial aquelas dos padres exercendo as suas importantes atividades de cientistas junto aos imperadores – o que correspondia à realidade.

Se, por um lado, os relatos escritos dos jesuítas foram muito importantes na difusão de imagens da China entre os europeus, por outro lado os objetos da cultura material também contribuíam para manter presente as referências ao exotismo. Com os crescentes interesses comerciais dos exportadores e importadores que movimentavam as rotas marítimas da Ásia, chegavam na Europa as porcelanas, sedas e lacas que eram muito apreciadas pela nobreza e pela rica burguesia, com suas casas decoradas de acordo com a moda de cada época. As porcelanas estavam entre os produtos mais transportados nos grandes navios das chamadas Companhias das Índias, no entanto a produção europeia também começava a se desenvolver, não apenas copiando peças das manufaturas chinesas, mas também com criações próprias, como era o caso das tapeçarias.

Dois padres que chegaram a exercer a função de diretores do Observatório Astronômico de Beijing, o alemão Johan Adam Schall von Bell e o flamengo Ferdinand Verbiest foram, entre o final do século XVII e o início do XVIII, representados em um conjunto de tapeçarias francesas denominado L’Histoire de l’empereur de Chine. Como era habitual na época, as tapeçarias foram manufaturadas de acordo com as encomendas do circuito da elite europeia em dos ateliês mais prestigiados do reino, o de Beauvais.

Não é possível avaliar com exatidão quantas vezes foram reproduzidas cada peça do referido conjunto, no entanto, ainda atualmente, várias delas podem ser encontradas em museus e em coleções privadas de diversos países. E há o registro de alguns clientes que as encomendaram ao ateliê de Beauvais, onde foram executadas, entre eles o então jovem duque do Maine, Louis Auguste de Bourbon, filho do rei Luís XIV com Madame de Montespan (Marty, 2014, 17).

Foi Luís XIV justamente o monarca que enviou para a China um grupo de jesuítas diretamente vinculados à Coroa francesa e, pela primeira vez, não submetidos ao Padroado português.[6] Denominada Missão Francesa, seus integrantes tinham recebido também o apoio da Academia de Ciências de Paris e chegaram em Beijing no ano de 1688, sendo muito bem recebidos pelo imperador Kang’xi e por boa parte do mandarinato.

No final do século XVII os chineses já estavam habituados à qualidade do trabalho dos inacianos e sobretudo a seus conhecimentos de cartografia, de matemática e de astronomia. Assim, a saga da Companhia de Jesus na China era largamente apreciada na França, o que sem dúvida fez com que dois dos padres, mesmo de outras nacionalidades, fossem não apenas representados em uma obra decorativa de porte, mas também de circulação nas mais altas esferas da elite francesa.

Os padres Schall e Verbiest não faziam parte da missão enviada pelo monarca francês e a antecederam, mas suas importantes funções na China eram de conhecimento dos europeus. Justamente um dos membros da referida Missão, o padre Jean de Fontaney, escreveu uma carta ao confessor de Luís XIV na qual descrevia as homenagens que Ferdinand Verbiest havia recebido da parte dos chineses em seu funeral, realizado em 1688 (Fontaney, 2001, 65). Verbiest, que viveu na China entre 1659 e 1688, havia sucedido Adam Schall na direção do importante Observatório Astronômico.

A imagem que segue mostra a peça denominada Les Astronomes, do conjunto de tapeçarias ao qual nos referimos e traz uma cena na qual estão representados, muito provavelmente, os dois jesuítas-astrônomos, Adam Schall von Bell e Ferdinand Verbiest, o imperador Shunzhi e seu filho Kang’xi. Não há registro que descreva quem são exatamente as figuras da tapeçaria, mas o padre Schall foi diretor ao Observatório durante o reinado do imperador Shunzhi, entre os anos de 1644 e 1664, portanto em um período no qual Kang’xi era ainda uma criança. Assim, o menino próximo a Verbiest, poderia ser justamente o então príncipe Kang’xi que, após suceder o pai, tornou-se um grande admirador e protetor dos jesuítas.

Tapeçaria Les Astronomes. Foto nossa no Museu Leblanc-Duvernois, em Auxerre.

Os trajes de ambos os padres são as tradicionais vestes de mandarins chineses, o que corresponde ao grau que eles atingiram na burocracia. O cisne bordado em um quadrado no peito de Adam Schall é a figura que os mandarins de grande importância costumavam usar. Provavelmente o desenho na tapeçaria foi inspirado por uma gravura retratando Schall e que se encontra na obra de Athanasius Kircher, publicada em sua tradução para o francês um pouco antes da realização das pinturas dos cartões[7] que serviram de base para os tecelões (Kircher 1668, 138). Cabe lembrar que a obra de Kircher, ele mesmo um jesuíta, foi escrita originalmente em latim, mas circulou em muitas traduções e em diversos países europeus, difundindo também o prestígio que os padres desfrutavam no Império do Meio.

Além de Louis Auguste de Bourbon, sabe-se que o conjunto das tapeçarias L’Histoire de l’empereur de Chine foi encomendado também por outras personalidades europeias, entre elas Louis Alexandre de Bourbon, conde de Toulouse, François-Louis de Wittelsbach, um eclesiástico do Sacro Império Romano Germânico e Joseph-Jean-Baptiste Fleuriau d’Armennonville, de uma família de comerciantes de Tours (Marty, 2014, 29-33), o que mostra o alcance das imagens registradas em peças de tanto prestígio.

Observar a circulação das histórias sobre os contatos dos jesuítas na China, ainda que recontadas e interpretadas livremente pelos artistas que criaram as cenas, leva-nos a constatar que os europeus letrados estavam bem informados sobre as atividades de prestígio que os inacianos exerciam junto à corte de um império milenar. E, tendo os padres efetivamente atuado como cientistas, reconhecidos como verdadeiros mandarins, era sem dúvida legítimo que naquela época os europeus vissem a China como uma sociedade culturalmente avançada, com a qual era possível e até mesmo desejável dialogar.

O derradeiro golpe neste fecundo encontro entre culturas ocorreu com a dissolução da Companhia de Jesus, em 1773 ainda que, antes disto, a querela dos ritos à qual já nos referimos tenha contribuído para prejudicar largamente o bom relacionamento entre ambas as partes.

Conclusão

Nosso objetivo, neste artigo, foi o de mostrar, com a análise da documentação tanto escrita quanto iconográfica, a importância dos jesuítas como responsáveis pela divulgação, entre os europeus, de imagens de uma China admirável e, em muitos aspectos, comparável à Europa. A sua civilização milenar, ainda que não cristã, era por eles considerada como digna de atenção e meritória de uma interlocução positiva.

Com seus relatos muito detalhados sobre a cultura confucionista dos mandarins e sobre o respeito demonstrado pelos chineses às ciências, os padres estimulavam, na Europa, o que viria a ser conhecido como um período de sinofilia entre as elites letradas. Da mesma maneira, as descrições dos exames ou concursos imperiais também permitiram que os europeus tomassem conhecimento da estrutura da burocracia chinesa, na qual a qualificação baseava-se no estudo árduo e competitivo.

A própria aceitação dos missionários como cientistas, atuando no coração da corte em funções de grande prestígio, descortinava um tipo de intercâmbio ao qual os letrados europeus não estavam acostumados, ao menos não em tal escala e com tal projeção fora do seu próprio continente. O império chinês, até meados do século XVIII era solidamente centralizado e muito cioso de sua importância, o que também fazia com que a relação com os missionários pudesse ocorrer entre semelhantes, apesar das divergências e até mesmo disputas algumas vezes acirradas.

O fato de ser estimulado, na Companhia de Jesus, o aprendizado do idioma das sociedades nas quais os padres exerciam suas atividades missionárias, sem dúvida facilitou a estreita convivência dos mesmos com o mandarinato, permitindo que ocorresse um fecundo intercâmbio cultural. Com todas as dificuldades que alguns dos inacianos enfrentaram e apesar dos momentos críticos que ocorreram, com diversas turbulências na política interna chinesa, especialmente durante a invasão e posterior conquista manchu, a maioria deles manteve um olhar de grande abertura e até mesmo de admiração de uma cultura com a qual estabeleceram um verdadeiro diálogo.

Os manchus, por sua vez, ao adotar grande parte dos hábitos e o idioma dos chineses, e ao manter a valorização dos concursos imperiais, quando subiram ao trono como a poderosa dinastia Qing (1644–1911) tiveram nos inacianos colaboradores excepcionais. Com o apoio dos padres desenvolveram seus conhecimentos de matemática, de mecânica e de astronomia até o final do século XVIII, quando então ocorreu o rompimento na mesma época da extinção da Companhia de Jesus.

O comércio de luxo que levava aos europeus a porcelana e tantos outros produtos muito apreciados constituía-se, por sua vez, no suporte material igualmente relevante como cenário no qual se desenvolviam ideias sobre a China, que chegaram até os pensadores Iluministas. É possível, então, dizer que mais do que um interesse superficial pelo exótico, o conhecimento sobre as atividades dos jesuítas no Império do Meio estava integrado na ampliação da visão de mundo do Ocidente entre os séculos XVI e XVIII, visão esta que se realizava, nos exemplos que analisamos, a partir da aculturação dos inacianos em uma sociedade muito distinta daquela de suas origens mas nem por isto de menor densidade cultural.

Se a catequese era um aspecto importante nas atividades dos jesuítas, ao entender que ela poderia se dar através da valorização da ciência desenvolvida na Europa – ciência da qual eles, com razão, consideravam-se representantes – abria-se o caminho para um intercâmbio que frutificava. Neste contexto, a divulgação de imagens da China entre os europeus inseria-se como parte da própria interação entre ambas as culturas.

Ainda hoje, na atual República Popular da China, um país moderno e que se desenvolve a passos acelerados, permanece a lembrança da história dos jesuítas no Império do Meio. As cópias do mapa de Matteo Ricci ainda despertam a atenção dos visitantes de mais de um museu do país. Os visitantes do Museu do Antigo Observatório Astronômico, localizado em Beijing, deparam-se com uma homenagem a Johan Adam Schall von Bell e a Ferdinand Verbiest, com painéis legendados em mandarim e inglês, contando um pouco sobre a atuação dos dois padres-astrônomos na Corte dos Qing. E o Cemitério Jesuíta de Zhalan, também na capital, no qual dezenas de túmulos de inacianos que viveram e morreram nas terras do império estão bem cuidados pelas autoridades chinesas, permanece como testemunho de um longo período no qual os encontros entre o Ocidente e o Oriente foram mais amplos, mais densos e mais fecundos do que os desencontros.

Túmulo de Matteo Ricci. Cemitério Jesuíta de Beijing, Zhalan. Foto nossa.

Referências

Fontes escritas:

FONTANEY, J. Carta de 15 de fevereiro de 1703, enviada a R. P. De La Chaise. Em Vissière & Vissière, I. e J.-L. (ed.). Lettres Édifiantes e Curieuses des Jésuites de Chine (1702-1776). Paris: Desjonquères, 2001: 59-75.

MAGAILLANS, Gabriel de. Nouvelle Relation de la Chine contenant la description des particularitez les plus considérables de ce grand empire. Paris: Claude Barbin, 1688.

RICCI, Matteo. Della entrata della Compagnia di Giesù e Christianità nella Cina. Macerata: Quodlibet, 2010. (Editado por Piero Corradini a partir do manuscrito do Arquivo Romano da Companhia de Jesus, em: Jap.-Sin., 106a.).

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Fontes iconográficas:

Tapeçaria Les Astronomes. Museu Leblanc-Duvernois, em Auxerre, França. Foto do   nosso arquivo pessoal.

Imagem de Matteo Ricci e Siu Paulus/Xi Guangqi. Em KIRCHER, Athanasius. La Chine illustrée de plusiers monuments tant Sacrés que Profanes, et de quantité de Recherches de la Nature & de l’Art. Amsterdam: Jan Jansson & les heritiers de Elizée Weyerstraet, 1670: gravura entre as páginas 200 e 201.

Túmulo de Matteo Ricci. cemitério Jesuíta de Zhalan, Beijing. Foto do nosso arquivo pessoal.

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NOTAS:

[1] As duas edições mais acuradas da obra de Ricci são: 1) a comentada por P. Pasquale d’Elia, S.J., sob o título de Storia dell’introduzione del Cristianesimo in Cina ; 2) a editada por Piero Corradine a partir do manuscrito original do Arquivo Romano da Companhia de Jesus e comentada por Maddalena del Gatto, que mantém o título original dado por Ricci, Della entrata della Compagnia di Giesù e Christianità nella Cina. Esta última foi a fonte que escolhemos para o presente artigo já que, em sua fidelidade ao manuscrito, mantém a rica linguagem do autor (repleta de influências do português, do espanhol e mesmo do mandarim), sem alterações por parte do editor (Ricci, 2010).

[2] No presente artigo, todas as traduções para o português de fontes e bibliografia em outros idiomas, são nossas.

[3] O referido museu está instalado no interior de um antigo templo dedicado a Confúcio, na rua Nandajie nº 183, em Jiading, atualmente um distrito de Xangai.

[4] Os episódios que mais preocuparam os missionários que acompanhavam Matteo Ricci foram provavelmente ocasionados por ciúmes de alguns funcionários chineses em virtude da importância que os jesuítas tinham alcançado junto a muitos letrados. Na primeira estadia de Ricci em Nanjing ele foi expulso da cidade, no entanto mais adiante retornou, recebendo total proteção e até mesmo o apreço das autoridades locais (Ricci, 2010, 240-245,e 282-291).

[5] O sobrenome de Gabriel de Magalhães foi grafado como Magaillans, pelo tradutor francês, que se referiu ao fato de que os franceses não saberiam pronunciar o sobrenome português do jesuíta. A edição em inglês o seguiu. (“Préface” in Magaillans, 1688, s/p).

[6] Depois da referida Missão totalmente patrocinada pelo monarca francês, houve outros casos de jesuítas que atuaram sem a subordinação a Portugal, o que gerou forte reação portuguesa. Mais adiante, D. João V (que reinou de 1706 até 1750) tentou solucionar a questão e aproveitou a ida de Alexandre Metelo de Sousa e Meneses em uma embaixada à China para tratar de problemas relativos a Macau, instruindo-o a pedir ao imperador Yongzheng para que este não mais aceitasse missionários que não estivessem vinculados ao Padroado. Seu pedido, porem, não foi considerado, e os próprios jesuítas que se encontravam no império chinês manifestaram-se a favor da liberdade de ação (Russo e Jin, 2005, 101-102). Agradeço ao professor Dr. Jorge Leão pela generosidade do envio da obra aqui referenciada, sobre a embaixada de Alexandre Metelo à China.

[7] As tapeçarias eram realizadas a partir dos chamados cartões pintados por artistas da época e as pinturas eram depois reproduzidas em ateliês de prestígio com fios, em geral de seda, e muitas vezes também de ouro e prata, dependendo do luxo requerido pelos que encomendavam as obras. No caso do conjunto sobre o imperador da China, os cartões foram realizados pelos pintores Guy-Louis Vernansal (1648 – 1729), Jean-Baptiste Monnoyer (1636 – 1699), et Jean-Baptiste Belin de Fontenay (1653 -1715). (Marty, 2014, 1)