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Wuxi: uma cidade com muita História.

Nos guias turísticos que sempre consultei para organizar nossas viagens através da China, durante os quase oito meses em que o Paulo Roberto e eu moramos naquele país, além dos livros descritivos das cidades chinesas e páginas da internet, sempre achei poucas referências a Wuxi, a ponto de ter pensado bastante antes de incluir a cidade em nossa programação. No entanto, ela me interessava tanto por sua história quanto por sua proximidade a Yixing, local onde há séculos eram produzidas peças renomadas de cerâmica e assim achei que deveria arriscar incluí-la nos roteiros que eu preparava para nossas saídas de feriados e finais de semana. Não me arrependi.

Próxima a Xangai, fizemos o percurso rapidamente em um trem muito moderno e confortável. Suas raízes são muito antigas e encontram-se bem documentadas em um esplêndido museu cujo belo prédio de moderna arquitetura abriga seis mil anos de civilização, com objetos e descrições remontando até os períodos paleo e neolítico da região. Iniciar, portanto, nossa programação com uma visita ao museu foi uma boa ideia pois a partir dele ficamos mais conscientes de uma história milenar que os chineses sabem estar impregnada naquela região, que é também a do lago Tai e do rio Yangze.

Na imagem abaixo, uma das galerias do museu reproduzindo as atividades comerciais nas margens do Grande Canal (foto minha).

As diversas galerias do Museu de Wuxi possuem painéis explicativos bilíngues, em inglês e em mandarim, ainda que o Paulo e eu fossemos visivelmente os únicos visitantes ocidentais. Motivamos, como sempre acontecia no interior da China, a admiração de muitas pessoas, que nos pediam para tirar fotos ao nosso lado e faziam comentários simpáticos e sempre com enormes sorrisos. Os funcionários do museu foram extremamente solícitos, indicando-nos as salas mais interessantes e fazendo de tudo para que não deixássemos de ver nenhuma vitrine importante.

Acho que, de todos os lugares que visitamos, as pessoas em Wuxi foram as mais alegres e desejosas de interagir conosco, ainda que isto acontecesse em quase toda a China. Guardo, porém, um carinho especial principalmente pelos jovens que cruzaram nossos caminhos por lá e para os quais às vezes pedíamos alguma informação. Lembro de uma garota para a qual agradeci uma referência de rua com o incontornável Xiè xiè e fui retribuída com um gesto das duas mãos dela fazendo um coração e depois um aceno amistoso. São destas coisas que a gente não esquece, ainda mais em viagem e mesmo morando em um país distante do nosso.

A exposição permanente do museu se inicia com as culturas pré-históricas e mostra a importância do lago Tai e do rio, com a abundância de água favorecendo a pesca, que sempre foi uma atividade milenar e muito importante na região. O desenvolvimento da economia em toda a área foi também significativo no período imperial e a construção do Grande Canal permitiu o escoamento de uma farta produção de grãos que já era significativa nos tempos da dinastia Yuan (1271-1368) e com grande destaque para o arroz durante todo o período Ming (1368-1644).

O Grande Canal foi uma obra essencial para e economia da China imperial e sua construção teve início na dinastia Sui (581-618), mas foi depois ampliado em diversas etapas. Em toda a sua extensão liga um grande número de rios, de outros canais e lagos visando facilitar a circulação fluvial de mercadorias.  Toda esta história está muito bem contada em diversas salas com objetos, imagens e grandes painéis explicativos que mostram as diversas etapas do desenvolvimento de Wuxi e do seu entorno.

Passear à pé pelo centro de Wuxi é também um ótimo programa e as ramificações do Grande Canal que  cortam a cidade proporcionam belos reflexos nas águas, com pontes e diversas embarcações que circulam por ali com frequência. Há também muito verde por todos os lados e algumas casas têm lanternas vermelhas nas janelas, que são usadas com frequência em toda a China e não apenas em lugares turísticos. O que muitas vezes achamos que se trata de decoração apenas para atrair os visitantes é realmente parte do dia-a-dia chinês.

China: uma breve síntese histórica.

Carmen Lícia Palazzo

Resumo da História da China para o entendimento de comportamentos na longa duração. Escrevi este texto para dar início a diversos debates em uma palestra sobre a China.

Para analisar a China contemporânea é importante observar o que nós, historiadores, denominamos de mentalidades na longa duração. A modernidade na China não deve ser vista como uma ruptura porque ela traz consigo uma tradição de muitos milênios que é preciso ter em conta para o entendimento da sociedade chinesa e de como os chineses se veem.

A primeira consideração importante é a de que a China é a única civilização cuja escrita atual tem suas raízes em caracteres que datam de pelo menos 3.500 anos. O início para o qual existe testemunho material da escrita chinesa é aproximadamente o do ano 1.500 a.C. Os caracteres que receberam esta datação foram escritos em ossos de animais, em carapaças de tartarugas e no interior de objetos de bronze usados em diversos rituais e descobertos em escavações arqueológicas relativamente recentes, várias delas datando do século XIX.

Diferente dos hieróglifos do Egito, os caracteres chineses atravessaram milênios, transformaram-se, mas vários deles mantiveram sua estrutura ou alguma referência com os de um distante passado. Os testemunhos das origens milenares da escrita estão atualmente presentes em diversos museus e são motivo de orgulho também para as novas gerações. As crianças chinesas sabem que estão aprendendo uma caligrafia que tem origem nos seus mais remotos ancestrais e, apesar de toda a modernidade presente nas escolas,  escrever é uma arte que continua tendo considerável prestígio no país.

Outro motivo de orgulho para os chineses diz respeito ao fato de que, embora o longevo império tenha enfrentado muitas invasões e, em duas oportunidades, tenha sido governado por etnias estrangeiras – os mongóis da dinastia Yuan e os manchus, da dinastia Qing – sempre prevaleceu a cultura e a escrita chinesas bem como a estrutura da administração largamente influenciada pelo Confucionismo.

Dada a grande extensão territorial do império, a formação da burocracia, para o funcionamento do núcleo central da Corte e até as mais remotas províncias era uma preocupação constante. Desde muito cedo foram organizados concursos que selecionavam os candidatos mais capacitados para exercer diversas atividades como funcionários imperiais. Os primeiros concursos dos quais se têm registro datam do ano de 650. No entanto, sua implementação de maneira regular passou a ser realizada pela dinastia Song (960-1279), mais precisamente a partir do século X, mantendo-se de forma ininterrupta até sua extinção em 1905, no período final do império Qing, tendo durado portanto por quase dez séculos.

Com pequenas variações pontuais, o conteúdo dos concursos imperiais exigia o conhecimento aprofundado e a capacidade de interpretação de dois conjuntos de obras essenciais da cultura chinesa: os Quatro Livros e os Cinco Clássicos. Resumidamente pode-se dizer que os textos considerados como os mais importantes destas obras eram os Diálogos de Confúcio com seus estudantes (os Analectos), os escritos de Mêncio, um discípulo de Confúcio mas que desenvolvera algumas ideias próprias, os Anais com descrições históricas e o I Ching, ou Livro da Sabedoria.

Considerando-se que os concursos só foram abolidos no início do século XX, pode-se constatar a importância do Confucionismo e da cultura clássica e sua permanência no universo mental da sociedade chinesa na longa duração. E como a aprovação nos diversos níveis dos concursos imperiais eram um significativo instrumento de ascensão social,  o estudo, os ensinamentos de Confúcio e os professores eram também muito valorizados, valorização esta que se tornou uma das características mais fortes da cultura da China.

Outro aspecto importante da civilização chinesa é a defesa da sua integridade territorial. Em épocas nas quais a Europa estava fragmentada em feudos a China já era uma monarquia absolutista preocupada com a defesa de suas fronteiras e com a manutenção de uma corte centralizada e imperial. Em alguns períodos houve reinos que combateram entre si, dentro do território de cultura chinesa, no entanto sempre emergiu dos períodos de lutas uma dinastia aglutinadora e forte.

A construção da Grande Muralha, que foi realizada no decorrer de séculos, é emblemática da preocupação com a defesa territorial e, embora ela não tenha sido efetiva para deter todas as invasões, era afirmativa de um poder imperial que reinava sobre uma civilização unificada por diversas características culturais e entre elas por uma mesma escrita, ainda que existissem e ainda existam inúmeros dialetos.

Nem sempre a dinastia governante era de origem chinesa, portanto “han”. A mais conhecida dinastia estrangeira que conquistou a China, ainda que adotando largamente a cultura chinesa, foi a dos mongóis. Kublai Khan, neto de Gengis Khan, chefe mongol que unificara diversas tribos do norte, fundou a dinastia Yuan, após conquistar a China. É a corte de Kublai Khan que  está relatada no famoso livro de Marco Polo.

Crises no abastecimento agrícola e um grande descontentamento entre o mandarinato chinês, que era preterido em altos cargos pelos mongóis e até mesmo por outras nacionalidades, foram responsáveis, entre outros fatores, pela queda dos Yuan após quase um século no poder.  A ascensão de uma dinastia novamente de etnia chinesa que se autodenominou Ming, ocorreu em 1368 e foi um dos mais brilhantes períodos da arte da porcelana e da pintura na China.

Mas, em 1644, as constantes invasões de novas tribos do norte, que sempre cobiçavam o rico Império do Meio, levaram à desestabilização dos Ming, enfraquecidos, por sua vez, por novas crises econômicas e altos impostos. Os invasores manchus destronaram o imperador Ming em 1644 e assumiram o que viria a ser a derradeira dinastia, a dos Qing, antes da República. Foi um período de muitas realizações principalmente no reino de dois brilhantes imperadores, Kangxi e Qianlong.

Em seus relacionamentos com o exterior, a China teve fases muito distintas e isto influenciou bastante o seu desenvolvimento. Na Antiguidade e no início do que no Ocidente nós chamamos de Idade Média, o comércio de produtos chineses foi de longo alcance através de uma intensa movimentação de mercadores que, posteriormente, ficou conhecida como Rota da Seda. Através de estradas, caminhos e até mesmo oásis nos desertos, principalmente o de Taklamakan e o de Gobi, circularam caravanas nas quais estavam presentes também alguns peregrinos e aventureiros, mas formadas sobretudo por comerciantes que levavam até os portos do Mediterrâneo oriental e ocidental as manufaturas chinesas muito prezadas nas cortes europeias, entre elas as sedas e as lacas. Às mercadorias chinesas, somava-se também ao longo da Rota todo um comércio oriundo de outras partes da Ásia, como tapetes, perfumes e temperos.

Na movimentação da Rota da Seda, chegaram à China os primeiros muçulmanos. Recentemente têm ocupado o noticiário internacional os problemas que ocorrem entre o governo chinês e os muçulmanos uigures do Xinjiang. Não se trata, porém, do único grupo de praticantes do Islã na China, já que os denominados Hui têm como ancestrais os mercadores persas e árabes que, desde provavelmente o século VIII não apenas circularam em território chinês nos caminhos da Rota da Seda, mas muitos ali se estabeleceram, casaram-se com mulheres chinesas e, com o passar dos séculos, adquiriram feições, hábitos e o idioma chinês.

Os Hui são considerados um grupo à parte dos chamados chineses Han pelo fato de serem muçulmanos, no entanto em suas feições e na maior parte de seus hábitos (excetuando-se o consumo de porco) pouco diferem dos chineses e são, algumas vezes,  denominados “chineses Hui”. Este grupo raramente se envolve nas questões que tornam tão complicada a convivência dos muçulmanos uigures com os chineses.

Os muçulmanos uigures, porém, são de etnia túrquica ou turcomena. Eles não tem feições chinesas, seu idioma é de origem turcomena. Os uigures não têm nenhuma relação étnico-linguística com os muçulmanos Hui e vivem na chamada Região Autônoma do Xinjiang Uigur, que já foi chamado não oficialmente de Turquestão Chinês. Trata-se de uma região que beira muitos conflitos, pois faz fronteira com a Mongólia, o Cazaquistão, o Quirguistão, o Tajiquistão, o Afeganistão e a Cachemira, disputada entre a Índia e o Paquistão. E, em uma pequena parte, a região faz fronteira também com a Rússia.

A Região Autônoma do Xinjiang Uigur abriga todo um leque de etnias: uigures, chineses, casaques, tajiques, russos e outros. No passado, esteve ligada a uma Confederação de Povos Nômades, porém durante muito tempo foi parte do império chinês até que, no século XIX, no rastro das reivindicações nacionalistas que eclodiam pelo mundo, viu surgir, no seu interior, as primeiras manifestações separatistas. Mais adiante, já no século XX, ocorreram atentados terroristas graves, matando chineses. Por outro lado, em 1980, os chineses apoiaram a luta dos talibãs contra os russos, permitindo, inclusive, que muçulmanos uigures fossem participar da guerra. Mais adiante, os talibãs retribuíram o apoio mas, na Região Autônoma do Xinjiang, apoiando os uigures em suas ações terroristas contra o governo chinês.

Trata-se, portanto, de uma complicada questão de ordem política, mais do que religiosa, mas que ocasiona graves problemas regionais. Governos do Oriente Médio, mesmo muçulmanos, também não interferem na repressão chinesa aos uigures, pois não consideram que se trate de perseguição de caráter religioso, mas de uma questão política interna da China. O desinteresse dos sauditas pelos muçulmanos uigures levou a críticas bastante contundentes, no entanto não alterou em nada as relações da Arábia Saudita com a China.

Durante grande parte do período imperial, os chineses sempre acolheram a diversidade religiosa, ainda que às vezes privilegiando mais os budistas ou mais os taoístas, mas tendo sempre Confúcio como o seu fundamento, já que era o confucionismo a  literatura clássica vinculada ao funcionamento da burocracia. No entanto, desde os tempos da Rota da Seda, foi frequente a presença não apenas de muçulmanos mas também de cristãos, principalmente nestorianos e de judeus, na China, com maior frequência nos grandes centros comerciais, como Suzhou, Hangzhou, Kaifeng, Xi’an, entre outros.

Continuando a falar sobre as relações da China com o exterior, a presença dos jesuítas no Império é um capítulo muito interessante de encontros culturais importantes entre os europeus e o Oriente. Os missionários jesuítas, muito estimulados pela história de Francisco Xavier no Japão, dedicaram-se também às atividades de catequese no Império do Meio, porém ali tiveram uma experiência bastante distinta da japonesa, desenvolvendo um rico relacionamento com os letrados da Corte e algumas vezes diretamente com os próprios imperadores, entre os séculos XVI e XVIII.

A entrada de ocidentais no interior da China era difícil, pois dependia de autorização do imperador. Entre os primeiros missionários jesuítas, destacaram-se os italianos Michele Ruggieri e Matteo Ricci. Ambos teceram excelentes relações com altos funcionários da Corte e, com habilidade, conseguiram permissão para deixar Macau, que era o enclave comercial português e porta de entrada no império para penetrar no interior do continente, onde estabeleceram missões em mais de uma cidade.

No entanto, o mais importante foram os relacionamentos que Riccci desenvolveu com o mandarinato, aprendendo o idioma, ensinando muito do que tinha aprendido no Colégio Romano (atual universidade Gregoriana) para os chineses e, afinal, sendo reconhecido como um legítimo mandarim. Mais adiante, já no período da dinastia Qing, outros jesuítas cientistas chegaram a ocupar altos postos na Corte, dois deles, Ferdinand Verbiest e Adam Schall von Bell,  como diretores do Observatório Astronômico Imperial. Os jesuítas encantaram-se com o confucionismo, com a estrutura dos exames imperiais e escreveram relatos nos quais reconheciam a China como uma civilização com a qual era gratificante dialogar.

A China, que havia estado na vanguarda de grandes avanços, como a invenção da bússola, do papel, dos juncos que navegavam com muita agilidade, no século XVIII começava a se fechar aos contatos com o exterior, restando apenas os jesuítas para fazer uma ponte entre a ciência ocidental, que já tinha progredido muito, e os letrados chineses, em geral muito conservadores e literários. Crescia entre o mandarinato a ideia de que o Império do Meio poderia ser autossuficiente e pouco dependeria do exterior. Os progressos na catequese não foram grandes e os padres jesuítas foram bastante criticados por outras ordens porque  acabaram atuando mais como cientistas do que como missionários.

Os jesuítas europeus permaneceram na China até a extinção da Ordem, em 1773, muitas vezes contando com o apadrinhamento de grandes imperadores, como Kangxi e Qianlong, e seus relatos e as cartas que enviavam para a Europa foram responsáveis pela construção de uma imagem positiva do Império chinês no Ocidente e pela difusão da chamada moda das “chinoiseries”. O século XVIII foi importante também na introdução do chá chinês na Inglaterra (antes do chá que depois passou a ser cultivado na Índia) e na larga demanda pela porcelana e pelas lacas chinesas, principais produtos importados pelos europeus.

Cemitério dos jesuítas ocidentais que morreram no Império entre os séculos XVI e XVIII. Muitos deles receberam honras dos imperadores. Eram respeitados como “homens sábios do Ocidente”. Foto minha.

No entanto, a sensação de grande poder e de invulnerabilidade que, durante muitos séculos, foi uma característica do Império do Meio, independente de qual a dinastia que estivesse reinando, e mesmo de qual a etnia, foi se esvaindo no decorrer de todo o século XIX, ainda que a corte Qing não abrisse mão de grande luxo e de uma mão de ferro para governar as províncias. As mudanças que ocorriam no rastro da Revolução Industrial envolviam principalmente os processos de modernização da Europa, dos EUA e do Japão.

Os europeus entraram em uma fase de modernização acelerada, pois justamente a Revolução Industrial havia permitido importantes avanços na construção de navios, tanto da marinha de guerra quanto da mercante. A Companhia das Índias Orientais, uma companhia charter britânica, fazia a rota comercial da Índia e da China. Por outro lado, os chineses, que no século XVIII tinham se interessado pelo conhecimento científico dos jesuítas, foram deixando de lado os avanços navais por considerar que o império dificilmente seria atacado ou entraria em alguma guerra importante. Abrir mão da modernização da frota  chinesa foi um descuido que posteriormente custou muito caro para a dinastia Qing, então reinante.

No século XIX, havia um descompasso entre a modernização acelerada da Europa, que alavancava o imperialismo, e a China, cujo império enfrentava inúmeras dificuldades além da pressão das potencias ocidentais para ceder na abertura de seus portos aos navios estrangeiros.  Os problemas internos enfrentados pela dinastia manchu eram inúmeros, entre eles uma prolongada e grave crise alimentar, resultado de problemas climáticos com grandes enchentes e diques mal conservados, impostos cada vez mais altos cobrados dos agricultores e, entre os altos funcionários da Corte, um embate persistente entre os defensores da modernização do império e os conservadores, avessos a ideias vindas de fora que contrariassem as tradições chinesas.

A partir de 1850 houve um recrudescimento da crise econômica e os grandes imperadores como Kangxi e Qianlong, que apesar de serem de dinastia manchu, eram admirados pela população em geral, estavam no passado. Com imperadores menos carismáticos e também menos capacitados na gestão do Estado, os chineses elegeram a dinastia como culpada por todos os problemas e surgiram reações populares de caráter nacionalista pedindo a derrubada dos Qing.

Uma  das guerras internas mais trágicas de toda a história da China imperial e que causou milhões de mortos (há uma estimativa de 20 milhões de vítimas diretas ou indiretas da guerra) foi a chamada Revolta Taiping, que teve início no ano de 1851 e só terminou em 1864. O líder que deu início ao levante, Hong Xiu Quan, dizia-se cristão, mas fazia, em seus discursos, um amálgama do esoterismo taoísta e algumas referências ao cristianismo, que provavelmente havia aprendido de missionários estrangeiros, e se anunciava como filho de Deus e irmão mais jovem de Jesus. Apesar do desvairio de suas afirmações, conseguiu muitos adeptos porque pregava um mundo mais justo e melhores condições de vida para os camponeses que viviam em situação muito precária.

A difícil derrota dos Taiping, após 14 anos de uma luta devastadora só ocorreu com a ajuda das potências ocidentais que, apesar de seu caráter imperialista, desejavam obter concessões da China, mas não a deposição da dinastia reinante. Um oficial americano, Frederick Ward , e um britânico, Charles Gordon, comandaram os soldados chineses na luta contra os revoltosos Taiping. O mandarinato, independente de ser do grupo conservador ou modernizante, também se posicionou contra a Revolta, que conseguiu apoio da parte mais pobre da população.

Neste clima de descontentamento e de violência ocorreram também duas guerras oriundas de agressões externas para extrair vantagens sobretudo comerciais do Império, as chamadas Guerras do Ópio, que podem também ser consideradas como dois episódios de uma mesma guerra. O vício dos chineses em ópio era antigo. Inicialmente usado pela medicina tradicional como medicamento para diversos males, seu consumo foi se tornando um hábito de sociedade, inclusive entre o mandarinato, transformando-se em um vício em larga escala, principalmente a partir do século XVIII. A produção interna atendia bem a demanda até o século XVII, mas com o aumento do consumo os comerciantes chineses passaram a importa-lo dos ingleses, que abasteciam seus navios na sua possessão indiana de Bengala, onde havia grandes plantações de papoula.

A Companhia das Índias Orientais tinha o monopólio deste comércio e, da China, levava de volta em seus navios o muito apreciado chá chinês, altamente consumido na Grã Bretanha principalmente a partir do século XVIII. As transações entre os britânicos e chineses ocorriam no único porto então aberto para tal, que era o de Cantão (Guangzhou) e assim mesmo sob diversas restrições e intermediações de funcionários imperiais.

Como os chineses tinham pouco interesse em produtos europeus e consideravam que o Império produzia quase tudo o que eles necessitavam, a Balança Comercial entre ambos os países era deficitária para os britânicos e apenas a exportação ópio indiano poderia melhorar a situação.. No entanto, alguns imperadores tentaram frear o seu consumo não medicinal, considerando que o vício, alastrado inclusive entre altos funcionários da Corte, estava prejudicando o país.

A partir de 1831 começaram a ser feitas tentativas firmes para reprimir o seu uso e, em 1839 teve início uma repressão muito dura e bem organizada em todo o Império. Um funcionário de confiança da Corte e que administrava o porto de Cantão ordenou, no mesmo ano de 1839, a apreensão de 20.000 caixas de ópio de Bengala ali desembarcadas e fez uma queima pública de todas elas. Tal apreensão e destruição de um produto desembarcado pela Companhia das Índias Orientais foi considerada uma afronta aos britânicos tendo início, então, aquela que ficou conhecida como Primeira Guerra do Ópio. A Grã-Bretanha enviou seus navios de guerra para fazer o bloqueio de diversos portos chineses.

Como a China encontrava-se em grande desvantagem tecnológica em relação aos europeus e sobretudo a sua marinha nunca tinha se modernizado, já que os mandarins mais conservadores não acreditavam em algum possível ataque por mar, em 1842 os chineses foram derrotados e tiveram que assinar o Tratado de Nanjing, que seria o primeiro do que depois foi denominados “Tratados Desiguais”. 

Pelo Tratado de Nanjing ficava estabelecido que a China pagaria uma elevada indenização aos britânicos, cederia a eles Hong Kong e abriria mais quatro portos (Ningbo, Xangai, Xiamen e Fuzhou) além de Cantão, que antes da guerra era o único que recebia navios estrangeiros. Na verdade, essa abertura dos portos era o principal objetivo das potencias ocidentais, demanda que se coadunava com as características do imperialismo do século XIX. E, abertos à Grã Bretanha, ficavam então os referidos portos abertos também às demais potências europeias e ao Japão.

Não havia, da parte dos europeus, nenhum interesse em derrubar a dinastia Qing, com a qual, em diversos aspectos, eles mantinham um relacionamento bastante amigável e lucrativo. O que existia era o desejo de abrir a China ao comércio internacional e aos investimentos estrangeiros, já que nenhum europeu esperava conquista-la ou integra-la às suas possessões, reconhecendo a especificidade chinesa, a força de um império milenar ainda que extremamente atingido por crises de vários tipos.

Entre 1856 e 1860 ocorreu a que ficou conhecida como Segunda Guerra do Ópio, com características muito semelhantes à anterior, desencadeada em resposta a um episódio de vistoria chinesa ao navio Arrow e às atividades de sua tripulação. Na mesma ocasião, houve o assassinato de um missionário francês, o que fez com que a França decidisse entrar também na guerra, apoiando os britânicos. Nova derrota para a China, novo tratado desigual, desta vez o de Tientsin, com mais portos sendo abertos aos navios mercantes europeus e japoneses.

Entre as vantagens conseguidas pelos europeus no rastro das derrotas chinesas, estava, desde o final da primeira Guerra do Ópio, o estabelecimento de “concessões”, além da abertura dos portos. Nelas, os estrangeiros poderiam residir sem que ficassem sujeitos às leis chinesas, mantendo seus hábitos, suas escolas e toda uma estrutura administrativa como se fosse território internacional.  Entre os exemplos que ficaram mais conhecidos e que foram mais bem sucedidos estavam a concessão britânica de Xangai, que se manteve de 1845 até 1943, e a francesa na mesma cidade, entre 1849 e 1943.

Ainda que as concessões tenham sido uma exigência dos vencedores da guerra,  muitos chineses consideraram-se beneficiários delas pois, em diversos casos, e em especial na de Xangai, ocorreu a criação de  novos empregos e, durante a Revolta Taiping, serviu de refúgio para muitos mandarins e outros chineses que temiam a barbárie dos revoltosos. O grande desenvolvimento cosmopolita de Xangai é atribuído, mesmo pelos chineses, à presença de ocidentais em diversas atividades na cidade.

O século XIX, todo ele, vai ser de muitos conflitos também internos e em geral envolvendo sempre dois grupos opostos da elite letrada, que se constituía no corpo de funcionários mais qualificado de toda a administração imperial. Tais grupos eram o dos conservadores e o dos adeptos de uma rápida modernização tanto da Economia quanto do sistema escolar, muito engessado em função do programa dos concursos imperiais, todo ele focado nos Clássicos chineses. Deste embate entre tradição estrita e modernização vai surgir uma nova revolta, que ficará conhecida como a Guerra dos Boxers ou dos Punhos Justiceiros.

Para entender a Guerra dos Boxers é importante conhecer o contexto no qual ela ocorreu. A província de Shandong, onde se iniciaram os confrontos, era um importante centro do Taoísmo, abrigando também muitos centros budistas e a cidade natal de Confúcio, Qufu. Era – e ainda é – uma  região de muitas memórias da civilização chinesa e na qual seus habitantes, principalmente aqueles ligados a atividades camponesas, tinham   algumas práticas esotéricas de raízes ancestrais. Nessa mesma região, como resultado dos Tratados Desiguais, o Império havia arrendado aos alemães a baía onde ficava a cidade de Qingdao, na qual também se instalaram alguns outros europeus, principalmente britânicos. Eram indivíduos ligados ao comércio ou missionários, que fundaram escolas na região.

Os missionários eram bem vistos por parte da população, pois ensinavam novas técnicas em suas escolas e eram contrários à deformação dos pés das meninas, estendo as possibilidades de estudo também a elas.  Para os conservadores, no entanto, este ambiente de modernidade era considerado ofensivo às práticas ancestrais chinesas, especialmente arraigadas na província de Shandong.

Neste quadro, ao qual somava-se a crescente crise econômica e o empobrecimento dos camponeses, uma sociedade esotérica de cunho altamente nacionalista e messiânico que se denominava Punhos Justiceiros (conhecidos no Ocidente como Boxers) insuflou a população com discursos contra os estrangeiros, acusados de  perturbar os ancestrais com seus investimentos modernos, como a construção de estradas de ferro e do telégrafo. Aos missionários, acusavam de bruxaria e de assassinato de crianças para extrair seus órgãos para rituais religiosos. O nome Punhos Justiceiros devia-se a um tipo de luta que o grupo praticava e que era considerada “mágica”, impedindo que, em uma guerra, as balas dos opositores os atingissem.

A Corte manchu ficou em dúvida se os apoiava apenas para não arriscar novos levantes da população contra ela ou se ficava neutra em relação à revolta. Afinal, venceram os mandarins próximos ao imperador que o aconselharam a dar apoio aos Boxers, o que desencadeou nova guerra contra os europeus e os japoneses, já que as Legações em Beijing foram atacadas, violando-se assim o território dos diplomatas estrangeiros. A reação foi rápida, os europeus, os norte-americanos e os japoneses enviaram tropas, atacaram os Boxers e os derrotaram, numa guerra relativamente curta que durou entre 1899 e 1900.

O imperador Guangxu e sua tia Cixi, conhecida como a Imperatriz Viúva e que era a verdadeira eminência parda do Império, tinham se refugiado em Xi’an durante o conflito, procurando não se envolver diretamente nele, mantendo uma atitude bastante dúbia já que principalmente ela tinha um relacionamento amigável com os diplomatas estrangeiros em Beijing. Os estrangeiros, por sua vez, embora sendo alvo dos ataques nacionalistas dos Boxers, também não pretendiam derrubar a dinastia Qing e então, com os Boxers derrotados em 1901, foi assinado um Protocolo através do qual eram extraídas, do governo chinês, altas indenizações.

A China, a cada derrota, a cada guerra perdida, como havia sido  o caso nas duas Guerras do Ópio e na dos Boxers, via suas finanças severamente comprometidas com as indenizações, passava pela situação humilhante de se mostrar tecnologicamente fragilizada, com precárias condições de combate, tendo ainda que enfrentar o imperialismo japonês, que lhe havia subtraído a Coréia como Estado Tributário (no conflito de 1894-95). A tudo, somava-se o avanço dos russos, que cobiçavam parte do território chinês ao norte.

Nesse contexto terrivelmente conturbado da segunda metade do século XIX e até o início do século XX destacou-se, às vezes nos bastidores, mas também muitas vezes na linha de frente, a Imperatriz Viúva Cixi. Concubina do imperador Xianfeng, com a sua morte ainda muito jovem, em 1861, ela chegou ao poder por ser a mãe do único filho homem do imperador, alçado ao trono ainda criança. Cixi, junto com a esposa oficial de Xianfeng, Cian, assumiu a regência que depois passou a exercer sozinha tanto por suas manobras bem sucedidadas quanto por um certo desinteresse de Cian. Desde que tomou as primeiras decisões políticas, Cixi nunca mais deixou o controle político do império. Com a morte do seu próprio filho colocou um sobrinho no trono, também criança e voltou a ser regente.

Há claras evidências de que foi com muita dificuldade que Cixi manteve o equilíbrio entre a valorização da milenar cultura chinesa que ela, mesmo sendo manchu, admirava, e a inevitável modernização, que entrava no império através dos europeus, dos norte-americanos e dos japoneses. Foi também Cixi que, antes de morrer, indicou aquele que seria o último imperador, Puyi.

De toda a movimentada história da China no século XIX, podem ser destacadas algumas considerações importantes:

1) a humilhação da derrota em diversos conflitos, com as potências impondo a abertura dos portos e sobretudo as pesadas indenizações, foi provavelmente o aspecto mais visível da decadência imperial;

2) a manutenção da integridade territorial, apesar de todos os conflitos, o que permitiu que a China, mais adiante, pudesse se recuperar e recuperar seu orgulho. Sempre houve o entendimento, da parte do Ocidente, de que o Império do Meio não seria conquistado e nem mesmo se constituiria em algum tipo de protetorado, ainda que tenha ocorrido um considerável avanço de caráter imperialista em mais de uma oportunidade.

A integridade civilizacional da China nunca esteve sob ameaça e, pelo contrário, os estrangeiros sempre demonstraram certo fascínio pelo que lá encontravam em matéria de arte e de filosofia. Por outro lado, os embates internos entre mandarins conservadores e modernizantes foram uma parte importante dos problemas enfrentados pelos imperadores e pela imperatriz Cixi. Os letrados confucionistas custaram muito a entender que o programa dos exames imperiais, calcado em estudos puramente literários, não preparava os candidatos e futuros funcionários para a realidade do mundo nos séculos XIX e XX, mas em 1905, antes mesmo da vitória dos republicanos, os exames foram extintos.

Sem uma personalidade forte para comandar o Império com a morte de Cixi, em 1908, e sem que o alto mandarinato tivesse conseguido se articular em torno de um projeto de monarquia constitucional que já tinha começado a ser esboçado, mas que nunca, efetivamente, foi levado adiante, os defensores da República conseguiram ganhar muitos adeptos.

A vitória da Revolução Republicana, sob a liderança de Sun Yat-Sen foi reconhecida sem maiores traumas já em 1911 e, em fevereiro de 1912, Puyi, o último imperador, ainda uma criança de seis anos de idade, abdicou do trono. Os republicanos venceram fazendo apelo ao fato de que o império era governado por uma dinastia estrangeira, de origem manchu, mostrando a corrupção que era endêmica na estrutura do mandarinato, mas também pelos altos impostos cobrados principalmente dos camponeses. O discurso nacionalista apontando igualmente para a influência das grandes potencias estrangeiras fortaleceu a criação do Guomintang, partido centralizador, pouco democrático, mas extremamente nacionalista, que apelava para a restauração do orgulho chinês.

Tanto Sun Yat-Sen quanto Chiang Kai-Shek eram populistas e nacionalistas e casados com duas irmãs de uma família da elite na China, a família Soon, cujo apoio foi importante na escolha de quadros republicanos. Até a emergência de Mao e a implementação do socialismo na China, as grandes famílias tradicionais estiveram no controle da República. Já a ideia de hierarquia, de centralização das decisões políticas permaneceu na passagem do Império para a República, da mesma maneira que permanecerá também durante e depois de Mao.

Concluindo esta breve apresentação sobre a história da China, eu gostaria de destacar alguns pontos que considero importantes para entender o presente. O primeiro deles é justamente o de que a força da hierarquia, que tinha raízes milenares com as lições de Confúcio, se mantém como regra até os dias atuais.

Houve um hiato de banimento da literatura Clássica e do Confucionismo em particular e este hiato foi durante o curto espaço de tempo da Revolução Cultural (1966-1976). Pois bem, não por acaso, os mentores da Revolução Cultural recrutaram para a temível Guarda Vermelha, jovens de 12 a 18 anos de idade, mas a maior parte deles entre 12 e 16 anos, a idade da rebeldia. A ideia era erradicar por completo as ideias confucionistas e mesmo a influência dos pais, convencendo os jovens de que os novos tempos pediam novas lideranças que não fossem intelectualizadas. Foram fechadas escolas e universidades e os livros Clássicos jogados no lixo. Adolescentes entre 12 e 16 anos encarregaram-se desse tipo de faxina para erradicar a cultura Clássica. No entanto, em uma cultura como a chinesa, tal disparate não poderia durar muito e a Revolução Cultural foi um hiato na longa duração da história da China.

A valorização do estudo e dos mestres atravessou os anos mais conturbados de guerras e de revoltas e, excluindo-se o período da Revolução Cultural, manteve-se firme em toda a China. Atualmente, mesmo com a espantosa modernização do país é muito claro o incentivo dado a pesquisas arqueológicas que trazem à tona uma história muito antiga. Quem visita o país encanta-se com a qualidade dos seus museus, repletos de objetos de muitas épocas passadas e para os quais há informações de muito boa qualidade.

Xi Jinping na minha opinião não deve ser visto como um ditador nos moldes ocidentais. Embora ele seja muito autoritário, é bem mais um autocrata com características imperiais, quem sabe um déspota esclarecido do que um ditador moderno como nós já tivemos a experiência na Europa e na America Latina. Trata-se de um homem culto, casado com uma importante cantora de ópera chinesa, oriundo de uma família admiradora de Confúcio e cujo pai sofreu nas mãos da Guarda Vermelha. A China nunca foi uma monarquia constitucional. De um Império fortemente centralizador, claramente absolutista, ela passou para uma República com líderes pouco democráticos, com Sun Yat-Sen, Yuan Shikai, Chiang-Kai Shek e depois Mao.

Antes de terminar a minha fala eu gostaria de fazer brevíssimas considerações sobre a questão do Covid-19 e da divulgação tardia de que se tratava de um vírus perigoso. Em primeiro lugar, a culpabilização do governo por hábitos ancestrais dos mercados de animais silvestres é injusta pois o governo chinês tem tentado, desde o tempo do Hu Jintao, modificar consideravelmente certos costumes alimentares, tendo inclusive proibido em mais de uma oportunidade (e nem sempre com sucesso) o festival que inclui a matança de cachorros. No entanto, em sociedades rurais com tais comportamentos não é tarefa simples a mudança de hábitos e o mesmo ocorre no Vietnã, na Coréia e em outros países asiáticos. No caso da China acrescenta-se a questão da medicina tradicional, na qual o pangolim, que foi o vetor de transmissão atual, é um dos insumos mais usados na fabricação de medicamentos .

É importante também deixar claro que a ocultação dos primeiros casos não foi uma decisão do governo central mas do provincial, o que também é parte da estrutura de governança da China, desde os tempos imperiais. Funcionários das províncias calculam até o PIB da sua área que depois é somado aos demais para a obtenção dos dados nacionais.  A burocracia provincial tem muitas prerrogativas e, por outro lado, quando comete erros, recebe punições fortíssimas, exatamente como ocorria nos tempos do Império, o que certamente levou a que a informação sobre um vírus novo em Wuhan fosse incialmente ocultada. Zhou Xianwang, que era então prefeito de Wuhan, renunciou ao admitir ter escondido informações sobre o surto. Com tais considerações de modo algum minimizo o problema do ocultamento inicial dos dados, mas acho importante ter um olhar amplo sobre o que ocorreu.

Eu vejo como chance zero a ideia de democratização da China nos moldes ocidentais, porque são pelo menos cinco mil anos de uma história de centralização do poder, mas também porque, atualmente, a modernização do país tem sido favorável  às pessoas comuns, ao povo em geral. Os governos de Hu Jintao e agora de Xi Jinping não são excludentes, os governantes apostaram e continuam apostando na inclusão dos chineses, com grande ênfase na inclusão pela educação, pela modernidade. É esse esforço de inclusão que faz toda a diferença para que, apesar de seu inegável autoritarismo, o governo tenha um considerável apoio popular. Não estou defendendo a autocracia contra a democracia, apenas tentando entender o contexto político do país sem enxergá-lo com as lentes de quem está de fora.

Xangai moderna. Pearl Tower. Foto minha.

Há muito mais para ser dito e analisado sobre a história da China e a crescente modernização do país. Este resumo histórico tem como finalidade fazer apenas considerações pontuais, em um panorama bastante resumido da longa duração.

Segue uma bibliografia bastante básica. Na internet e em diversas páginas de cunho acadêmico há uma grande quantidade de textos sobre a história chinesa, facilmente acessíveis. Recomendo que os interessados coloquem as palavras-chave com relação a períodos ou temas que estiverem pesquisando, para obter resultados mais específicos sobre a China. Ressalto que esta é apenas uma bibliografia MUITO BÁSICA de livros acessíveis no Brasil ou que podem ser comprados online e até mesmo em sebos, sem dificuldade. Preocupo-me sempre em dar informações para leigos e também para os alunos do Ensino Médio e dos cursos de graduação em História. Os pesquisadores sabem onde procurar suas fontes…

CARVALHO, Evandro Menezes de e SILVEIRA, Janaína Camara da (org.). A China por sinólogos brasileiros: visões sobre economia, cultura e sociedade. Rio de Janeiro: Batel, 2019.

CHANG, Jung. A Imperatriz de Ferro. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

CONGER, Sarah Pike. Letters from China. Columbia, SC: Big Byte Books, 2020.

FAIRBANK, John King e GOLDMAN, Merle. China: uma nova história. Porto Alegre: L&PM, 2006.

HAW, Stephen G. História da China. Lisboa: Tinta da China, 2015.

HISTORY. https://www.history.com/tag/ancient-china

KISSINGER, Henry. Sobre a China. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011

PALAZZO, Carmen Lícia. “Os Jesuítas como atores privilegiados na comunicação de imagens da China para a Europa: século XVI a XVIII.” Curitiba: Revista Tuiuti: Ciência e Cultura, n. 48, 2014, p. 13-31.

SPENCE, Jonathan. Em busca da China Moderna. São Paulo, Companhia das Letras, 1996.

 

DE MATTEO RICCI À MISSÃO FRANCESA: O ENCONTRO ENTRE OS JESUÍTAS EUROPEUS E O IMPÉRIO DO MEIO (SÉCULOS XVI a XVIII)

Artigo meu sobre os Jesuítas na China.

DE MATTEO RICCI À MISSÃO FRANCESA: O ENCONTRO ENTRE OS JESUÍTAS EUROPEUS E O IMPÉRIO DO MEIO (SÉCULOS XVI a XVIII)

Carmen Lícia Palazzo

Introdução

O presente texto é uma apresentação resumida de nossa pesquisa mais ampla sobre o encontro cultural entre jesuítas europeus com os chineses, em especial com a elite letrada do mandarinato confucionista e alguns imperadores, do século XVI ao XVIII.

O fascínio pela Ásia e as viagens de religiosos e mercadores ao Extremo Oriente, seguindo muitas vezes caminhos que posteriormente foram chamados de Rota da Seda, não era novo no início da chamada Idade Moderna. No período medieval Pian di Carpine, Guilherme de Rubruck, Marco Polo e Odorico de Pordenone não apenas se aventuraram na difícil travessia em direção a territórios distantes mas também deixaram relatos de grande valor histórico e antropológico sobre contatos com chineses, mongóis, tibetanos, uigures outros povos até então pouco conhecidos dos europeus. [Palazzo, 2011]

 A China imperial, porém, nunca se constituiu em terreno fértil para a atividade missionária já que era consciente de sua força, que lançava raízes em tradições milenares e numa eficiente estrutura hierárquica. O poder centralizado na Corte era exercido em toda sua extensão territorial, com a autorização do imperador, pelo mandarinato, elite letrada selecionada através de um rígido sistema de concursos. A solução que os jesuítas encontraram para a aceitação de suas atividades no interior do império foi tanto o aprendizado do idioma quanto a familiarização com os códigos de conduta daquela sociedade. E, como ponto de partida para suas atividades, foi importante a existência do enclave português de Macau, etapa inicial para contatos com os chineses e para o estudo da língua.

Os missionários que tinham como objetivo entrar na China continental faziam de Macau o ponto inicial de seu aprendizado, diferente dos padres que ali se fixavam para atender católicos portugueses e a alguns asiáticos convertidos. Longe de se constituir em um território exclusivamente europeu, Macau era multiétnica. Pequena em extensão, era povoada por chineses, portugueses, malaios, entre muitos outros mercadores e suas famílias. Dentre as diversas comunidades de religiosos católicos que ali se estabeleceram com o objetivo de dar apoio espiritual aos cristãos locais, a mais importante era a dos jesuítas, em “(…) regra geral juízes de paz de Macau e elite letrada nos contatos com as autoridades oficiais da Ásia Oriental.” [Barreto, 2006, p.137] Foi Macau que propiciou aos inacianos o aprendizado inicial sobre a China. Assim, quando a Companhia de Jesus decidiu que enviaria seus missionários para o interior do Império, a península macaense se mostrou um bom ponto de partida para o estudo do idioma e contato com os hábitos chineses [Palazzo, 2014, p. 13-31].

O pioneiro Matteo Ricci.

A entrada de estrangeiros no interior da China era difícil, pois dependia de autorização do imperador. Entre os primeiros missionários jesuítas, destacaram-se os italianos Michele Ruggieri e Matteo Ricci. Ambos teceram excelentes relações com altos funcionários da Corte e, com habilidade, conseguiram permissão para deixar Macau e penetrar no interior do continente, onde estabeleceram missões em mais de uma cidade. [Ducornet, 2010, p. 25; p. 48-52] A parte mais importante da estratégia escolhida pelos inacianos para dar início a um bom relacionamento com os funcionários-mandarins foi o aprendizado da língua, no que Matteo Ricci se destacou [Zhu, 2010, p. 22-25].

Ricci viveu durante 28 anos na China, de 1582 até 1610, quando faleceu em Beijing. Durante muito tempo aguardou autorização imperial que também se fazia necessária para o estabelecimento na capital, o que nem sempre era permitido, mesmo para os que, como ele, já estivessem oficialmente instalados no interior do continente. A autorização foi conseguida somente em 1601 por influência de diversos relacionamentos que o missionário cultivou demonstrando seus conhecimentos e presenteando as autoridades locais com objetos europeus que não eram conhecidos na China.

O pesquisador Zhang Xiping enfatiza o interesse motivado pelo que era considerado “estranho” pelos chineses. Esta curiosidade favorecia os jesuítas pois suscitava diversos encontros com as autoridades, que sempre tomavam a iniciativa de procurá-los:

“Quando os chineses letrados começaram a se aproximar dos missionários, muitos deles o fizeram por curiosidade (…) relógios e prismas triangulares eram mostrados pelos jesuítas e jamais tinham sido vistos [pelos chineses]. Quando Michele Ruggieri e Matteo Ricci chegaram em Zhaoqing, o que atraiu o governador local foi justamente ambos os objetos. Em Nanjing, muitos oficiais e letrados foram visitar Matteo Ricci assim que souberam que ele havia levado coisas estranhas para a cidade.” [Zhang, 2009, p.38]

Em toda a história da missionação na China, fica muito claro que os europeus eram para os chineses o exótico por excelência, o Outro que causava estranhamento. No entanto, no caso dos jesuítas, pelo domínio do idioma e assimilação aos hábitos locais, tratava-se também do Outro que os surpreendia fazendo-se próximo. Com relação a Matteo Ricci, sua excepcional capacidade para o aprendizado da língua permitiu que escrevesse vários textos em chinês, contando provavelmente com o auxílio de mandarins convertidos, com os quais ele se relacionava [Laven, 2001, p. 104-105]. Tal fato, sem dúvida, colaborou para alçá-lo à condição de letrado, honra máxima na sociedade chinesa.

No estudo das relações entre o mandarinato e os inacianos a primeira e uma das mais significativas fontes é o importante texto deixado por Matteo Ricci e intitulado por ele mesmo Della entrata della Compagnia di Giesù e Christianità nella Cina, já quase concluído por ocasião de sua morte, em 1610 [Ricci, 2010]. A ele o padre Nicholas Trigault acrescentou dezenove páginas, traduzindo-o integralmente para o latim e levando para Roma o original e sua tradução. Em seguida, a partir do texto latino, foram realizadas traduções para diversos idiomas, o que ampliou sua divulgação entre leitores europeus, ainda que, de maneira equivocada, sob o nome de Trigault. Este, porém, autenticou o manuscrito em 26 de fevereiro de 1615 como sendo efetivamente de autoria do jesuíta italiano e nunca lhe negou o crédito [Ricci, 2010, p. LVI].

Matteo Ricci foi um observador atento e perspicaz da sociedade chinesa. A formação intelectual dos inacianos capacitava-os para entender o mundo à sua volta, principalmente no caso daqueles que, como ele, tiveram acesso ao qualificado corpo docente do Colégio Romano, posteriormente denominado Universidade Gregoriana.

A imagem dos missionários-mandarins passou a circular na Europa a partir das atividades de Ricci [Kircher:1667] mantendo-se até o século XVIII, mas não isenta de considerações críticas, principalmente por parte dos franciscanos. Em resposta às muitas críticas da época, o padre Alessandro Valignano grande incentivador do estilo de missionação dos jesuítas na China, Visitador da Companhia na Ásia e conhecedor das sociedades orientais, deixou bem claro o que considerava como “calúnias” contra os padres da Companhia de Jesus. De acordo com Valignano:

“(…) quanto ao que diz Frei Martín que vestem-se em trajes de chineses e que não tratam de conversão, é verdade que andam vestidos à maneira de letrados chineses e que trazem as barbas crescidas e também os cabelos até as orelhas (…) isto se fez por ordem minha e pelo parecer de muitas outras pessoas sérias e letradas da Companhia.” [Valignano, 1598/1998: 88]

E, mais adiante:

“(…) entendemos que os Padres, fazendo ofício de homens letrados, teriam mais fácil entrada com todos e poderiam melhor e com mais autoridade divulgar nossa santa lei para os chineses, e não se deve reprender e nem ironizar este método, como faz o frade, a quem parece que toda a religião consiste no hábito, o qual, ainda que seja bom, “não faz o monge”, como se diz nos cânones sagrados.” [Ibid.: 89] 

O frade ao qual Valignano se referia era Martín Loinez de la Ascención, um crítico contundente do trabalho dos inacianos no Oriente. Valignano, porém, destaca em sua Apología que outros franciscanos também deram informações “muito caluniosas e prejudiciais para a nossa Companhia, e bem diferentes e contrárias do que se passa na verdade” [Ibid.: 1]

Ricci, em todos os seus escritos deixa evidente ter demonstrado grande capacidade para apreender as muitas características da cultura chinesa, analisando-as com real interesse. Em uma das passagens escreve: 

“O maior filósofo entre eles é Confúcio que nasceu quinhentos e cinquenta e um anos antes da vinda do Senhor ao mundo e viveu mais de setenta anos de uma boa vida ensinando esta nação com palavras, obras e escritos; de todos é tido e venerado como o mais santo homem que teve o mundo. E, na verdade, naquilo que disse e na sua boa maneira de viver, de acordo com a natureza não é inferior aos nossos antigos filósofos, excedendo a muitos deles.” [Ricci, op.cit.: 28-29]

A saga de Matteo Ricci até sua instalação definitiva em Beijing foi repleta de aventuras, de contatos com funcionários chineses fascinados por aquela exótica figura que falava sua língua e interessava-se por seus comportamentos. Em mais de uma localidade na qual se estabeleceu procurando realizar algumas conversões de chineses para o cristianismo ele amealhou diversos aliados, ainda que as conversões não fossem em número elevado.  Seu pioneirismo abriu caminho para os muitos inacianos que seguiram seus passos.

As Cartas edificantes e curiosas do século XVIII

Entre as muitas informações produzidas pelos jesuítas e difundidas através da Europa no século XVIII estavam as Lettres Édifiantes et Curieuses. Tratava-se de cartas enviadas pelos padres franceses estabelecidos em várias partes do mundo a diversas personalidades com o objetivo de divulgar as atividades da Companhia de Jesus. As referidas cartas foram em seguida publicadas, atingindo um número maior de leitores entre a elite francesa, além de seus destinatários. No caso das cartas que foram escritas a partir da China, mais do que os detalhes das conversões em si, que não eram em tão grande número a ponto de impressionar os europeus, os jesuítas fizeram questão de mostrar a posição de destaque que os inacianos desfrutavam no Império do Meio.

A história da chamada Missão Francesa remonta a 1685, quando o rei Luís XIV enviou para a China um grupo de jesuítas que chegou a Beijing em 1688. Com tal decisão, o monarca ignorava o Padroado português que, ao menos teoricamente, detinha a exclusividade do controle da atividade missionária no Oriente. Embora o sistema de Padroado vinculasse também os missionários na China à coroa lusa, a situação ali era menos rígida. Padres de diversas nacionalidades estavam sempre prestando contas de forma mais direta a Roma e aos seus supervisores do que ao rei de Portugal.

O caso dos jesuítas franceses enviados por Luís XIV era, por sua vez, totalmente excepcional, com independência do reino luso, o que não ocorreu sem fricções. Horácio Peixoto de Araújo faz uma boa análise do sistema do Padroado e suas características na China [Araújo, 2000] e Isabelle e Jean-Louis Vissière apresentam o caso francês, na Introdução ao volume que editaram com as Lettres Édifiantes et Curieuses [Vissière & Vissière, 2001:7-24].

Os jesuítas franceses se constituíam em cientistas de excelente formação e sua escolha foi realizada com o apoio da Academia de Ciências de Paris, que não tinha interesse direto na atividade missionária, mas desejava enviar para diversas partes do mundo pessoas capacitadas para coletar informações visando um amplo trabalho de aperfeiçoamento da cartografia. A ideia de que os padres da Companhia de Jesus seriam os mais indicados para tal função na China devia-se ao fato, já então bem conhecido na Europa, de que eles desfrutavam de boa acolhida na fechada corte imperial, o que não era o caso de outros estrangeiros [Ibid.: 10-11].

A Missão Francesa, no entanto, foi muito além de um simples contato científico e missionário. O imperador Kang’xi, que ocupou o trono entre 1662 e 1722, afeiçoou-se aos inacianos tornando-se um grande admirador de suas atividades, integrando-os durante seu longo reinado ao corpo dos grandes letrados do Império [Spence, 1988].

Das muitas cartas enviadas pelos jesuítas a seus correspondentes europeus, destaca-se a de Jean de Fontaney, escrita em fevereiro de 1703 para o padre de la Chaise, confessor do rei francês Luís XIV. Nela, Fontaney descreve de modo muito positivo as honras que foram proporcionadas ao padre flamengo Ferdinan Verbiest na cerimônia de seu velório, ocorrido anos antes, em 1688. Verbiest, que não fazia parte da Missão Francesa mas que era muito admirado por todos, tinha se destacado como matemático e astrônomo. Fontaney não  trata apenas da chamada missão francesa, mas dá um bom panorama das atividades de diversos jesuítas na corte imperial. Relata também em sua correspondência o papel de mediação exercido pelos padres em um confronto que havia ocorrido entre russos e chineses, em virtude do agressivo expansionismo russo. A atuação dos inacianos como mediadores foi fundamental naquela oportunidade para que se alcançasse a então chamada Paz de Nertchinski. Nela destacou-se a atuação de Thomas Pereyra e Jean-François Gerbillon que estavam a serviço do imperador chinês, partucipando das reuniões entre ambas as nações como intérpretes e conselheiros [Fontaney, 2001, p. 65]. Nesta mesma carta o jesuíta descreve ainda o grande interesse do imperador pelo estudo da matemática e da geometria euclidiana [Ibid.: p. 66] reafirmando, portanto, na Europa, uma imagem muito positiva do soberano chinês, curioso e interessado em aprender, o que era, efetivamente, uma característica de Kang’xi [Spence, op. cit. p. xviii].


Outros missionários franceses mantiveram também uma ativa correspondência com diversas personalidades europeias. O padre Dominique Parrenin, que além de missionário era um cientista consagrado, trocou, entre 1728 e 1740, diversas cartas com Dortous de Mairan, físico e matemático que foi diretor da Academia de Ciências de Paris e depois seu Secretário Perpétuo [Parrenin, 2001, p.180]. Em uma destas cartas o padre discorreu longamente sobre as ciências na China, fazendo análises interessantes sobre o fato dos chineses valorizarem mais a “história das leis e da moral”, o que ocorria em detrimento das “ciências especulativas”, como eram chamadas a geometria e a astronomia [Ibid.: 184].

A situação descrita pelo jesuíta era real e justamente em função dela o trabalho dele e de seus companheiros mostrava-se de grande utilidade para o império. Parrenin, porém, destacou que o relativo atraso no qual se encontravam os chineses no século XVIII em relação às “ciências especulativas” não consistia em nenhuma deficiência mas resultado de uma escolha, já que os concursos para mandarim, que davam acesso às funções de maior prestígio, exigiam principalmente conhecimentos ligados às leis e à moral. De acordo com o padre Parrenin os chineses eram “bem sucedidos em outros assuntos que não demandavam menos gênio e nem menos profundidade do que a astronomia e a geometria”. [Ibid., p.181]

O imperador Qianlong, que reinou de 1735 até 1796, sucedeu Kang’xi e manteve, como era praxe já há muitos anos, diversos jesuítas a seu serviço em Beijing, inclusive padres que eram também artistas e que trabalhavam como pintores oficiais da corte. Alguns deles alcançaram grande destaque, como foi o caso do italiano Giuseppe Castiglione “que fez (…) combinar as artes ocidental e oriental e formar uma nova escola de pintura da China (…)” [Seng, 2002, p. 131]

No entanto os inacianos que, como seus antecessores, continuavam a viver sob a proteção imperial, estavam entre os derradeiros representantes de um rico encontro entre o Ocidente e o Oriente que em breve seria interrompido em função de acirradas discussões sobre as práticas da missionação. As ásperas disputas que ficaram conhecidas como a “querela dos ritos”, motivadas pela intransigência da Santa Sé em aceitar as cerimônias de culto aos ancestrais e de homenagem a Confúcio, fizeram com que os missionários começassem a perder o apoio até mesmo do próprio imperador e a sofrer perseguições de parte da população, já que os rituais que estavam sendo criticados pelo papado representavam a própria essência da milenar cultura chinesa.


Na Europa, recrudesciam também as críticas aos métodos inacianos de aculturação o que, ao menos parcialmente, influenciaria na dissolução da Ordem. Da parte dos jesuítas, já não havia mais uma personalidade forte, batalhadora por suas idéias e prestigiada em Roma, como havia sido o caso de Alessandro Valignano, no século XVI, e que pudesse defender a originalidade de seus métodos de aproximação com as populações locais, visando abrir caminho para a catequese.

Conclusão

Os jesuítas, sem dúvida, sempre tiveram uma pedagogia diferenciada em sua atividade missionária, incluindo um certo grau de abertura para a alteridade e o projeto de, em algumas sociedades, iniciar a missionação pelas classes mais altas e letradas. No caso dos inacianos que estiveram no império chinês entre os séculos XVI e XVIII o caminho foi pavimentado também pelas ideias confucionistas que, longe de desagrada-los, passaram a ser incorporadas, em certa medida, como parte de comportamentos morais que os padres consideravam comuns aos cristãos e aos seguidores de Confúcio.

O bom relacionamento entre os jesuítas e os letrados chineses devia-se não apenas às atitudes dos padres mas também ao mandarinato e, em diversos casos, igualmente a imperadores que viabilizaram verdadeiros encontros de civilizações. As trocas foram materiais, intelectuais e até mesmo afetivas, baseadas em admiração recíproca. Atualmente, diversos nomes de jesuítas são lembrados pelos chineses e os que mais se destacaram estão referenciados em museus importantes que contam a história imperial, como o Antigo Observatório Astronômico de Beijing, cuja exposição permanente rende homenagem aos astrônomos Adam Schall von Bell e Ferdinando Verbiest.

O chamado Cemitério Jesuíta de Beijing, conhecido como Cemitério de Zhalan, que incluímos como fonte material de nossa pesquisa, também é testemunho do apreço e respeito pelos inacianos da parte dos chineses, que ali conservam 63 túmulos com grande zelo. Em sua entrada estão, com destaque, as lápides de Matteo Ricci, Adam Schall von Bell e Ferdinand Verbiest.

Houve, sem dúvida, períodos de muitas tensões entre  chineses e europeus em torno das atividades de catequese, com momentos de perseguições e de incompreensões também da parte dos missionários europeus. Os franciscanos registraram na sua história inúmeros relatos de martírio, ocorridos principalmente no interior.  Os jesuítas, embora em grau bem menor, foram também alvo de ataques, mas quase sempre fora da capital. O foco de nossa pesquisa, porém, é o do intercâmbio entre inacianos e chineses e, dentro de um escopo mais amplo, o da avaliação da influência deste encontro na construção de imagens da China na Europa, imagens estas que se mantiveram positivas por um considerável período de tempo e que podem ser consideradas como parte essencial do fascínio ocidental pelo Oriente.

Referências:

Carmen Lícia Palazzo é doutora em História pela Universidade de Brasília, UnB, pesquisadora convidada do UniCeub, pesquisadora membro do Grupo Videlicet da Universidade Federal da Paraíba e do Grupo de Estudos Persas, da UnB, e foi também pesquisadora convidada da Georgetown University, EUA.

Agradecimentos: ao professor Hirochika Nakamaki do Museu Nacional de Etnologia de Osaka pela generosa disponibilização de fontes importantes para a esta pesquisa e também aos professores Julio Jatobá, em Macau, e Jorge Cardoso Leão, no Rio de Janeiro, que colaboraram com importantes sugestões bibliográficas.

[Todas as traduções de fontes e bibliografia em língua estrangeira no corpo do texto são nossas.]

ARAÚJO, H. P. Os Jesuítas no Império da China. O primeiro século (1582-1680). Macau: Instituto Português do Oriente, 2000.


BARRETO, L. F. Macau: Poder e Saber: séculos XVI e XVII. Lisboa: Editorial Presença, 2006.

DUCORNET, E. Matteo Ricci, le lettré d’Occident. Paris: Cerf, 1993.


FONTANEY,  Carta de 15 de fevereiro de 1703, enviada a R. P. De La Chaise. In VISSIÈRE & VISSIÈRE, I. e J.-L. (ed.). Lettres Édifiantes e Curieuses des Jésuites de Chine (1702-1776). Paris: Desjonquères, 2001, p. 59-75.


KIRCHER, A. China Monumentis, Qua Sacris, quà Profanis, nec non variis Naturae & Artis Spectaculis, Aliarumque rerum memorabilium Argumentis Illustrata. Amsterdam: Janssonius van Waesberge & Elizer Weyerstraten, 1667.

LAVEN, M. Mission to China. Londres: Faber & Faber, 2011.


PALAZZO, C.L. Os jesuítas como atores privilegiados na comunicação de imagens da China para a Europa: séculos XVI a XVIII. Revista Tuiuti: Ciência e Cultura, n. 48, p. 13-31, Curitiba, 2014.

PALAZZO, C. L. Relatos ocidentais sobre os khanatos mongóis: Pian di carpine e Rubruck. Revista Signum, 2011, v., n. 2, 2011, p. 124-138.


PARRENIN, D. Carta de 11 de agosto de 1730 enviada a M. Dortous de Mairan. In VISSIÈRE & VISSIÈRE, I. e J.-L. (ed.). Lettres Édifiantes e Curieuses des Jésuites de Chine (1702-1776). Paris: Desjonquères, 2001, p. 181-188.


RICCI, M. Della entrata della Compagnia di Giesù e Christianità nella Cina. Macerata: Quodlibet, 2010 (Editado por Piero Corradini a partir do manuscrito do Arquivo Romano da Companhia de Jesus, em: Jap.-Sin., 106a.).


SENG, C. H. Epílogo. In MUSEU DE ARTE DE MACAU. Exílio Dourado: Estudos gerais sobre a escola de pintura dos missionários ocidentais da corte da dinastia Qing (edição trilíngue mandarim, português, inglês). Macau: Fundação Macau/ Instituto para Assuntos Cívicos Municipais, 2002, p. 130- 132.

SPENCE, J. Emperor of China. Nova Iorque: Vintage Books/Random House, 1988

VALIGNANO, A. Apología de la Compañia de Jesús de Japón y China/ Apología en la cual se responde a diversas calumnias que se escribieron contra los padres de la Compañia de Jesús de Japón y de la China (1598). Osaka: Eikodo, 1998.

VISSIÈRE, I. & VISSIÈRE, J. L (ed.) Introduction. In Lettres Édifiantes et Curieuses des Jésuites en Chine (1702-1776). Paris: Desjonquères, 2001, p. 7-24.


ZHANG, X. Following the steps of Matteo Ricci to China. Beijing: China Intercontinental Press, 2009.


ZHU, J. Missionary in Confucian Garb (edição bilíngue inglês/mandarim). Beijing: China Intercontinental Press, 2010.

Publicado em:

BUENO, André; ESTACHESKI, Dulceli; CREMA, Everton; NETO, José Maria [orgs.] Mais Orientes. Rio de Janeiro/União da Vitória; Edições Sobre Ontens/LAPHIS, 2017., p. 31-45.
ISBN: 978-85-65996-48-8

Disponível em: www.revistasobreontens.site

A arte GANDHARA

GANDHARA: UM ENCONTRO DE CULTURAS

Carmen Lícia Palazzo.

Na região dos atuais Afeganistão e Paquistão foram descobertos os testemunhos materiais dos mais antigos e bem-sucedidos encontros entre a arte do Ocidente e a do Oriente — as chamadas esculturas de Gandhara. Por Gandhara entende-se uma antiga província na Ásia Central que, no século IV a.C., fez parte do território conquistado por Alexandre após violentas batalhas contra os persas. Após a morte do macedônio, o império foi dividido entre seus generais e:

“Os reinos helenísticos que surgiram após a morte de Alexandre o Grande em 323 a.C. começaram a aumentar o comércio entre Oriente e Ocidente. Frutas secas da Palestina, estanho da Grã-Bretanha e prata da Espanha fluíam para os novos reinos orientais.”[1]

Não apenas o comércio foi estimulado mas verdadeiras colônias gregas se estabeleceram na região. Na margem do rio Oxus, atual Amu Darya, foi fundada, na Antiguidade, Aï Khanoum, cujo ginásio, templo e pisos de mosaico fizeram dela uma verdadeira cidade helênica. Impressionante descoberta arqueológica, foi infelizmente destruída no decorrer da guerra dentre o Afeganistão e a então URSS.[2]

Com a expansão dos Kushan, que no século II da era atual já haviam conquistado o remanescente dos reinos gregos pós-alexandrinos na Ásia Central e no norte da Índia, o comércio continuou florescendo. Kanisha, que reinou entre os anos de 129 e 132, incentivou a produção artística de caráter budista mas exercendo uma tolerância religiosa que permitiu o culto de deuses gregos, iranianos e indianos. Favoreceu, portanto, um alto grau de sincretismo que permeou toda a cultura da região.

A cronologia que tem sido aceita pelos estudiosos para a análise da Rota da Seda, enfatiza os séculos I e II como um marco importante para o início de uma circulação mais densa de mercadorias. Trata-se de um período de significativas trocas culturais que coincide não apenas com o desenvolvimento do comércio pelos Sogdianos e com a chegada do budismo na China mas também com o apogeu do império Kushan. Trata-se também do início de um frutífero intercâmbio artístico que legará à Ásia algumas de suas mais belas obras.

A própria história do budismo está indissoluvelmente ligada à da Rota da Seda e uma das conseqüências da aproximação entre mundo greco-romano e o asiático na região de Gandhara foi a adoção da figura humana na representação de Buda. Nos primeiros séculos de difusão dos ensinamentos de Sidarta Gautama o mesmo era evocado através de imagens de pegadas, de um trono vazio, de um dossel ou da roda do dharma, evitando-se todo e qualquer apelo ao que pudesse ser entendido como objeto de culto. Porém, com a maior difusão do budismo, que no século II já se expandira através dos muitos caminhos de mercadores, surgem as primeiras imagens e com elas uma forte influência greco-romana.

Não se conhece exatamente a trajetória daqueles que teriam sido os escultores da região de Gandhara durante o império Kushan, onde foram realizadas as primeiras esculturas de Budas e de Bohdisattvas com traços helênicos e com drapejados em vestimentas muito semelhantes aos encontrados na Grécia e em Roma. Há também uma discussão entre os especialistas sobre os motivos que possam ter levado a uma significativa mudança nas mentalidades para que a representação da figura humana passasse a ser aceita e, desde então, largamente difundida entre os budistas. Sem dúvida o intercâmbio que se processava ao longo da Rota da Seda teve sua parcela de influência na adoção de imagens e no seu uso como objetos de culto, no panteão budista. As anteriores conquistas de Alexandre, de certa forma, também abriram caminho para aproximar o mundo mediterrâneo e adriático da Ásia Central. Assim, a interpenetração não apenas de estilos mas também de práticas produziu alterações importantes que marcaram novas formas de religiosidade.

A Sackler Gallery, da Smithsonian Institution, em Washington, D.C., possui, no seu acervo, uma esplêndida cabeça de Bodhisattva em estuque, de 53 cm, datada aproximadamente dos séculos IV ou V, da área de Gandhara (ver Figura 1). Observando as feições do personagem e principalmente a maneira como foram esculpidos os cabelos cacheados, evidenciam-se elementos que o distinguem das imagens tipicamente asiáticas. À exceção dos olhos amendoados, todo o rosto evoca um modelo grego ou romano.

Figura 1: Cabeça de Bodhisattva Gandhara[3]

Sherman E. Lee, especialista em arte oriental, referindo-se ao uso do estuque para as esculturas, escreve:

Sucumbe-se ao charme e à virtuosidade técnica destas imagens plásticas.  A produção de esculturas em pedra em Gandhara tende a acabar até o século III ou IV, e o trabalho subseqüente tende a ser executado em estuque, quando o gênio indiano para as formas plásticas e fluidas se reafirma.[4]

Conforme nos referimos anteriormente, outra característica da arte Gandhara é a semelhança das vestimentas de alguns personagens tanto com os panos gregos quanto com as togas romanas. O Museu de Artes Asiáticas Guimet, de Paris, possui em sua coleção algumas obras muito representativas deste estilo. Em uma escultura denominada “Bodhisattva em pé”, de 120 cm de altura, realizada entre os séculos I e III e encontrada no sítio arqueológico de Shahbaz-Garhi, é bastante clara a influência grega na veste fartamente drapejada.[5]

São muitos os exemplos passíveis de análise tendo como objetivo detectar os aportes da Grécia e de Roma na arte budista, principalmente em obras do período compreendido entre os séculos I e V na Ásia Central. Mas, como sempre ocorre em se tratando de manifestações artísticas, as influências não se esgotam em um período determinado e nem se circunscrevem a uma única região.

Os modelos migram para outras áreas e outras épocas, e vão se somando a novas criações que acumulam conteúdos e formas passadas, reinterpretando-os e transformando-os. Na arte oriental, e especialmente na budista, que cobre uma vasta extensão geográfica e tem a duração de muitos séculos, é rica a incorporação de influências externas e a elaboração e reconstrução de sentidos.


[1] PRATT, Alexandra. “The Silk Route.” History Magazine. Toronto: August/September 2003, 4 (6), p. 23.

[2] Ver, para maiores informações, BOPEARACHCHI, Osmund.. De l’Indus à l’Oxus: Archéologie de l’Asie Centrale. Paris: Lattès, 2003.

[3] Peça do acervo da Arthur M. Sackler Gallery, Afeganistão, em torno de 300-400. Referência S1987.951. (Foto minha).

[4]  LEE, Sherman E. A History of Far Eastern Art. New Jersey: Prentice Hall Inc., 1994, p. 108.

[5] Para visualizar a imagem da referida escultura, acessar a página do Museu Guimet  www.museeguimet.fr e buscar Bodhisattva débout.

Nos caminhos da Rota da Seda: Dunhuang

Este post é parte de um dos capítulos do livro que estou escrevendo sobre minha estadia na China

Carmen Lícia Palazzo.

“(…) Já há alguns anos eu me interessava pela história de viajantes que, através dos séculos, percorreram toda uma rede de estradas e caminhos que atravessavam a Ásia e chegavam até os portos orientais do Mediterrâneo. Estes viajantes que seguiam quase sempre em grandes caravanas eram mercadores, peregrinos, missionários, agentes oficiais, diplomatas e aventureiros das mais diversas etnias e que, de forma direta ou indireta, participavam de um importante intercâmbio não apenas comercial mas também de ideias e de crenças religiosas.

A grande movimentação que ocorreu principalmente entre os séculos II e XIV, despertou grande interesse nos arqueólogos, historiadores e orientalistas no decorrer de todo o século XIX. Foi então que o geógrafo e explorador Ferdinand von Richthofen cunhou o nome de Rota da Seda para aquela imensa rede de comunicações, em virtude da seda ter se constituído em um dos mais caros e cobiçados produtos que o Oriente enviava para a Europa.

Não tive dúvidas e organizei eu mesma e sem nenhuma agência de turismo, apenas fazendo uso da internet, uma viagem que incluiria inicialmente Dunhuang, a cidade que se desenvolveu a partir de um oásis no deserto de Gobi, na província do Gansu, ao norte da China. De Dunhuang iria depois para Xi’an, mas aquele primeiro destino era um dos que eu mais desejava conhecer.

Desde o início da temporada chinesa o Paulo Roberto e eu tínhamos combinado que caberia a mim a organização de nossas viagens, a escolha de roteiros, de hotéis e até mesmo os horários e meios de transporte que utilizaríamos (na maioria das vezes o trem), pois eu já havia lido e me informado intensivamente sobre o país. Assim, lá estávamos nós, então, frente à grande oportunidade de conhecer de perto alguns daqueles que tinham sido os pontos altos da lendária rota das caravanas.

Durante toda a Idade Média, o oásis de Dunhuang foi um local de encontro e de reabastecimento na rota das caravanas que ali se preparavam para etapas mais difíceis que ainda encontrariam pela frente. O lugar era estratégico para o descanso, no entroncamento de vários caminhos, já que os caravaneiros seguiam para destinações diversas, entre elas a Índia, o Tibete, o Irã e os portos mediterrâneos orientais. O que as pesquisas mais recentes têm mostrado é justamente uma enorme variedade de contatos, apontando para uma rede de intercâmbio muito mais densa do que a que foi vislumbrada pelos orientalistas do século XIX.

Desembarcamos em Dunhuang após um ótimo vôo em uma companhia aérea chinesa, tendo sido esta uma das poucas viagens que não fizemos de trem, dada a grande distância de Xangai até a província de Gansu. No aeroporto, nos esperava um simpático motorista enviado pelo Silk Road Hotel, que eu já havia reservado através de uma página que encontrei na internet. A chegada ao hotel foi impressionante, o prédio era imponente, de uma beleza sóbria e sem nenhuma outra construção à sua volta. Na imensa recepção, tapeçarias, pinturas, objetos e mapas formavam um ambiente luxuoso e elegante. O quarto era encantador, decorado com estofados de qualidade, uma colcha de seda macia e aconchegante, as paredes enfeitadas com caligrafia chinesa em pedaços de bambu e, da janela, a vista, ao longe, das dunas do deserto. Tudo isto por um preço de qualquer outro hotel médio no Ocidente mas também em outras cidades chinesas.

Uma hospedagem perfeita se não fosse a total incapacidade dos funcionários do hotel, mesmo na recepção, de falar em inglês ou qualquer outro idioma ocidental com os hóspedes. Foi ali que descobrimos que a expressão “hotel internacional” é uma ficção em muitas cidades do interior, ainda que seu nome seja pomposamente anunciado em inglês em todos os folhetos e sites. Concluímos que turistas estrangeiros viajando sem excursão, sem um guia local especializado, como sempre foi o nosso caso, constituíam-se numa raridade.

Lembro que tentei, justamente naquele hotel, pedir açúcar para o meu chá, o que foi impossível. Em primeiro lugar porque os chineses tomam chá sem açúcar, mas também porque a palavra tang, que eu tentava pronunciar corretamente, pode significar várias coisas, dependendo do tom de voz em que é dita, inclusive sopa. E considerando-se que, para eles, não é impossível tomar sopa acompanhada por um chá, sempre que eu fazia meu pedido, em vez de açúcar era brindada com um fumegante pote de sopa!

A dificuldade de comunicação, porém, não impediu que a viagem fosse memorável. E, afinal, a beleza do hotel e a simpatia e os sorrisos de seus funcionários nos conquistaram e fizeram também com que nossa estadia fosse muito agradável. Digo sem pestanejar que eu me hospedaria nele novamente, mas é claro que agora falando um pouquinho de mandarim… Combinamos com o motorista que havia nos esperado no aeroporto (e que falava um pouco de inglês, pouco mas o suficiente para os acertos sobre roteiros) que nos levasse ao que mais queríamos ver próximo a Dunhuang, o conjunto conhecido como grutas ou cavernas do desfiladeiro de Mogao.

Em um longo e impressionante  desfiladeiro situado em uma das pontas do deserto de Gobi, começaram a ser escavadas, desde o século IV, inúmeras cavernas cujo objetivo era o de abrigar comunidades de monges budistas que dariam apoio espiritual para os integrantes das caravanas que tinham, naquela região, a última parada ainda sob proteção do governo chinês. A própria cidade-oásis de Dunhuang era o derradeiro posto militar chinês antes da fronteira e a partir dali os viajantes passavam a enfrentar rotas menos protegidas e certamente expostas a maiores perigos.

Os monges que foram se instalando em Mogao através dos séculos desenvolveram uma ativa comunidade que se transformou em importante centro de devoção. Não era incomum que os viajantes com algumas posses encomendassem pinturas e esculturas para decoração das cavernas, tanto para pedir bençãos para enfrentar os percalços dos longos caminhos que os esperavam pela frente, quanto para agradecer o retorno ao território chinês, após aventuras bem sucedidas. Por outro lado, pagar para que as cavernas fossem escavadas e decoradas com belas obras de arte era um ato que permitiria, para os budistas, a acumulação de mérito, importante para que os próximos renascimentos ocorressem  em situação favorável. Assim, não só viajantes foram os responsáveis pela arte de Dunhuang e os especialistas atualmente consideram que muitos foram os mecenas de toda aquela beleza, provavelmente também muitas autoridades locais.

Aos poucos foi aumentando o número de cavernas cujo interior era recoberto de pinturas e esculturas e já no século XIV o conjunto artístico havia atingido o seu auge. Ao todo elas são 492 decoradas e mais 243 que no passado serviram como celas para o alojamento e as atividades diárias dos monges. Tudo isto eu conhecia um pouco através de alguns livros e, há anos, tinha encontrado breves referências a Dunhuang nos museus da Smithsonian Institution, em Washington, D.C. Mas, de repente, eu estava ali vivendo uma experiência mágica. Era a minha chance do contato direto com aquele que é considerado o mais excepcional conjunto de arte budista conhecido.

O impacto, logo que nos aproximamos de Mogao, foi muito grande: o solo arenoso do oásis, o leito seco de um rio e a longa ravina toda perfurada com aberturas que são as portas de entrada de cada caverna, criando um bordado ao longo de todo o paredão. Ao nos aproximarmos, nos deparamos com um belo pórtico de madeira pintada, marcando a entrada principal do acesso às cavernas. Uma guia chinesa de ótima formação, com evidente conhecimento das diversas características da arte budista, nos acompanhou na visita que foi organizada no próprio local. Por questão de segurança não se pode fazer a visita sem o acompanhamento de um guia, dada a fragilidade de cada interior decorado.

É difícil descrever a sensação de ver tudo aquilo ao vivo. Há uma profusão de pinturas que cobrem as paredes e os tetos com temas relacionados ao budismo, mas também descrevendo as atividades rotineiras das caravanas, com cenas de viagem e também da vida diária. Os personagens retratados não são apenas chineses, há muitos mongóis, tibetanos, árabes e representantes de outros povos que circularam pela região. E, além das pinturas, há muitas esculturas, algumas delas de imensos budas.

Na caverna de número 126, uma pintura magnífica relata a história do monge Xuanzang, que foi à Índia em busca dos textos sagrados do budismo e é considerado um dos mais famosos viajantes da Rota da Seda. Xuanzang divulgou os ensinamentos de Buda na sociedade chinesa e sua memória ainda hoje é evocada com respeito e admiração, em vários templos espalhados pelo país.

Na caverna 296, uma belíssima pintura relata a viagem de um homem cujas feições não são chinesas. Provavelmente um árabe, conduzindo um camelo carregado de mercadorias, acompanhado de um chinês montado em um cavalo. Os mercadores árabes e persas frequentaram a Rota da Seda e muitas vezes chegaram a se estabelecer na China onde seus negócios prosperaram. A caverna    tem, no seu interior, também uma estátua monumental de Buda.

Em mais de um dos interiores foram pintadas as apsaras, figuras femininas muito graciosas e delicadas que para nós, ocidentais, evocam anjos ou fadas, muitas vezes tocando instrumentos musicais. São seres celestiais do panteão budista cuja função é principalmente decorativa, levando alegria às cenas das quais fazem parte. Durante a visita, entra-se apenas em um número limitado de cavernas mas mesmo assim o esplendor é tanto que a emoção perdura por um longo tempo mesmo depois que se deixa o lugar. A sensação que eu tive foi a de ter visto algo único não apenas pela sua qualidade artística mas também pela enorme densidade histórica de toda a região. E esculturas mais recentes das apsaras, seguindo o modelo das que foram encontradas nas pinturas antigas, também estão espalhadas pelo oásis, encantando-nos com sua leveza.

Além das grutas de Mogao visitamos também o museu de Dunhuang e uma parte do deserto onde está o lago da Lua Crescente. O lago tem a forma de meia-lua e suas águas são cristalinas e muito limpas apesar de toda a areia das dunas à sua volta. É uma paisagem única, não alterada há muitos séculos. Foi divertido caminhar pelas dunas, ver de perto os camelos que circulam por ali e ter uma ideia do que devem ter enfrentado os viajantes de outras épocas, para os quais aquela era apenas uma parte da imensa jornada que os levaria a atravessar a Ásia Central.”