A Idade de Ouro do Islã: o mecenato do Califado Abássida e a Casa da Sabedoria

CARMEN LÍCIA PALAZZO.

Resumo: O presente artigo analisa alguns aspectos da chamada Idade de Ouro do Islã e tem, como fio condutor, as realizações do califado abássida, com foco no período que vai de 762, data do estabelecimento da capital em Bagdá, até 833, ano da morte do califa Al-Mamun. A Casa da Sabedoria (Bayt al-Hikma) é a imagem mais forte de múltiplas atividades cuja memória permanece ainda presente, testemunho de um período da história do Islã no qual o poder califal exercia o mecenato nas ciências, na filosofia, nas artes e na literatura.

Abstract: This article analyses some aspects of the so-called Golden age os Islam by following the works of the Abbasid Caliphate, concentrating on the period ranging from the establishment of the capital at Baghdad up to 833, year of Al-Mamun’s death. The House of Wisdom (Bayt al-Hikma) is the most potent image among manifold activities, the memory of which lives on the present day. It bears witness to a period in the History of Islam during Which caliphal power acted as a patron to sciences, philosophy, arts, and literature.

Palavras-chave: Idade de Ouro – Islã – Califado Abássida – Bagdá. Keywords: Golden Age – Islam – Abbasid Caliphate – Baghdad.

Uma das mais difundidas obras da literatura do Oriente Médio, As mil e uma noites, relata, em algumas passagens de seu texto, as aventuras fictícias de um personagem verdadeiro, o califa Harun al-Rashid (c. 763-809) que, na companhia de seu vizir Al- Ja’far, andava incógnito pelas noites de Bagdá.2 A apropriação literária de uma relevante figura histórica dá a medida da importância dos abássidas no imaginário árabe, imortalizando um de seus califas mais marcantes muito além das crônicas históricas tradicionais.

A origem do califado, porém, é bem anterior às peripécias do notívago soberano. Logo após a morte do Profeta Maomé (570-632), foi necessário definir as regras da sua sucessão. Ele era considerado o último dos profetas, o mensageiro das palavras divinas, portanto nenhum outro iria igualá-lo em termos religiosos. O que se buscava, então, era um Khalifah, um sucessor que seria o comandante da comunidade dos fiéis (umma), tanto do ponto de vista religioso quanto político e militar.

Os quatro primeiros califas foram escolhidos entre os que estavam muito próximos a Maomé e ficaram conhecidos pela alcunha de “os bem guiados” justamente em virtude da sua fidelidade aos ensinamentos do fundador do Islã. A eles seguirá uma dinastia da família dos Omíadas que sobe ao trono após as lutas sucessórias que levarão à cisão da qual se originará o grupo dos xiitas

O período no qual os Omíadas estiveram à frente do califado, entre 661 e 750, foi de uma considerável expansão do Islã e de sua consolidação não apenas na Península Arábica mas também no norte da África e na Pérsia, com intensa atividade na importante rota comercial que mais tarde seria denominada Rota da Seda.

Permaneciam, no entanto, mesmo entre os sunitas, os questionamentos da legitimidade sucessória. Os Omíadas foram derrubados após violentos conflitos e uma nova dinastia subiu ao poder. Um único sobrevivente da dinastia derrotada consegue fugir para o Magreb, passando alguns anos no Marrocos, de onde seguirá, depois, para o sul da Espanha, instalando-se em Córdoba. É em Al Andalus que se desenvolverá um novo emirado e posteriormente califado, completamente independente dos Abássidas do Oriente Médio e, no entanto, sem com eles concorrer ou criar grandes atritos.

Em 749, Al Saffah, descendente de Al Abbas, um tio Profeta, conseguiu arregimentar diversas tropas para que o proclamassem califa, na mesquita da cidade de Kufa. Ainda que os argumentos da importância da descendência de Maomé fossem invocados, os Abássidas contavam, a favor de sua rebelião, com mais um fator que foi muito importante para destronar os Omíadas, o grande descontentamento de elementos não árabes que estavam sendo notoriamente discriminados na corte. É a aproximação com os persas que vai proporcionar à nova dinastia que tomou o poder um apoio essencial para sua ascensão, mas também permanência no trono.


Al-Saffah, na mesquita de Kufa, no ano de 749, recebendo homenagens dos altos dignatários da corte, quando assumia o Califado. Miniatura persa realizada no século XIV. É interessante observar que, em diversos casos, na arte do século XIV, os árabes das classes mais altas eram retratados com as feições dos mongóis, o que correspondia à elite do comando da região na época em que a imagem foi realizada. (Do século XI ao XVI etnias turco-mongóis dominavam diversas regiões do mundo islâmico.)

A imagem do estabelecimento da dinastia abássida ficou presente durante muito tempo na memória dos muçulmanos e, no século XIV, uma bela miniatura persa evocava a cerimônia na qual Al-Saffah recebia homenagens de altos dignatários, na mesquita de Kufa, após ter sido designado califa.

Uma das principais fontes para o estudo do califado abássida é a obra do historiador persa Abu Ja’far Muhammad ibn Jarir al-Tabari (840-923) que, embora nascido na província do Tabaristão, viveu em Bagdá e viajou intensamente por todo o Oriente Médio. Al-Tabari escreveu uma extensa História dos Profetas e Reis, em 40 volumes, que ainda hoje é referência dado seu cuidadoso trabalho apontando inclusive muitos detalhes quando se tratava de informações divergentes (…)”

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https://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/pdfs/2_0.pdf

Para citar: PALAZZO, Carmen Lícia. A Idade de Ouro do Islã: o mecenato do Califado Abássida e a Casa da Sabedoria. In COSTA, Ricardo da, e SALVADOR GONZÁLEZ, José María (orgs.). Mirabilia 25 (2017/2) Idea and Image of royal power of the monarchies in Ancient and Medieval World Concepção e Imagem do poder real monárquico no mundo antigo e medieval
Imágen y Representación del poder reyal de las monarquias en los mundos antiguo y medieval . Jun-Dez 2017/ISSN 1676-5818


A arte islâmica nos caminhos da Rota da Seda.

Carmen Lícia Palazzo. Resumo de apresentação em Mesa Redonda no CCBB em Brasília, em colaboração com a Embaixada da Espanha e a UnB: “Alhambras: o legado Andalusí”. Em 14. maio. 2019.

O estudo da arte islâmica e da sua expansão através da chamada Rota da Seda nos conduz à descoberta de fecundos intercâmbios de mercadorias e de ideias em múltiplas direções. Se a metalurgia sassânida deixou sua marca nas manifestações artísticas dos árabes que conquistaram o império persa, os mercadores muçulmanos que chegaram até a China, interessados no comércio e não na conquista territorial, levaram até o Extremo-Oriente sua crença, mas também as suas representações.

A Grande Mesquita de Xi’an é um eloquente testemunho deste encontro entre culturas tão distintas. A Península Ibérica, que na Idade Média se constituiu no que podemos chamar de extremo ocidente da Rota da Seda, evidencia também, e com muita clareza, tal intercâmbio. São exemplos importantes a contribuição do imperador bizantino na excepcional decoração de mosaicos da Grande Mesquita de Córdoba, realizada no califado de Al-Hakam II e os capitéis que se encontram no Marrocos, em construções dos almorávidas e dos almohadas, levados de Al-Andalus

Mihrab da Mesquita de Córdoba. Foto minha.

Longe de se constituir em uma religiosidade geograficamente delimitada, o Islã ganhou o mundo desde os seus primórdios, expandiu-se, conquistou, mas também assimilou outras culturas, o que nos leva a pensar que as análises das manifestações artísticas ditas islâmicas devem, necessariamente, levar em conta o rico intercâmbio que ocorreu nos caminhos de conquistadores, peregrinos e mercadores.

A mesquita de Córdoba e o Alhambra de Granada (Carmen Lícia Palazzo)

A mesquita de Córdoba e o Alhambra de Granada

Carmen Lícia Palazzo

Resumo: O presente artigo analisa dois dos mais significativos monumentos da Espanha Islâmica, a Grande Mesquita de Córdoba e a Alhambra de Granada, inseridos no contexto da história política da região. Destaca a participação de artistas cristãos bizantinos na decoração da mesquita e a relevância das artes ornamentais em ambos os monumentos, salientando a presença de referências ao luxo e ao ornamento no próprio Corão. No caso da Alhambra, evidencia a importância do conjunto como afirmação da dinastia Násrida, o que pode ser constatado por sua opulência, pela fartura de suas decorações e pela poesia epigráfica de Ibn Zamrak na Fonte dos Leões, declarando a origem genealógica de Mohammed V.

Abstract: This article analyses two of the most significant monuments in Islamic Spain: the Great Mosque in Cordoba and the Alhambra in Granada. Both are treated with regard to the political history of the region. The article stresses the role of Byzantine Christian artists in the decoration of the Mosque, as well as the relevance of decorative arts in both monuments, particularly the occurrence of Quranic mentions of luxury and ornament. It shows the importance, in the Alhambra, of the ensemble as an affirmation of the Nasrid Dynasty, by means of opulent decoration and the epigraphic poetry of Ibn Zamrak in the Fountain of Lions, declaring the genealogical roots of Muhammad V.

Palavras-chave: Espanha Islâmica – Grande Mesquita de Córdoba – Alhambra de Granada – Ornamento no Islã.

LINK para acessar o ARTIGO COMPLETO:

http://www.revistamirabilia.com/sites/default/files/pdfs/21-10.pdf

Carimbos chineses/ Chinese seals.

 

Vale à pena acessar o link abaixo, que é a fonte do texto que reproduzo aqui, para ver todas as ilustrações.

 

www.chinaonlinemuseum.com/carving-seals.php

 

The first record of a seal in China is from 544 BC. Actual bronze seals survive from the 5th century BC, and the practice of sealing must be some centuries older. The emblematic characters cast on Shang Dynasty (1600-1046 BC) bronze vessels imply the use of something like a seal for impressing on the mold. The royal seal and other seals of high office were termed xi (璽); other seals of rank and appointment were yin (印). In the Tang Dynasty (AD 618-907), it is said that Empress Consort Wu (武则天) disliked the fact that xi (璽) was close in sound to death (si, 死) or rest (xi, 息), so she changed the name of seals to treasure (bao, 宝). In subsequent centuries, both names were used. The imperial seal was traditionally large and square, often made of jade.

The private seals (印鑑, 圖章 or 印章) used in China, commonly square and reading merely “seal of so and so”, served as a confirmation of signature or a sign to be verified. They are made of stone, ivory, wood, or jade. Used by artists and collectors to mark their calligraphies, paintings and books, there is hardly a limit to their fanciful designs and phraseology. A man might own scores of seals, using his many sobriquets, especially those suggesting unworldly and rustic tastes. A seal is impressed in red ink—made of cinnabar in water and honey or suspended in sesame oil, hempseed oil, etc.—held ready on a pad of cotton or moss. The characters can be carved either in relief (阳雕), or in intaglio (阴刻). The former type appears in red (zhuwen, 朱文 or 阳文); while the latter appears in white (baiwen, 白文 or 阴文) against the inked ground.

       Seals are often used on Chinese calligraphy works and Chinese paintings. Owners or collectors of paintings or books will often add their personal or studio seals to pieces they have collected. This practice is an act of appreciation towards the work. Some artworks have not only seals but also inscriptions or afterwords from the collectors. For example, the Qianlong emperor was famous for his literary ambitions, including calligraphy, and had produced a large amount of texts affixed with his seal. He had as many as 20 different seals for use with inscriptions on calligraphy works and paintings he collected. A seal of a famous collector or connoisseur would become an integral part of a work of art and could substantially raise its value. Thus in the course of several centuries, some Chinese calligraphy works and paintings become covered by dozens of different seals.

 

A múltiplas faces do Islã (artigo meu publicado na Revista “Saeculum” da Universidade Federal da Paraíba)

 

No link que segue, um artigo meu sobre o Islã:

periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/srh/article/view/22242/12335

RESUMO: O objetivo do presente artigo é o de elaborar uma síntese histórica do desenvolvimento do Islã, dando ênfase à diversidade de suas diversas correntes. Analisamos a primeira grande ruptura, que ocorreu no século VII, com a divisão entre sunitas e xiitas, e também o desmembramento do próprio xiismo em grupos distintos, ainda hoje bem demarcados uns dos outros. Em seguida, nossa análise recaiu sobre o sufismo, que permeia todo o conjunto do Islã, com adeptos entre os sunitas e xiitas e é emblemático da imensa multiplicidade de uma religião que é muito rica e passível de variadas interpretações. Como se trata de um trabalho de síntese histórica, utilizamos como fontes autores que escreveram sobre as diversas correntes do Islã, entre eles árabes e iranianos cujas análises podem ser consideradas “internas”, e também especialistas ocidentais que têm se debruçado longamente sobre o tema. Nossa conclusão é a de que muitas vezes se difunde a ideia de uma religiosidade homogênea, centrada na leitura do Corão e nos Hadith, em geral a partir de uma visão do grupo majoritário, que é sunita e no entanto é a diversidade e até mesmo o sincretismo, como no caso de algumas linhas sufistas, que se evidencia em uma leitura atenta das fontes.

Palavras Chave: Islã; Sunismo; Xiismo; Sufismo.

Artigo recebido em 08 abr. 2014.